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O seqüestrador espanhol

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o estado de s. paulo

1998

 


Paris - Deve ter saído aí nos jornais do Brasil a notícia de um frustrado seqüestro ocorrido na Espanha, no vôo entre Sevilha e Barcelona, terça-feira. Talvez uma pequena nota, perdida num canto de página. Mas, por aqui, a repercussão foi muito grande. Principalmente na Espanha. E, entre os passageiros estavam alguns espanhóis que vinham para a copa (e agora estão aqui no meu hotel) para assistir ao jogo da Espanha contra a Bulgária e sua possível (ainda) classificação.

O que segue são informações passadas pelos torcedores e/ou tiradas dos jornais franceses e espanhois, principalmente do El País, de Madri.

Javier Gómes Martinez, 37 anos, 1,80 aproximadamente, moreno, vastíssimo bigode, entra na cabine do piloto com um controle remoto de televisão, avisa que isso é um seqüestro, manda o comandante desviar o Boeing 727 da Ibéria para Tel Aviv. O piloto pede para descer em Valência, para abastecer. Tudo bem. Só que avisaram a polícia. Sete e meia da manhã.

E a palhaçada começou. Pelo aspecto físico do Javier, os especuladores começaram a imaginar que se tratava de um grupo árabe. Outros, que era um separatista basco. Eta! Outros, um fundamentalista. Tinha gente importante dentro do avião. A prefeita de Sevilha, Soledad Becerril, por exemplo. Um eurodeputado do partido operário espanhol. O secretário do Comitê Olímpico Sevilha 2008, além de um grupo de empresários da Andaluzia. E os torcedores. A França entra em ação.

Javier ameaça apertar um botão do controle remoto e, no lugar da imagem da Rede Globo, uma bomba explodiria no local das bagagens. Um terrorista islâmico?

Vinte minutos depois, o comandante avisou os passageiros. A prefeita de Sevilha andava pelos corredores “para transmitir serenidade e calma ao meu redor. Pedi a proteção da Virgen de los Reyes”. Percebendo que o seqüestrador ficava lá na cabine, ligou, pelo celular, para o Ministro do Interior. Depois ligou para o seu marido.

Os passageiros perceberam que podiam usar o celular e aí a festa começou. Menos de uma hora depois, já com os policiais cercando o avião, vários dos passageiros já estavam dando entrevistas, pelos celulares, para as rádios espanholas e, depois, francesas. Unidades da polícia em Madri já estavam no pedaço. Javier, o seqüestrador, tomava água e comia bolacha. Um dos passageiros diria depois: “a gente usava o celular sem problema e o cara não se comportava como um seqüestrador. Pedi para ir ao banheiro e ele deixou, não colocou nenhum inconveniente. Terrorista profissional não deixa ir ao banheiro”.

Foi quando começaram a achar que Javier era doido mesmo. Segundo declarou depois um passageiro, o ambiente lá dentro era de uma cafeteria, ou seja, aquilo virou um botequim. As autoridades francesas preocupadas: Javier poderia ter introduzido um explosivo no avião.

A imprensa descobre o nome do pirata aéreo e localiza a sua fámilia em Sevilha, num bairro classe média chamado Remédios. Primeira informação: ele estava em tratamento psiquiátrico por causa de uma esquizofrenia. Segundo a Europa Press, ele “padecia de um transtorno psicótico que os psquiatras denominam esquizo-afetivo-maníaco”. E mais: entre 83 e 87 estudou na França. Fez um curso sobre minorias étnicas e nacionalismo. As forças de segurança se movimentam para localizar o psiquiatra do Javier, doutor Ildefonso Mateos.

O seqüestro ainda rolando e já se sabia tudo do Javier: nome do pai e da mãe, era um dos dez filhos do casal. Um irmão médico, uma irmã advogada. Ninguém queria dar entrevista. Mas a Dona Rosa, proprietária do bar ABC, point de Javier, teve seus minutos de celebridade: “O momento é histórico! Ele não é mau. É um bom rapaz. Um pouco mentiroso. Contava muitas mentiras de uma viagem que fez aos Estados Unidos. Esteve aqui sábado. Fumava Gold Coast”.

Já era quase meio-dia quando Antonio Sagaseta, chefe da polícia do aeroporto de Valência, entrou na cabine, disfarçado de comissário da Ibéria. O diálogo a seguir, foi transcrito pelo jornal El País:

- O seqüestrador me pediu que ficase nu - disse o policial. Eu tirei só a camisa. Não queria que ele me obrigasse a tirar a calça.

- Por que? O senhor estava armado?

- Não, estava com uma cueca cheia de florzinhas e não queria parecer ridículo na televisão.

Acharam o psiquiatra do Javier. Bastaram três minutos pelo celular e o rapaz se entregou ao policial com cueca de florzinhas. Sairam os dois abraçados do avião. Javier diria: “tudo não passou de uma linha cruzada”.

Já o policial das florzinhas, na entrevista coletiva, ainda no aeroporto, declarava:

- Não sou nenhum herói. Apenas um policial correto, um basco que fala valenciano e o que eu gosto mesmo é de horticultura.