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UM EPÍTETO PARA RONALDINHO

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o estado de s. paulo

1997

 


Manuel, Valdir, Edvaldo, Edson e José. Você escolheria estes jogadores para a linha da seleção brasileira de 1958? Ou de qualquer outra época?

E esses: Santos, Pereira, Izidio Neto, Nascimento e Macia? Muito menos. Imagine um centro-avante chamado Izídio Neto. Pior, só Oséas.

Pois eles são Garrincha (Manuel dos Santos), Didi (Valdir Pereira), Vavá (Edvaldo Izídio Neto), Pelé (Edson Arantes do Nascimento) e Pepe (José Macia), campeões do mundo em 58. Com Zagallo na ponta-esquerda no lugar do Pepe. Já que o Canhoteiro, contundido não pode ir, dando lugar ao Zagallo. Aliás, como deveria ser o nome do cearense Canhoteiro?

O que eu quero dizer é que antigamente os jogadores de futebol eram conhecidos pelos seus apelidos, em sua grande maioria. Coisa rara hoje em dia. Acho que Pelé nunca seria Pelé se jogasse com o nome de Arantes. Pior ainda Nascimento. Menor carisma.

Disse-me um amigo que são os próprios empresários de hoje em dia que estão exigindo que eles usem os nomes (e se possível nome duplo) para facilitar negociatas no exterior. Pode ser. Não deve ser fácil convencer um italiano a comprar um jogador chamado Bobô ou mesmo Dodô.

Mas houve uma época em que mais da metade do time era de apelidos. Como a linha de 58. Naquele tempo tinha-se Pé de Valsa, Quarentinha, Esquerdinha, Canhoteiro, Frangão, Formiga, Chinezinho e até mesmo o Nariz. Sem falar no Pagão, coitado, abandonado por Deus.

O futebol vai involuindo e charmes vão desaparecendo da sua própria literatura.

Os epítetos, por exemplo. O que é um epíteto? É aquela frase que você coloca depois do nome do craque. Po exemplo: Zagallo, o formiguinha, Didi, o príncipe etíope, Luizinho, o pequeno polegar, Baltazar, o cabecinha de ouro, Leônidas, o diamante negro, Pelé, o rei, o atleta do século e hoje, o ministro, Zico, o galinho de Quintino, Rivelino, o reizinho do parque, Pepe, o canhão da vila, Newton Santos, a enciclopédia, Vavá, o peito de aço, Mario Sergio, o rei do gatilho, Almir, o pernambuquinho. E por aí vai. Você, que gosta de futebol, vai lembrar de milhares deles.

Toda esta metade de crônica para chegar no Ronaldo, ou Ronaldinho, como querem os brasileiros. Se ele jogasse em outros tempos, provavelmente não seria nem Ronaldo e nem Ronaldinho. Seria Dentinho, quiçá. Será que faria sucesso? Imagine a manchete: Dentinho Contundido.

Uma vez, o meu amigo publicitário Carlito Maia numa ponte aérea, em 78, me vaticinava:

- Precisamos encontar um nome para esse garoto que foi campeão brasileiro pelo Guarani. Com esse nome ele não vai longe. Careca, pode?

Mas voltemos ao Ronaldinho, Ronaldo ou Dentinho. Alguém precisa arrumar logo um epíteto para ele. Apesar de ele já ser considerado o melhor jogador do mundo, falta um epíteto. Falta, eu sinto. Tenho pensado nisso muito seriamente e não acho. Mas alguém tem que achar, para que o sucesso dele seja eternizado. Ronaldo é um nome muito banal. Tem Ronaldão, tem Ronaldinho. Mas falta-lhe o respeitoso epíteto.

Não me venha com besteiras como “o carequinha de ouro”, ou “o garota da Suzana”, ou “o moleque de São Cristovão”, “o garoto de Ipanema”. Nada disso. Acho que o epíteto deve vai surgir de repente, numa gravação de um jogo de futebol, dado por um destes locutores criativos, tipo Pedro Luis, o pai da matéria. Não, parece que o pai da matéria não é ele, não.

Tenho a impressão que todos nós temos que pensar neste epíteto, antes que ele suma das manchetes internacionais. Se Falcão foi o Rei de Roma, ele seria o Rei de Milão, o Rei da Ópera, o Rei da Bota (gostei deste) ou o Garoto da Máfia?

Pense comigo. Mande cartas para a redação. Quem sabe um dia você não fique conhecido como o Rei do Epíteto?

Pense aí, meu querido Roberto Benevides.