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UM TEXTO INÉDITO DE CAMPOS DE CARVALHO

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o estado de s. paulo

1998

 


Sábado passado fui visitar o escritor Campos de Carvalho, recentemente ressuscitado pela mídia, depois de 30 anos de silêncio profundo. Me autografa o seu livro Obra Reunida, recentemente lançado pela Editora José Olympio, com sua letra trêmula. Me diz que está se esgotando a primeira edição.

Fala pouco, o genial escritor. Com quase oitenta anos e múltiplos derrames, tem dificuldades para andar e falar. Quando menos se espera eles diz coisas:

- Minha empregada liga duas vezes por dia para a Paraiba para falar com a filha dela. Sabe o que ela fala? Nada! Nada! "Tá chovendo aí"?

- Queria que um crítico jovem comentasse os meus livros.

- Toda noite releio meus livros. Acho que eu era doido mesmo. O Carlos Felipe Moisés acha que eu não sou.

Carlos Felipe telefona. Recebeu tarde o convite para o uísque. Tem compromissos. Marcamos para outro dia o encontro. Eles não se conhecem, mas se respeitam e se admiram.

- O Jorge Amado disse que o meu melhor livro é A Chuva Imóvel. Não é. É o Púcaro Búlgaro. E a Vaca de Nariz Sutil.

Sua mulher Lygia, simpaticamente fellinniana e de idade indefinida, autora dos quadros que enfeitam a sala de estar num décimo quarto andar, serve uísque doze anos e todas as marcas possíveis de cervejas estrangerias. Ele não pode beber nem fumar. Mas bebe e fuma. Fica em silêncio por intermináveis minutos.

Lygia o atropela: "Fala, Walter, você tem que falar, Walter"! Ele bate a mão no coração, e respira ofegante. Não sorri. Walter Campos de Carvalho não sorri nunca. Diz que dói.

De repente, o olhinho dele brilha:

- Escrevi um texto. Traz lá, Lygia.

Juro que não acreditei de imediato.

- Pega lá, Lygia!

É um texto pequeno, escrito com sua letra-louca-varrida. A maior importância do manuscrito é que é o primeiro texto que ele escreve desde 1972, quando mandava cartas para ele mesmo, através do Pasquim. Portanto, seu primeiro texto em 23 anos.

- Posso publicar?

Ele enfatiza com o dedo da mão direita que não.

- Deixa, Walter..., pede Lygia.

- Não!

Com certa dificuldade me diz que vai escrever um novo romance. Sobre o Diabo.

- Mas o diabo é que eu não consigo encontrar humor no Diabo. E eu quero escrever humor. Como no Púcaro Búlgaro.

Outro silêncio, a calma e a paz cheia de sabedoria de acender um cigarro, beber mais um gole lento de cerveja dinamarquesa.

- O Diabo!

Volta a falar mal da empregada Maria que o acompanha ao Bingo: "Ela é analfabeta. O sujeito canta o 81 ela marca o 18. Assim não dá"!

- O governo abaixou em dois mil reais a minha aposentadoria. O Tesouro vai mal...

Volto a insistir em publicar o seu novo manuscrito. Inesperadamente ele pega o bloquinho de anotações, destaca a página e me dá. Digo que vou guardar o original e vender quando ele morrer: "Vai valer uma nota".

- Então já vale...

E dá um sorrizinho.

Campos de Carvalho está voltando a escrever. E a sorrir. Os leitores que o aguardem. A seguir, o seu texto.

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SEGUNDO SONHO

(Campos de Carvalho)

 

Estou no palco sozinho.

Sei que a peça vai começar daí a instantes, mas ignoro completamente meu papel, o que tenho a fazer e sobretudo a dizer.

O script está na minha mão, mas não consigo lê-lo: as letras se embaralham e o sentido do texto muda sem que haja qualquer concatenação. Tenho a vaga idéia de que um casal (dois atores famosos e tarimbados) deve chegar a qualquer momento e então eu terei que dirigir-lhes a palavra e começar a atuar.

Pela janela vejo dois vultos suspeitos tramando alguma coisa e num deles reconheço o ator com quem contracenarei.

O casal logo depois entra no palco, sem se anunciar, e eu, no desespero, chego a pedir que espere que eu leia ao menos as primeiras palavras do meu papel.

A cortina se levanta e eu decido improvisar tudo em tom humorístico e sem sentido.