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Também quero ser miss Brazil

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o estado de s. paulo

04/04/2001

 


Tenho certeza que, se eu fizer 19 operações plásticas por todo o meu corpo de 55 anos, serei eleita Miss Brazil 2002. A revista Época até já me deu o preço que essa vaidade vai me custar. Entre 18 e 38 mil reais. No meu caso, dado a idade, devo estar mais para o limite máximo.

Se bem que não vou ter que operar orelhas de abano. Já cai um pouco o preço. Portanto, por 30 mil, enfrento qualquer uma.

Sou uma velha (digo, velho) do tempo em que esse negócio de miss Brasil (naquele tempo com S) era coisa séria. Minha turma vai de Ieda Vargas, Vera Fischer, Adalgisa Colombo a Maria Lucia Segall e Marta Rocha. A Marta, por exemplo, ficou famosa porque tinha duas polegadas a mais. Hoje em dia, por uns 250 paus, se resolvia isso num fechar de olhos e de cartão de crédito.

Pois é, cara, a nossa miss atual, uma gaúcha, fez 19 plásticas. 19! Imagine você como é que não devia ser aquilo, antes. Provavelmente uma brasileira ajeitadinha, dando para o gasto. Pois agora ela está batendo de dez a zero na Barbie. Diz ela que tem 22 anos. Mas, antes das 19 intervenções, quem me garante que ela não tinha uns 55? Aliás, esteticamente, basta inverter os números. Coloque 55 num espelho, que vira 22.

Portanto, se eu quiser mesmo concorrer no ano que vem, o problema da idade o espelho resolve.

Será que não tinha nenhuma de 22 na praça, digna de nos representar lá fora e ganhar sei lá o quê? Será que, a partir de agora, até as nossas misses vão ser de plástico? Bonecas manufaturadas ao prazer da beleza de Los Angeles? Pobre país, onde até eu posso ser a miss. Ou você.

No nariz, vou mexer pouco. Tirar aqueles pelinhos, é claro. Lábios de miss, sempre tive, rubros e carnudos. Não vou precisar de nenhum silicone por ali. Um aparelho básico nos dentes para puxar um pouquinho para trás. Dar uma clareadinha também que o tabaco ali habita. Pequena dúvida agora entre o azul-turquesa e o verde-limão para os olhos. Talvez um verde-turquesa rápido. Uma repuxadinha aqui, outra ali, um loiro perfeito no cabelo que já tem uma ondulação que não requer nem Crescin 2000 e muito menos Henne Maru. O gogó eu engulo, numa boa.

Depois de totalmente depilado, creio que não será difícil chegar a 90 de busto e 90 de quadris. Uns cinco quilos de silicone e pronto. Vou ter problema para reduzir a barriguinha para 60 exatos centímetros. Vai ser a parte mais complicada. Mas tudo que eu tirar da barriga vai para quadris e curvinha nas costas.

Olhando agora para as minhas pernas (já depiladas) acho que podia dar um trato de arredondamento nos joelhos. Um modelito mais para Nara Leão, quiçá, quiçá, quiçá. Sem contar aquela cicatriz dum futebol nos meus 12 anos em campo de terra.

Vou me inspirar um pouco na Marylin e, se sobrar dinheiro, dar um rápido contorno no queixo. Vai ser meu pedaço que a Hebe vai gostar mais. Vai ter covinhazinha.

Com um salto, chego fácil a um metro e oitenta. Estou pronta. Me equilibrando, mas vendo tudo aqui de cima. E chegar aos 58 quilos, moleza. Duas semaninhas no spa e não se fala mais nisso.

Sim, vou chegar abafando e dizendo para o júri que ele se torna eternamente responsável por aquela que cativa. Vou citar Paulo Coelho e vou querer um Fusca do Fernando Henrique. Vou falar inglês lá fora, lá em Puerto Rico. "Pensando em me casar - com o Chico, no infinito - em Puerto Rico."

Agora falando sério (se é que isso ainda é possível depois de tantas aspirações e muito poucas inspirações): acho isso tudo um desrespeito (peito?) à mulher brasileira, tida pelo mundo inteiro como bela, linda, simpática, gostosa, viva e esperta.

Uma plasticazinha, vá lá. Mas 19!?

E você agora vai me perguntar: mas vai fazer cirurgia lá, também? Uai, quem é que me garante que a moça aí não fez? Estamos em 2001, meu filha. Ou minha filha?