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SILVIO MAZZUCA, O NOSSO GLENN MILLER  

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o estado de s. paulo

10/06/96

 


O Brasil não tem memória.

Desculpem começar a crônica com este lugar-comum, mas foi inevitável. O maestro Silvio Mazzuca comemorou os 50 anos de sua orquestra em monumental baile no salão de festas do Clube Pinheiros. Um baile com Música e Lágrimas, como naquele filme com James Stewart e June Allyson. Ele interpretava Gleen Miller. Se você não sabe também quem foi Glenn Miller é melhor parar a leitura aqui em cima e tentar o seu horóscopo aí embaixo.

Glenn Miller Orchestra foi uma das maiores do mundo na época das grandes bandas americanas. O trombonista e maestro foi convocado com toda a sua orquestra durante a segunda guerra para "levantar o moral da tropa", lá no front de batalha. Numa viagem entre Londres e Paris o seu avião se perdeu. Ele morreu. Tinha apenas quarenta anos. Meses depois a guerra terminaria. Estamos em dezembro de 1944.

Agora estamos em 1945. Meses depois da morte do músico americano, Silvio Mazzuca criava a sua grande orquestra. Há exatos 50 anos.

Mazzuca animava bailes, festas, programas na Tupi e na Excelsior. Tocava em São Paulo e por todo o Brasil. Qual é a senhora de hoje que não debutou, não dançou a "primeira valsa", com os violinos e os metais do Mazzuca? Aqueles bailes de antigamente, com muita luz, onde se podia escolher de longe a parceira, onde mocinhas "tomavam chá de cadeira" e, as mais ousadas ousavam "dar tábua" "para os pés-de-valsa". Onde os rapazes, depois de uma "seleção" mais romântica, voltavam para a mesa todos curvados, disfarçando uma excitação contagiante. O som do Mazzuca, em certas horas, era mesmo excitante. Principalmente quando os metais se levantavam.

Quantos namoros não começaram timidamente com os acórdes firmes do maestro? Quantas paqueras (seria melhor dizer flertes)? Quantos pedidos de noivados? Quantos rostos colados? Quantos amores selados? Quantos quilômetros cada um de nós não rodopiou nos salões ouvindo o som maravilhoso do Silvio Mazzuca?

Não sou um cronista musical, mas não posso deixar de dizer que, para nós, brasileiros dançarinos dos anos 50 e 60, Silvio Mazzuca foi a continuação de Gleen Miller. Música e lágrimas. E paixão.

Tenho certeza que Fernando Henrique e dona Ruth já dançaram agarradinhos ao som dele. Que Pelé e Rose trocaram juras de amor em bailes lá em Santos. Maluf e dona Sylvia, quem sabe?

O prefeito, convidado para a festa de 50 anos, não foi. Mandou o Secretário da Cultura, Rodolfo Konder (um bom representante). Também não estava lá o pé-de-valsa Covas e dona Lyla. Nem o presidente da república. Pois deveriam ter ido. Dançaram. A festa estava demais.

Mazzuca, emocionado, do alto dos seus 76 anos, regeu a orquestra como nunca. Numa mesa, sua mulher chorava. Será que ela já dançou com ele ao som da orquestra dele mesmo? Fica a dúvida.

Quando o Francisco Ramalho foi filmar a minha peça Bésame Mucho e tinha um baile no roteiro, tacamos lá: Silvio Mazzuca e sua Orquestra. Nas filmagens, fui falar com o meu ídolo de adolescente. Perguntei quantos filmes ele já havia feito, imaginando um monte. Ele me respondeu, triste: "este é o primeiro". E olha que já estávamos em 87. Ele e sua banda são uma das melhores coisas do filme.

Sua orquestra fez cinquenta anos no sábado. Nenhuma nota na imprensa, nenhuma televisão para registrar o momento. Nem a Hebe Camargo, sua primeira crooner, apareceu para uma "canja". Apenas, e como sempre, a TV Cultura (essa mesmo que o Covas quer, de uma maneira ou outra, aniquilar erroneamente), estava lá registrando este momento cultural importante para grande parte dos brasileiros.

Me lembro, dançando ao seu som lá em Lins que, na bateria, tinha as suas iniciais escritas: S.M. Desde aquele tempo sempre associei essas iniciais não a Silvio Mazzuca, mas sim, a Sua Majestade.

Tenho certeza que, se Gleen Miller vivo fosse, com os seus já 91 anos, bengalando com o seu trombone, no sábado, teria atravessado o lotado salão do Pinheiros, subido ao palco e, depois de abraçar e beijar Silvio Mazzuca, tocaria com ele Serenade in Blue ou, mais precisamente, I Know Why. Porque ambos sabiam de tudo.