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o estado de s. paulo

28/11/2001

 


Naquele tempo, dizia-se "a coisa tá broca" quando, por exemplo, alguém te pedia uma grana emprestada:

- A coisa tá broca.

Significava que a situação estava preta. E - muitas vezes - ao dizer a já desaparecida expressão, fazia-se um movimento com as duas mãos que produzia um som: top! O Henfil, através do traço dos seus imortais Fradinhos, imortalizou o top-top. Era o gesto preferido do Baixinho quando queria mostrar ao Comprido, que ele tinha, digamos, se danado.

Você já sabe como é o gesto: fecha-se a mão esquerda e, com a direita espalmada, bate-se nela. Faz top! Lembrou? Faça um agora, para ver como é gostoso. Viu?

Estou perguntando se você se lembra, porque o gesto sumiu, mesmo tudo estando a se danar por aí. Era um gesto obsceno, em suas origens. Mas, com o tempo, chegou a entrar nas salas das melhores famílias: top-top. Um gesto que se tornara folclórico cada vez que o Brasil mais se danava e mais a coisa ficava broca. Hoje copiamos dos americanos - como sempre - o gesto de hirtar o dedo médio. Este sim, obsceno, sujo, pornográfico. Até a mulher do Pitta andou fazendo, por aí e ali.

Voltemos ao tradicional top-top. O que eu mais gostava era ficar observando as variações em torno do movimento. Cada pessoa tinha sua maneira especial de fazer o gesto, seu estilo.

a - O tradicional: fechava-se a mão esquerda e batia-se com a palma da mão direita. O recado era simples, direto, som oco.

b - O duplo: batia-se duas vezes com a direita para dizer que a barra tinha sido mais pesada. Alguns exageravam, batiam três ou mais vezes. Tinha até uns neuróticos que batiam mais de dez vezes. Mas era exceção, exibicionismo.

c - Na perna: os mais tímidos e recatados, usavam só a mão esquerda fechada e, quase disfarçadamente, batiam a mão na perna, lateralmente. Era silencioso, quase acadêmico.

d - Com cuspe: os escatológicos davam uma cuspidinha na mão fechada esquerda e lá vinha com a palma da outra mão. O som era um top misturado com splash. Mas era anti-higiênico. Principalmente se ele fazia isso o dia inteiro.

e - Com giro: eram aqueles que preparavam a mão esquerda, levavam a direita até acima da outra e ficavam girando (a direita, virada para baixo), girando, girando, criando em nós uma expectativa para ver a que horas ele ia bater. Girava, girava e vinha um supertop. Era meio cafajeste, mas tinha seu charme.

f - De raspão: colocava-se a mão esquerda fechada mais adiante do corpo e a direita vinha na diagonal, passando de raspão. Era um pouco cansativo fazer isso. Nem sempre ocorria o som típico do gesto. Quem tinha bursite podia se dar mal.

g - O discreto: fazia usando só com um das mãos. Fechava-se a mão e, com o dedão, fazia ali um pequeno mas significativo topinho. Foi usado muito no começo dos 60, quando um de nossos amigos sumia misteriosamente. Cadê o fulano? E a gente, só com a direita (naquele tempo, só com a esquerda, era perigoso), fazia o gesto. Ou seja, dançou, caiu nas mãos (e pau-de-arara) dos homi.

h - Com sopro: sei lá o por que, mas dava-se, antes, uma sopradinha na esquerda fechada.

i - Para falecimentos: quando perguntado por alguém que havia morrido, o gesto era apenas com a direita fechada, batendo-se no coração. Era bonito, sentimental, chegava-se às lágrimas.

Mas há muito - muito tempo mesmo - não vejo ninguém mais fazer um top-top. Talvez a nova geração nem esteja entendendo do que eu estou falando.

E mais digo: nunca vi - em lugar nenhum do mundo - o gesto. Era uma iniciativa brasileira, um made in Brazil, uma patente nossa, um orgulho de todos nós, brasileiros.

Vamos ressuscitar o gesto, gente. É simples e barato