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Um sucesso incomoda muita gente

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o estado de s. paulo

04/03/96

 


Vocês já notaram como o brasileiro odeia o sucesso? O sucesso dos outros? De outro brasileiro?

Vejam o caso do maravilhoso "O Quatrilho", do Fábio Barreto. Foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Fato que não ocorria com filmes brasileiros desde 1962, com "O Pagador de Promessas", do Anselmo Duarte.

O que significa um filme concorrer a um Oscar? Abrir o mercado cinematográfico brasileiro para o mundo. Emprego, dinheiro, colocar o Brasil no circuito. Parece que nem mesmo o pessoal do cinema entendeu assim.

Um dia depois da indicação fui almoçar num sítio de uns amigos. Tinha lá gente do cinema paulista. Felizes? Não, a fofocar. A conversa geral é que o filme só tinha sido indicado porque o Brubo Barreto, irmão do Fábio é casado com a Emy Irving, ex-mulher do Spilberg. E cria o filho do Spilberg. Olhem só a maldade. Que o Spilberg teria "ajeitado" tudo. Fiquei calado, aluguei o filme e fiquei deslumbrado. Para mim, roteirista de cinema, é uma honra estarmos concorrendo ao maior prêmio do cinema mundial com "O Quatrilho".

Bem, aí está havendo uma enquete feita pelo USATODAY, jornal de grande circulação lá. Resolvi votar e entrei na Internet através de um dos jornais aqui de São Paulo. Para meu espanto, imediatamente antes de você votar, colocaram uma crítica "avacalhando" com o filme dos Barreto. Para que, meu Deus? Repito: para que? Fica agora a mundo todo, através da Internet, vendo uma "descida de pau" no filme que representa o Brasil. Feita por um jornal brasileiro. Para que?, pergunto mais uma vez.

Depois foi a vez dos moleques (no bom sentido) dos "Mamonas Assassinas". Foram exatos 240 dias do mais estrondoso sucesso musical dos últimos anos no Brasil (e em boa parte do mundo). Começaram o pau. Principalmente dos chamados "intelectuais" e jornais de todo o país. Pais, falsos moralistas, escrevendo cartas para as redações, ligando para as rádios. Mal amadas mães proibindo a criançada de ouvir "aquelas indecências". Em Portugal, na cidade de Alfenas, proibiram a música do vira-vira. Em Belo Horizonte, também.

Quem me apresentou o CD do grupo foi o Ricardão Carvalho, da Argumento. Adorei. Sempre gostei de espinafração, escatologia. Eles tinham lá seu talento. Não eram nenhuma brastemp, mas o humor chegava até a ser requintado. Todo mundo de pau.

Na noite de sábado, mais ou menos na hora do acidente idiota, estava com meu filho na casa de Mathew Shirts. Umas dez pessoas - todas intelectuais e ex-comunistas - a falar mal. Mas os filhos de todos, amando. E eu. Discuti até com o meu filho de 18, que achava um horror. Naquele momento os meninos estavam morrendo, antes de concluirem o segundo disco.

No domingo, almoço na casa de Tenório e Annete, mais intectuais divididos entre o jogo com o Uruguai e a morte com os Mamonas. Até um imortal estava lá: meu querido Sábato Magaldi. Ali, já se começava a discutir o fenômeno Mamonas com menos rancor e até com uma certa simpatia. O Brasil batia no Uruguai e os Mamonas batiam nos nossos corações.

Segundo feira, logo cedo, abro os jornais. A imprensa se rendeu ao sucesso dos garotos. Nas sessões de "repercussão", só elogios rasgados aos cinco meninos de Guarulhos. De gente boa que, tenho certeza, até aquele momento, abominava o sucesso daqueles meninos humildes.

Isso já aconteceu com muita gente. Van Gogh, por exemplo, que nunca vendeu um quadro enquanto estava vivo. Depois virou Deus.

Não sei se os Mamonas vão virar Deus, Mas anjos, com certeza. E vão animar muito as festas lá no céu com a insuperável irreverência. Não sei se "O Quatrilho" vai ganhar o Oscar. Mas vai levantar, novamente, o nosso cinema, aos céus do estrelato.