Página anterior

SUA VIDA DARIA UMA TELENOVELA?

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1998

 


Há alguns dias venho trabalhando num novo desafio. Escrever uma telenovela para a Tv-Plus e Rede Bandeirantes. Para o ano que vem.

"Gente jovem, praia, Ipanema" me pedem os produtores.

Não seria melhor gente velha, cantina, Bixiga?, penso eu.

Na minha última incursão pelo gênero fui parar duas vezes no Hospital Sirio Libanês e depois me despachei para um spa.

Somos uns poucos autores do gênero no Brasil. E no mundo. Escrever telenovela mata. Uma vez, no Rio de Janeiro, numa reunião entre autores já maduros e candidatos a autores, o Boni pediu a palavra e disse:

- Vou mostrar uma coisa para vocês que estão querendo escrever novelas. Peço aos mais velhos que se levantem e abram as camisas.

Dos quinze que se levantaram, oito tinham ponte de safena. Eu, apenas uma principiante úlcera gástrica, muito bem cultivada até hoje.

Agora você vai me perguntar porque eu estou escrevendo isto aqui. É que todo mundo que me conhece, vai logo dizendo:

- Tenho uma história de uma tia minha que dá uma novela.

- Ah, se eu te contasse a minha vida.

- Você não pode imaginar como o meu avô e a minha avó se conheceram,

- Se eu soubesse escrever, não ia trabalhar, ia contar a minha vida. Um novelaço. Te garanto.

Na verdade é isso: assim como no Brasil existem 150 milhões de técnicos de futebol, existem 150 milhões de "autores" de telenovela.

Que tal se você nobre leitor ou leitora me escrevesse uma dessas histórias que acham que dão novela?

Tem que pegar leve porque o horário é o das sete. Coisa leve, divertida, sem muita sacanagem. Emoção a cada fala, a cada cena, a cada dia, a cada semanda, ganchos semanais, mensais, finais de capítulos com suspenses, personagens inteligentes e burros, gente bonita e feia. Mais bonita do que feia.

Perfídia, traições, heranças, filhos sem pais, pais sem filhos, adultério, vinganças escabrosas, quem matou Salomão Ayala? Foi a Beatriz Segall?

Mais ou menos trinta personagens, uns quinze cenários, poucas cenas externas, trinta páginas por dia, espaço um.

Tá fácil ou quer mais?

Casais em transe, triângulos amorosos (entre jovens e entre velhos), dinheiro em jogo, mais perfídia, gente boa, gente má, mentiras deslavadas, um engraçadinho magrinho e uma gordinha simpática, extorsão, pitadas políticas, crítica (de leve) ao sistema, dois ou três atores negros, se possível fora da cozinha.

Chantagens, fazendas, cavalos (cachorro não, que são difíceis de interpretar). Crianças, o menos possível.

Alguns crimes que durem vários capítulos. Dois ou três personagens com barba, homens fortes, mulheres gostosíssimas, uma cachoeira com laguinho em baixo. E uma loira ou mulataça peladona. Um salão de cabelereiro de mulher. Outro de homem.

Barzinho, moto e um bêbado.

Sofás, muitos sofás. Uma cadeira de balanço. Mesa de refeição sem a cadeira do lado de cá, onde fica a câmera com todos comendo na sua direção. Muita laranjada para café da manhã.

Não se esqueça dos merchandising, por favor.

E do título. Difícil arrumar um título que ainda não foi usado, principalmente se não entrar a palavra "amor". Título de duas palavras são, geralmente, os melhores.

Velórios sempre pegam bem. Enterro. Enterro com chuva, melhor ainda. A produção que se vire.

Junte tudo isto e bate num liquidificador que você terá uma novela.

E depois assista, por favor. Durante seis ou sete meses, todas as noites.

E vai perceber que tudo é mentira, ficção, que não tem nada, absolutamente nada, com a sua vida.

Nem com a minha.