Sábado passado fui visitar o escritor Campos de Carvalho, recentemente
ressuscitado pela mídia, depois de 30 anos de silêncio profundo. Me
autografa o seu livro Obra Reunida, recentemente lançado pela Editora
José Olympio, com sua letra trêmula. Me diz que está se esgotando a
primeira edição.
Fala pouco, o genial escritor. Com quase oitenta anos e
múltiplos derrames, tem dificuldades para andar e falar. Quando menos se
espera eles diz coisas:
- Minha empregada liga duas vezes por dia para a Paraiba
para falar com a filha dela. Sabe o que ela fala? Nada! Nada! "Tá
chovendo aí"?
- Queria que um crítico jovem comentasse os meus livros.
- Toda noite releio meus livros. Acho que eu era doido
mesmo. O Carlos Felipe Moisés acha que eu não sou.
Carlos Felipe telefona. Recebeu tarde o convite para o
uísque. Tem compromissos. Marcamos para outro dia o encontro. Eles não
se conhecem, mas se respeitam e se admiram.
- O Jorge Amado disse que o meu melhor livro é A Chuva
Imóvel. Não é. É o Púcaro Búlgaro. E a Vaca de Nariz Sutil.
Sua mulher Lygia, simpaticamente fellinniana e de idade
indefinida, autora dos quadros que enfeitam a sala de estar num décimo
quarto andar, serve uísque doze anos e todas as marcas possíveis de
cervejas estrangerias. Ele não pode beber nem fumar. Mas bebe e fuma.
Fica em silêncio por intermináveis minutos.
Lygia o atropela: "Fala, Walter, você tem que falar,
Walter"! Ele bate a mão no coração, e respira ofegante. Não sorri.
Walter Campos de Carvalho não sorri nunca. Diz que dói.
De repente, o olhinho dele brilha:
- Escrevi um texto. Traz lá, Lygia.
Juro que não acreditei de imediato.
- Pega lá, Lygia!
É um texto pequeno, escrito com sua letra-louca-varrida. A
maior importância do manuscrito é que é o primeiro texto que ele escreve
desde 1972, quando mandava cartas para ele mesmo, através do Pasquim.
Portanto, seu primeiro texto em 23 anos.
- Posso publicar?
Ele enfatiza com o dedo da mão direita que não.
- Deixa, Walter..., pede Lygia.
- Não!
Com certa dificuldade me diz que vai escrever um novo
romance. Sobre o Diabo.
- Mas o diabo é que eu não consigo encontrar humor no
Diabo. E eu quero escrever humor. Como no Púcaro Búlgaro.
Outro silêncio, a calma e a paz cheia de sabedoria de
acender um cigarro, beber mais um gole lento de cerveja dinamarquesa.
- O Diabo!
Volta a falar mal da empregada Maria que o acompanha ao
Bingo: "Ela é analfabeta. O sujeito canta o 81 ela marca o 18. Assim não
dá"!
- O governo abaixou em dois mil reais a minha
aposentadoria. O Tesouro vai mal...
Volto a insistir em publicar o seu novo manuscrito.
Inesperadamente ele pega o bloquinho de anotações, destaca a página e me
dá. Digo que vou guardar o original e vender quando ele morrer: "Vai
valer uma nota".
- Então já vale...
E dá um sorrizinho.
Campos de Carvalho está voltando a escrever. E a sorrir.
Os leitores que o aguardem. A seguir, o seu texto.
.
SEGUNDO SONHO
(Campos de Carvalho)
Estou no palco sozinho.
Sei que a peça vai começar daí a instantes, mas ignoro
completamente meu papel, o que tenho a fazer e sobretudo a dizer.
O script está na minha mão, mas não consigo lê-lo: as
letras se embaralham e o sentido do texto muda sem que haja qualquer
concatenação. Tenho a vaga idéia de que um casal (dois atores famosos e
tarimbados) deve chegar a qualquer momento e então eu terei que
dirigir-lhes a palavra e começar a atuar.
Pela janela vejo dois vultos suspeitos tramando alguma
coisa e num deles reconheço o ator com quem contracenarei.
O casal logo depois entra no palco, sem se anunciar, e eu,
no desespero, chego a pedir que espere que eu leia ao menos as primeiras
palavras do meu papel.
A cortina se levanta e eu decido improvisar tudo em tom
humorístico e sem sentido.