Página anterior

Um separado no supermercado

Próxima crônica

o estado de s. paulo

28/06/99

 


Disso ele se orgulhava: nunca tinha feito um supermercado! Coisa de mulher e não se fala mais nisso.

Há três meses separado, segurava as pontas. Ia na padaria, tudo bem. Tomava o cafezinho no bar da esquina onde, por sorte, vendia papel higiênico. Ir ao super (como dizia sua mulher) seria render-se. De uma maneira ou outra a sua esposa ficaria sabendo. Afinal, é bom que se saiba, foi este o motivo da separação.

Ele não fazer supermercado nem quando ela estava nas últimas semanas da gravidez foi a gota d'água. As prateleiras vieram abaixo e a catraca dançou. Ele tinha certeza que, uma vez ido, ela abusaria. Teria que comprar fraldas. E o pior, desfilar naquele carrinho cheio de papel higiênico. Pru resto da vida empurrando carrinho cheio de neve.

Sim, desfilar o carrinho pelo supermercado mostra quem você é. Seus gostos, o que gosta de comer, se tem mais cerveja do que leite, se gosta de folha dupla. E modess? Imagina ele flanando com aquilo no carrinho aberto. E se ele encontrasse com um amigo (efeminado, é claro) levando uísque nacional? O mundo ficaria sabendo que ele andava duro.

Ele estava pensando nisso tudo quando deu uma geral no apartamento novo. Só tinha o básico. Cama, chuveiro e chaveiro. Dia a dia ele foi chegando à conclusão que uma ida ao super era inadiável. Claro que não seria naquele que a ex-mulher frequentava. Foi lá pra zona leste.

E não foi logo entrando, não. Ficou de longe, observando, para ver se tinha homem fazendo compras. Tirou a listinha do bolso e tentou decorar. Seria muito vergonhoso ficar olhando aqueles rascunhos lá dentro, na frente daquelas m mulheres super-práticas. Já que ele tinha que ir, tinha que ter tudo na cabeça, decorado! Profissional.

Pelos corredores, vez ou outra, não havendo ninguém por perto, ele tirava o papelzinho do bolso e dava uma filada. O carrinho dele já estava pela metade e ele havia acabado as compras. Estava se dirigindo para o caixa quando passou um outro separado por ele com o carrinho abarrotado. Sentiu-se desafiado, deu meia volta e voltou às compras.

Sem ele perceber, foi comprando coisas que a sua mulher gostava. Até um vasinho com flores, comprou. Aquele absorvente que ela usava. O sabonete que ela gostava. A pasta de dente. Uma hawaiana nova. Uma caixa de bis. Uma não, vou levar logo duas, que a Gorda gosta. Como é mesmo o nome daquele vinho chileno que a gente tomava? Ou era argentino?

O edredon estava barato, ela sempre quis um. Sonho de Valsa, claro. O último disco do Fábio Junior. Aproveito e levo o Emílio Santiago também que é romântico.

Quando chegou no caixa com os seus três carrinhos, era outro homem. Encheu o porta-mala do carro que, sem que ele dirigisse e notasse, tomava o rumo da sua antiga casa.

Nunca tinha se sentido tão macho e feliz como quando tocou a campainha da casa da ex-mulher.

E ela abriu a porta.