Talvez por conta do lançamento do meu livro James Lins e de algumas
entrevistas que dei para jornais e televisão, recebi uma carta de um
presidiário aqui do Brasil. Chileno, 38 anos, seis filhos: "todos
diferentes mães, exceto os gêmeos de uma mãe só (a qual morreu c/23 anos
estando eu na prisão)". Fugiu há muitos anos do Chile para cá. Hoje
amarga pena por retorno ilegal ao Brasil (art. 338).Talvez por se
indentificar com o meu personagem fictício, resolveu contar partes da
sua vida na carta. Como que paradiando James Lins, afirma-se um "ladrão
honesto". Publico o começo do relato dele, sem fazer nenhuma correção.
"Aos quatro anos de idade...
Meus irmãos dormiam minha mão cochilava... eu, aparentando
dormir... Sai de casa sem fazer ruido... A minha mãe acordou... "onde cê
vai menino"... eu vou ao banheiro mãe... e ela adormeceu de novo... eu
sai, desta vez, eu fugi de casa...
As razões...
Conheci minha propria mãe, depois de cumprir quatro anos
em mãos da sra que até esse momento achava era minha mãe... Me
apresentaram a ela... Zé... essa sra aqui, é a sua mãe... No meu
pensamento eu dizia: não, ela não é minha mamãe... pra todo mundo ouvir:
Eu não dizia nada... me retrai, estava com raiva, só que não sabia...
queria dizer mil coisas e da minha boca não saia palavra alguma... Eu
percibia que a dona que me criou, estava indo embora... alguma coisa me
dizia que a estava perdendo... um sentimento desconhecido se apoderou de
mim... profunda tristeza...
Depois de passada meia hora mais ou menos, aprendi que
aquela sra não era minha mãe, seria um inferno suportar... Começou me
mostrando um livro de receitas de bolos c/fotos... Eu olhava, só que meu
pensamento estava na dona que meu criou... era ela que eu amava e via
como mãe... EU SOU SUA MÃE... FALA MÃE... "sim mamãe Carmen"... TAPA NA
BOCA... FALA MAMÃE... "sim mamãe Carmen" eu respondia e outro tapa
recebia... Não me conformava, eu era pequeninho eu sei, custa acreditar
que uma criança de 4 anos perceba tão nitidamente a vida como eu
enxergava naquele instante, não sabia o que ia fazer, só sabia que
aquela "sra" não era minha mãe... SOFRIA demais... Perdi a noção do
tempo e espaço... só sei que quem se dizia meu pai era um bom homem e
mexia com política e quasi nunca tinha certeça da hora que o veria...
Eu, sem saber como, me encontrei noutra casa... Noutro
bairro... devem ter-se mudado mientras eu dormia... Naquela casa, do
Bairro de Santa Ines, em Vinha Del Mar, no Chile... eu conheci o
MACARRÃO hoje amanhã e todos dias quasi... ora macarrão com arroiz com
frango... eu menino, comida seca... enchia as bochechas e não fazia
outra coisa que mastigar... apanhava... apanhava e voltava a apanhar...
FUGI SIM... sabia pra onde eu tinha que ir... Só isso...
Meu medo, as saudades pela minha mãe de criação... Como eu disse, pra
minha idade eu era bem mais desperto que o resto de meninos dessa idade,
fugi nessa idade de 4 anos... pra uma distância de São Paulo até Itu
aproximadamente.
Cheguei em casa da (hoje) minha finada mãe de criação... A
surpresa quasi matou-a do coração... eu não sei bem o que foi que seguiu
era vizinho vindo a me ver, era banho, comida, beijos e carinho... eu
estava feliz... tinham me deitado pra dormir... quando chegou minha mãe
verdadeira junto da pm 'CARABINEROS" do Chile...
Decepção, terror, sabia que tinha que voltar pra minha
casa...
Seria o PAPILLON chileno?"