Página anterior

Somos todos muito pacientes

Próxima crônica

o estado de s. paulo

08/01/96

 


Ligo para marcar hora no médico ou no dentista e a mocinha, a ler Paulo Coelho, logo pergunta:

- O senhor já é Paciente?

É quando eu começo a ficar imPaciente. Porque as pessoas que procuram dentistas e médicos são chamadas de Pacientes? Por que não clientes ou mesmo doentes? Não, somos os Pacientes. Por que? Porque temos que ter paciência. Muita paciência. Senão, vejamos:

Pra começar temos que ser Pacientes para que a mocinha consiga uma hora para a gente. Se possível no mesmo mês. E olha que eu estou falando de quem pode ir ao médico. Porque aquelas pobres criaturas de Deus que ficam nas filas do INPS são muito mais que Pacientes.

Depois de conseguir um dia para ser atendido (se ainda estiver vivo), temos que ser Paciente na sala do consultório. Ninguém é tão Paciente como naquela salinha. Você é obrigado a ler uma Veja de 1993, uma Caras com o Pedro Collor na Capa e a Manchete com as últimas novidades da Guerra do Golfo. Mas Paciente mesmo é quando não tem essas revistas e apenas revistas médicas, que anunciam remédios. Que anúncios indecentes, gente. Já notaram como são pornográficas aquelas revistas? Mamas dilaceradas, pênis giantes, dentes podres, pâncreas ao vivo, instetinos delgados e finos, sangrentas gengivites amareladas. Tudo ali na sua cara, com cores berrantes, agressivas. Como somos pornográficos internamente, meu Deus.

Depois tem que ser Paciente para entender as perguntas do clínico. Paciente para aceitar todas aquelas apalpadelas. Paciente para ficar com a boca aberta horas a fio, com aquele motorzinho rondando nossos mais íntimos canais. Paciente para entender, de cara, o diagnóstico.

Ser Paciente mesmo é colocar um aparelho nos dentes é esperar dois, três anos, Pacientemente.

Nunca somos são Pacientes como quando nos colocam naquele tubo chamado ressonância magnética e temos que ficar lá dentro sem mexer uma pestana ao menos. Quarente minutos. Ali, percebemos que somos mesmo Pacientes.

Que paciência temos que ter para aguardar todos aqueles exames de sangue, urina e fezes, que mandamos fazer na semana passada. E a paciência para fazer o cocozinho dentro daquela latinha? E a vergonha de sair com a latinha por aí, sempre disfarçada? Mas não podemos nunca deixar de ser Pacientes.

Há de ser muito Paciente para decorar as horas daqueles remédios todos. O Paciente que é Paciente nunca entende direito qual que é de oito em oito horas e qual de seis em seis. Nunca batem os horários. Há de ter muita paciência para levantar duas ou três vezes de madrugada e perceber, Pacientemente, que não trouxe o copo de água para o criado-mudo.

Mas antes você já foi muito Paciente para entender a letra do médico. Já foi Paciente para ir até uma ou duas farmácias (nunca tem todos os remédios na mesma), já foi Paciente para pedir o cheque para daí uns dias.

E que paciência de Jó você teve na hora que o médico ou o dentista lhe mostrou a conta. Aliás, eles têm tanta vergonha do que cobram que pedem para nós, Pacientes, acertarmos com as mocinhas do Paulo Coelho. Coitada delas, que devem ficar muitio imPacientes ao perceberem que cada conta de cada um dos Pacientes, paga o salário inteiro do mês delas.

E depois, já mais velho, deitados no leito da morte, aí sim, temos que ser o que eles chamam de Paciente Terminal. Você está ali, sabendo que vai morrer, mas não vai deixar nunca de ser Paciente. Temos que esperar a morte Pacientemente.

Até que uma voz de enfermeira venha avisar aos seus entes queridos:

- O Paciente do 206 morreu. Meus pêsames...

PS - Peço a todos os meus leitores e leitores que tenham um pouca de paciência, pois a minha está esgotada. Entro de férias hoje e volto com você dia primeiro de fevereiro. Fazer o quê Paciência tem seus limites...