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SÍNDROME DE PÂNICO?  NÃO ENTRE EM PÂNICO!

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o estado de s. paulo

03/12/94

 


Foi de repente. Lisboa, Bingo do Belenenses. O prêmio era de 2.000 dólares e a minha cartela estava quase cheia. Começo a suar. Era fevereiro, estava muito frio. Tiro o paletó. Faltam duas bolas. Tiro o pulover. Estou por uma, tiro a camisa, ficando apenas de camiseta para o olhar surpreso dos lusitanos companheiros de mesa. Começa a me faltar ar, o meu coração acelera, minha mão está gelada. Suando frio. Acho que vou desmaiar. Alguém faz o Bingo. Foi um alívio. Não iria aguentar ficar mais nem um segundo naquela sala. Saio para a rua a procura de ar, não consigo respirar direito. Pego meu carro, o coração saltando pela boca. O trânsito congestiona. São seis e meia da tarde. Largo o carro no meio da rua, entro numa farmácia e digo que estou para desmaiar. A senhora diz que não pode me dar nada sem uma receita médica. Deve ter achado que eu era drogado. Deixo o carro no meio da rua e vou rastejando até um pronto socorro. Entro sem pedir licença, deito numa maca. Uma hora depois estou isolado na UTI do hospital com fios ligados pelo corpo todo, soro por tudo quanto é lado, fazendo mil exames. Durmo lá, sozinho, pensando, pela primeira vez, em 47 anos, na morte. Mas, no dia seguinte, estava ótimo. Era a minha última semana, depois de dois anos, em Portugal. Estresse. Os exames de sangue estavam, no dizer do atencioso médico, "exemplares". Faltava apenas um pouco de potássio: coma bananas, me disse. E tome dois Lexotan 3 mg por dia. Paguei os dois mil dólares que não ganhei no Bingo.

Fui ler a bula: "distúrbios emocionais: estados de tensão e ansiedade, humor depressivo-ansioso, tensão nervosa, agitacão e insônia. Tratamento psicoterápico e psiconeuroses". Tô ficando "louco", meu Deus, pensei. Logo eu, caipirão do interior, que sou do tempo que fazer análise era levar cocô no laboratório de análises clínicas.

Volto ao Brasil, procuro meu médico, conto tudo para ele, ele faz todos os exames. A saúde física estava ótima, apenas uma pequena esofagite. Mantém o Lexotan.

Eu tinha vergonha de dizer para as pessoas que eu estava tomando Lexotan. Afinal, para se conseguir um, tem que ter uma receita especial azul, com carimbo do médico, a gente tem que apresentar documentos, o farmacêutico te olha com cara de quem sabe que você está ficando "louco". Mas, pouco a pouco, vou percebendo que todo mundo tomou ou estava tomando Lexotan. Ouvia frases assim: fulana toma há 10 anos... Lexotan? Só dois por dia? Tá bom. Comecei a perceber que existe uma espécie de confraria entre o pessoal do Lex, como é tratado na intimidade por aqueles que estão ainda á beira de um ataque de pânico.Tem gente que liga de madrugada para amigos, propondo trocar dois Lexs por duas doses de uísque. Um dia resolvo contar para a minha irmã psicóloga e me surpreendo: eu também tomo há muitos anos. Aliás, vamos tomar um agora?, ela propôs. E dividimos um Lex para comemorar. Uma e meia miligrama para cada um. Comecei a perceber que não era apenas eu que estava enlouquecendo.

Mas aí, apesar do velho Lex, fui tendo outros sintomas. Medo de sair de casa! E quando saia e enfrentava um engarrafamento, ficava desesperado. Desesperadamente desesperado! Pensava: cara, não vai te acontecer nada. Tá tudo certo. A família está ótima, seu livro está vendendo bem, seus filhos agora estão na escola, a parte financeira está bem, você tem uma namorada legal, seus amigos estão todos aqui. Mas não adiantava. Deixava de ir onde ia, voltava para casa, me trancava. E assim eu passei quatro dias, sem comer nada, trancado, olhando para o teto. Com medo. Do quê? Não sei. Medo, pânico! Emagrecia. Me diziam: conheço uma mulher que ficou três anos trancada no quarto...

Foi quando alguém disse: Síndrome de Pânico. Era isto.

A sensação é que nunca mais a gente vai ficar bom. Que vai ser dali para pior. O pânico entra pelos poros, pelos fios do cabelo, por debaixo da porta, pela água do chuveiro. É um terror.

É quando os amigos e parentes começam a querer ajudar. E confundem cada vez mais a gente. Cada um tem uma teoria, cada um tem um amigo que já teve isto. Para uns terapia, para outros, essência floral, para aquela amiga, um psiquiatra, para o primo mais chegado, isso não passava de uma viadagenzinha. O que fazer, meu Deus? Mas todos, para consolar, ou não, diziam: passa! Eu não acreditava. Porque logo comigo? Claro, basta entrar um pouco na cabeça da gente que vamos descobrir a origem. Mas diziam que era coisa nos neurônios. Fiquei imaginando um mata-burro entre cada um dos meus neurônios.

As coisas práticas você deixa de fazer. Precisava cortar o cabelo, ir ao dentista, cancelei algumas entrevistas relativas ao lançamento do meu livro. Lembram, Angeli e Glauco, o dia que sai quase correndo lá do Pé-Pra-Fora? Lembra, produção do Metrópolis, quando eu sai do estúdio na hora que ia começar a minha entrevista? Lembra, Marta , que eu não fui na sua festa de 40 anos? Lembra, Antonio, quando eu mandava você pegar um taxi no meio do caminho? Lembra, Ruth, quando eu não pude ir buscar a mamãe no aeroporto? Lembra, Paim, quando eu não fui naquela reunião do colégio? Lembra que eu cancelei a noite de autógrafos em Londrina, Nitis? Lembra Clodovil? Lembra Roseli do Opinião Nacional? Ficava em casa. Brocha! Em todos os sentidos. Um dia sai de mãos dadas e suadas com a namorada e fui a um psiquiatra. Psiquiatra, para mim, sempre foi sinônimo de barra pesada, de tratamento de "loucos". Eu estava mesmo "louco"? Alguns amigos não queriam que eu fosse ao psiquiatra. Vai te encher de remédios, vai te dopar... Minha mulher conhece uma terapeuta que... Vai no meu analista que é lacaniano. Lacaniano não, tem que ser freudiano! Eram os amigos querendo ajudar. A Marisa teve isso, diz que quando passa dá uma euforia danada!

Mas, a esta altura, eu faria qualquer coisa para sair "daquilo".

O psiquiatra - jovem e simpático - diagnosticou a tal da Síndrome de Pânico. Vamos tratar primeiro com remédio, depois uma terapia de apoio. Comecei a tomar o remédio A, 25 mg. Uma pílula por dia. Pra começar, ele disse. E tem mais, não vai fazer efeito nos primeiros dias. E te aconselho e não ler a bula. Não li.

A esta altura todo mundo já estava sabendo que eu estava com esta "doença". E foi aí que eu comecei a perceber que eu não era o único nem em São Paulo, nem entre os meus amigos e amigas. Pouco a pouco os companheiros de doença foram se aproximando, telefonando, dando força. Um verdadeiro sindicato do pânico. Descobri, por exemplo, que a amiga de uma minha irmã tomava o tal do remedio A, 100 mg. Quatro vezes o que eu tomava. Depois descobri que a mulher de um amigo, chegou a tomar 300 mg por dia. Eu, com as minhas modestas 25, comecei a achar que eu era o menos "louco" da turma.

Até que comecei, pouco a pouco, a sair novamente. E, sábado passado, jantando num japonês, num grupo de oito pessoas, quatro já tinham passado pela mesma experiência que eu. A atriz ML dizia: passa! Parece que não vai passar, mas passa! Na minha frente o empresaio MV, disse que tomou o remedio A nove meses. Minha namorada confessou que tinha tido a Síndrome de Pânico com 17 anos. E um outro, o cineasta CK: gente, acho que foi isso que eu tive há oito anos!..

Foi bom saber que eu não era o único "louco" da turma. E agora, que já estou pondo as manguinhas de fora novamente, fico pensando nessa horrível experiência que passei e tiro duas conclusões: a primeira é que realmente tem cura e passa. É apenas um susto. E a segunda é a quantidade de pessoas de estiveram, estão ou estarão em pânico, que eu acabei descobrindo. Vejo que o problema não é só meu. Será que não é o pais inteiro que está ficando em pânico? Será que o buraco não é mais em cima? Lá por Brasília? Afinal, o pânico é de quê? De quem? Parece mesmo que o pânico é geral, é do país. O importante é que você, estando com a Síndrome de Pânico, não entre em pânico. Tem remédio para tudo, minha gente. Até mesmo para este nosso Brasil. O que o Brasil está precisando é de uma boa dose de Anafranil 25 mg. Chega de viadagem e não se fala mais nisso.