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SERIA ELE UM NOVO PAPILLON?

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o estado de s. paulo

1994

 


Talvez por conta do lançamento do meu livro James Lins e de algumas entrevistas que dei para jornais e televisão, recebi uma carta de um presidiário aqui do Brasil. Chileno, 38 anos, seis filhos: "todos diferentes mães, exceto os gêmeos de uma mãe só (a qual morreu c/23 anos estando eu na prisão)". Fugiu há muitos anos do Chile para cá. Hoje amarga pena por retorno ilegal ao Brasil (art. 338).Talvez por se indentificar com o meu personagem fictício, resolveu contar partes da sua vida na carta. Como que paradiando James Lins, afirma-se um "ladrão honesto". Publico o começo do relato dele, sem fazer nenhuma correção.

 

"Aos quatro anos de idade...

Meus irmãos dormiam minha mão cochilava... eu, aparentando dormir... Sai de casa sem fazer ruido... A minha mãe acordou... "onde cê vai menino"... eu vou ao banheiro mãe... e ela adormeceu de novo... eu sai, desta vez, eu fugi de casa...

As razões...

Conheci minha propria mãe, depois de cumprir quatro anos em mãos da sra que até esse momento achava era minha mãe... Me apresentaram a ela... Zé... essa sra aqui, é a sua mãe... No meu pensamento eu dizia: não, ela não é minha mamãe... pra todo mundo ouvir: Eu não dizia nada... me retrai, estava com raiva, só que não sabia... queria dizer mil coisas e da minha boca não saia palavra alguma... Eu percibia que a dona que me criou, estava indo embora... alguma coisa me dizia que a estava perdendo... um sentimento desconhecido se apoderou de mim... profunda tristeza...

Depois de passada meia hora mais ou menos, aprendi que aquela sra não era minha mãe, seria um inferno suportar... Começou me mostrando um livro de receitas de bolos c/fotos... Eu olhava, só que meu pensamento estava na dona que meu criou... era ela que eu amava e via como mãe... EU SOU SUA MÃE... FALA MÃE... "sim mamãe Carmen"... TAPA NA BOCA... FALA MAMÃE... "sim mamãe Carmen" eu respondia e outro tapa recebia... Não me conformava, eu era pequeninho eu sei, custa acreditar que uma criança de 4 anos perceba tão nitidamente a vida como eu enxergava naquele instante, não sabia o que ia fazer, só sabia que aquela "sra" não era minha mãe... SOFRIA demais... Perdi a noção do tempo e espaço... só sei que quem se dizia meu pai era um bom homem e mexia com política e quasi nunca tinha certeça da hora que o veria...

Eu, sem saber como, me encontrei noutra casa... Noutro bairro... devem ter-se mudado mientras eu dormia... Naquela casa, do Bairro de Santa Ines, em Vinha Del Mar, no Chile... eu conheci o MACARRÃO hoje amanhã e todos dias quasi... ora macarrão com arroiz com frango... eu menino, comida seca... enchia as bochechas e não fazia outra coisa que mastigar... apanhava... apanhava e voltava a apanhar...

FUGI SIM... sabia pra onde eu tinha que ir... Só isso... Meu medo, as saudades pela minha mãe de criação... Como eu disse, pra minha idade eu era bem mais desperto que o resto de meninos dessa idade, fugi nessa idade de 4 anos... pra uma distância de São Paulo até Itu aproximadamente.

Cheguei em casa da (hoje) minha finada mãe de criação... A surpresa quasi matou-a do coração... eu não sei bem o que foi que seguiu era vizinho vindo a me ver, era banho, comida, beijos e carinho... eu estava feliz... tinham me deitado pra dormir... quando chegou minha mãe verdadeira junto da pm 'CARABINEROS" do Chile...

Decepção, terror, sabia que tinha que voltar pra minha casa...

Seria o PAPILLON chileno?"