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Um ser médico (aposentado)

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Revista Ser Médico

13/09/99

 


E o "ser" aqui é no sentido de pessoa, criatura. E, como pessoa, o ser é o meu pai. Médico, 88 anos, aposentado. E duro, o doutor Prata. Mas também duro na queda.

- É uma vergonha, meu filho, depois de trabalhar 60 anos, ter que te pedir esse dinheiro para arrumar os dentes da sua mãe.

Realmente é uma vergonha. O país é uma vergonha. Logo ele, meu pai, que sempre me recomendou pagar os impostos, o inps. A aposentadoria, meu filho, a aposentadoria.

Logo ele, que foi o primeiro médico a chegar em Tupã, interior de São Paulo, morando em casa de madeira. Depois São Joaquim da Barra, onde atendeu Rolando Boldrin e Regina Duarte, tudo molecote de pé no chão.

Foi pediatra, tisiologista e depois teve um laboratório de análises, o primeiro de Lins e região, como orgulhosamente dizia.

Logo ele, que foi Delegado de Saúde de toda a região noroeste e quem servia café para ele em Bauru era o Dondinho, pai do Pelé.

- Que futebol o quê, Dondinho, futebol não dá camisa pra ninguém. Deixa que eu falo com o Carvalho Pinto e a gente arruma um lugar aqui para o Dico.

Ainda bem que o Dondinho não ouviu os conselhos do chefe.

Quarenta anos trabalhando para o Estado. Amigo dos secretários da saúde e de tantos governadores. Quando visitavam a nossa cidade iam almoçar na minha casa. Maionese e vatapá. Hoje, duro.

Tinha umas velhinhas em Lins de veia fina. Só o doutor Prata conseguia injetar uma agulha nelas. Até parto fez quando em fazendas estava. Quantas madrugadas não vi o meu pai saindo para atender um paciente?

É, o meu pai era daqueles médicos de antigamente, o chamado Médico da Família. Em Lins, atendeu a três gerações.

Forte como um touro (até hoje, aos 88) quando não tinha doador ele mesmo fazia a ligação direta do braço dele para a mulher que não tinha dinheiro para comprar sangue. Literalmente deu o sangue pela profissão. Um ser médico.

Dei o dinheiro para os dentes da minha mãe. Ele disse:

- É emprestado. Vou te pagando aos pouquinhos.

Não vou receber, é claro. Mas que ele vai insistir, vai.

E o que mais me espanta é que o nosso ministro da saúde não é um ser médico. E talvez, quando aposentar, não vá receber o que um verdadeiro ser médico recebe hoje.

Em política, a transfusão é mais em cima.