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Toda quarta-feira de cinzas e a internet

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o ESTADO DE s. pAULO

25/02/2004

 


notou? Todo ano, há onze, para ser exato, a quarta-feira de cinzas cai no dia da minha coluna. Deve ser o destino. Você de ressaca e tal. E eu aqui, tendo que trabalhar em plena segunda. A segunda sim, é que é de cinzas.

E todo ano eu fico aqui na tua frente pensando em não escrever sobre o carnaval. Nem sobre as enchentes que o antecedem, nem sobre o futebol que não acontece, nem sobre o escândalo político que avisa: tá chegando o carnaval, pausa na confusão. E é carnaval e as pessoas esquecem mais ou menos o rombo na nossa santa dignidade. Bingo!

E, como todo ano, eu me prometo a não falar aqui sobre o carnaval. Não é porque ele foi exatamente igual ao do ano passado que eu tenho que escrever uma crônica idem.

Eu acho que a imprensa, de um modo geral, perde muito dinheiro, muito investimento com as enchentes e os carnavais. Por que não colocam as do ano passado, dêem folga aos colegas jornalistas. Afinal, o que muda no carnaval e nas enchentes de um ano para o outro, de uma década para a outra? Absolutamente nada. Um soilicone a mais, talvez. Poderíamos passar todos os anos muito bem sem estas duas efemérides. E sem a crônica também. Aliás, acho que o Natal podia entrar nesta conta também.

Triste o povo que tem data certa para encher a casa de água (e perder quase tudo), depois para encher a cara (e não ganhar nada), depois para dar presente a amigos ocultos que nem sempre são tão ocultos assim. Um por cento de propina nem sempre é um bom prresente. O inferno da chuva, o baco do carná e um Papai Noel com neve na cabeça. E de saco cheio.

Estou sendo chato e velho e ranzinza, né? Vou mudar de assunto.

Juro que pensei mais de dez minutos. E a única conclusão a que cheguei é que na época de natal, perdão, carnaval, não tem assunto. Fora a chuva, tá tudo parado.

Pronto, abri a caixa de e-mail e achei o assunto. Acho que foi o e-mail de número 50 me perguntando uma mesma coisa. Aliás, faz tempo que estou pensando em falar nisso.

Eu queria falar sobre a polícia brasileira. Não sobre a polícia que trabalhou bravamente durante as enchentes e o carnaval, mas sobre uma polícia que não existe. A polícia da internet. Não existe uma delegaciazinha especializada, né? E os crimes estão rolando. E pra cima de mim. Pra quem eu reclamaria, se não tivesse este espaço aqui, senhora prefeita, senhor governador e senhor Lula?

É o seguinte: alguém soltou um texto pela internet chamado “Então cancela!”, e assinou o meu nome. E ainda assinou errado, com acento no a do Mario. O problema é que esta pessoa está cometendo um crime, algumas injúrias, usando o meu nome. Entre outras coisas, cai de pau em cima do Banco Real (onde num tive conta) e no cartão Visa (que tenho dois). Digamos que isto possa me prejudicar. Não poupa a Net nem os provedores.

Pelo pouco que eu entendo de computador e internet, sei que pode-se rastrear os e-mails e chegar ao primeiro, no que colocou o meu nomezinho . Mas a quem eu devo recorrer, se a delegacia ali da esquina tem uma Remington (para quem não viveu, é uma máquina de escrever, daquelas que você digita e imprime sem impressora, moderníssima)? E se o Visa cortar o meu barato (que é meio caro) como é que eu vou provar que não escrevi aquilo, prefeita, governador e presidente?

Pensem nisto enquanto curam a ressaca. País do carnaval é isso . Um texto a mais um texto a menos que diferença faz?

Tem alguém que pode me ajudar a achar este novo tipo de bandido, usando o meu nome para falar mal dos meus confetes e das minhas serpentinas?