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TODO MUNDO TEM DIREITO A UM BRANCO  

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o estado de s. paulo

1995

 


No teatro, quando o ator se esquece do texto no palco, diante do público, chama-se a isso "dar um branco". Não sei como se chama isso em crônica. Mas há dois anos e meio escrevendo aqui nesse espaço, hoje, pela primeira vez, me deu o branco.

 Eu temia que, um dia, isso iria acontecer. Acontece com todo mundo. Outro dia o genial e amigo João Ubaldo Ribeiro escreveu uma crônica inteira sobre a falta de assunto. Isso significa que tenho precedentes e não vou ser mandado embora.

 É um branco de leve e na semana que vem prometo voltar com tudo. Mas tenho que chegar ao fim desta crônica até o meio-dia que o meu editor, o Fernando, está esperando.

 A tela do computador em branco é fria. E dói. A gente se sente um inútil, um fim de linha. Peço ajuda ao meu filho e ele me diz uma coisa interessante: "Pega o Almanaque Abril (que eu tenho todos, desde 75) e note como eles tratavam certos assuntos nos anos setenta e como tratam hoje". Realmente é muito interessante o texto cheio de "metáforas" para explicar, por exemplo, a morte do Hersog e mesmo a propria revolução de 64. Mudou o Brasil, mudou o Almanaque Abril. Ambos para melhor, felizmente.

 Mas isso não dá uma crônica. Daria uma reportagem interessante, fazer isso não apenas com o almanaque, mas também com as revistas. Mas isso é tarefa para pesquisadores, onde não me intrometo. Sociólogo foi feito é para ser presidente da república.

 Penso em escrever sobre a semana da independência, mas a Marília Gabriela esgotou o assunto no dia 7, com uma crônica maravilhosa, no início do seu programa. Penso em responder outra carta que a Adriana me mandou. Penso até mesmo em fazer um edital, procurando moças de fino trato para relacionamento afetivo e sincero. Que não me venham com joanetes, é tudo que pediria.

 Penso em escrever uma crônica comparando Jesus Cristo e Edir Macedo, mas as minhas leitoras mais velhas jamais me perdoariam. Mas peço aos leitores que prestem atenção. O Edir está fazendo aqui na terra exatamente o que Jesus fez naquele tempo. Vide dízimos, milagres. Só que não mente: nunca disse ser filho de Deus e nem que a mãe dele era a virgem Maria. Mas esse assunto é muito polêmico e fica para outro dia.

 Já a minha filha Maria, de 16 anos, vem reclamar que eu nunca a cito nas minhas crônicas. Observação aliás, feita pelo Badá, amigo dela e filho do meu querido Carlos Alberto Dória. Diz que eu falo sempre no Antonio, que tem dezoito. Acontece, Maria, que ele mora comigo e rolam mais casos. Mas, para você parar de reclamar, vou contar uma história sua. Aliás, uma história linda.

 A Maria tinha uns onze anos. Um fim-de-semana maravilhoso, eu com convite para ir para uma casa cinematográfica em Buzios. Mas a Maria tinha uma redação para fazer. Tinha que fazer umas pesquisas. Não queria ir. Até que eu a convenci que levaria o meu laptop e faria a redação para ela. Confessei a ela que a minha mãe sempre me ajudava nas minhas primeiras redações.

 Devo confessar que ela, honesta e aplicada nos estudos, relutou bastante. Mas eu e o Antonio a convencemos e lá fomos nós.

 Enquanto eles se deliciavam na praia em frente a casa, eu fiquei fazendo a redação para a minha filha. Não me lembro o tema, mas caprichei. Primeiro para ficar boa, depois para parecer que havia sido escrita por uma pré-adolescente.

 Voltamos para casa, imprimi o texto e ela recopiou com a letrinha miuda dela.

 Dias depois, ela, acostumada a nunca tirar abaixo de 8, me liga, fula da vida:

 - Pai, você tirou 6,5!!!

 Que deve ser a nota que vocês me darão por esta crônica.