Página anterior

SENTA QUE O NEGÃO É MANSO

Próxima crônica

o estado de s. paulo

28.6.94

 


SAN FRANCISCO - O Let's Gol! foi preso!

Quem me dizia isso era o coordenador geral da Stella Barros, quase meia-noite, exausto, voltando da delegacia. Let's Gol! foi preso na estrada, guiando em zigue-zague, depois do último jogo do Brasil, depois de tomar umas e outras (mais outras do que umas) dentro do estádio. Foi uma luta para soltar o torcedor brasileiro Let's Gol!. Oitocentos dólares de multa, algum puxão de orelha. Ele não conseguiu convencer o xerife de que no Brasil se dirigia daquele jeito.

Em lugar nenhum do mundo se dirige assim, teria dito a autoridade. E acrescentado: só o Pelé no Cosmos!

Mas quem é o Let's Gol!? O Let's, como já é conhecido na intimidade da torcida brasileira, é um torcedor gaúcho, gordo, barrigudo e machão. Rosto vermelho pelos raios do verão californiano. Ficou com este apelido por ostentar, dia e noite, sua enorme camiseta verde onde se lê em amarelo: "Brasil, let's gol!" Não sei se trouxe várias ou se a lava todas as noites. Mas ele não a tira. A mulher, baixinha e tímida, anda igual, com uma única diferença. A camisa é amarela e está escrito em verde.

Mas a prisão do Let's Gol! não foi o seu primeiro gol. Ele já havia se destacado no jogo contra Camarões, lá no Stanford Stadium. Naquele dia ele não foi preso. Mas deveria.

Foi assim:

No jogo contra Camarões, onde estávamos, éramos mais ou menos uns mil brasileiros, tensos, na expectativa do jogo que poderia definir tudo. Eis que entra um torcedor de Camarões, com a camisa, o boné e a bandeira do país africano. Um crioulo forte, muito alto, com os dentes brancos, um sorriso imenso. Bonito, muito bonito. Simpático, o negão de quase dois metros. E corajoso. Deve ter comprado o ingresso sem saber onde iria cair. Bem ali no nosso meio, na minha frente. Atrás de mim, o Let's Gol!, já bem tijolado.

Todo mundo começa a brincar com o Camarão. A torcida canta "assassinaram o Camarão"... O Camarão (vamos chamá-lo assim) sorria, simpático. Não estava a fim de comprar briga.

Senta que o negão é manso!

O Camarão, evidentemente, não entendia nada. Falava inglês com alguns brasileiros. Atrás de mim o Let's espumava: ''hoje eu vou comer um Camarão à milanesa!". O Camarão ria, sem entender nada. Mas ele estava a fim de uma boa vizinhança. Antes de começar o jogo ele já estava íntimo de alguns brasileiros. Chegou até a combinar de trocar a camisa e o boné com um torcedor de Catanduva, depois do jogo. Mas o Let's não perdoava:

- Ô, Camarão, ô, Camarão, vou te comer amanhã! Vou te comer, preto viado!

Gritava e tomava mais uma dose. Enquanto isso o jogo começava e já tinha gente gostando do Camarão. Pra falar a verdade, o Camarão, com seu largo sorriso de marfim africano, já havia conquistado a todos nós. Mas o racista e agora vermelho Let's continuava a insultar o gigante negro, que não entendia nenhuma palavra de português:

- Passa a mão na bunda do crioulo que ele acalma!

O Camarão olhava para o Let's, sorria e dizia apenas: "yes! yes!".

O Brasil marca o primeiro gol, Let's Gol! quase cai em cima de mim com o dedo na cara do Camarão: ''você é viado, viado, tá me entendendo? Você é viado!". E o negão dizia: "yeah, yeah, yeah".

O jogo estava bonito. Nos uniformes dos dois times, as quatro cores básicas: amarelo, azul, verde e vermelho. Na arquibancada, o Camarão já estava quase sambando e abraçado com uma carioca. O Camarão estava conquistando todos os brasileiros. Menos o Let's, é claro. Um jogador de Camarões cai machucado no campo e o Let's vocifera: "chama o veterinário!".

- Camarão, you are bicha! You are bicha, camarão!

Talvez o Camarão achasse aquilo um elogio e agradecia: "thank you!". Let's ria, balançando a pança macha e gaúcha.

No final do jogo, aquela festa toda, o Camarão, sempre sorrindo, passa por mim, vai até o Let's, pega ele pelo colarinho, levanta-o no ar, sempre sorrindo. Toda a torcida olha a cena. Toda a torcida-brasileira está torcendo para o Camarão. E ele dá uma violenta cabeçada na testa do Let's, impiedosa. O gordo cai no chão semidesmaiado. O Camarão, com a maior calma do mundo, tira o boné de brasileiro do gaúcho e coloca na sua cabeça. E diz para a esposa do Let's, que o abanava no chão, em um português brasileiríssimo :

- Quando o babaca do seu marido acordar, diga a ele que o meu nome é Hideraldo, sou carioca e trabalho há dez anos de cozinheiro no Nikke Hotel. Passar bem, minha senhora.

O Camarão foi ovacionado. Só não saiu de campo carregado porque era muito forte aquele crioulo brasileiro.