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SEM PROBLEMAS DE DIGITAÇÃO

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1998

 


Às vezes a gente escreve aqui uma crônica sem a menor intenção e repercute muito. Outras, que a gente achava que ia ser um sucesso, passa, incólume, pelos leitores.

Estou me referindo à crônica da última semana onde fiz a brincadeira de subtrair do texto algumas vogais. Foi um Deus nos acuda. O telefone começou a tocar às oito da manhã, mensagens via Internet, cartas, telegramas. Gente achando que era o máximo e gente (a maioria) achando o mínimo. Mas todos pedindo que eu reproduzisse o texto hoje, com as vogais Aí vai:

A verdade é que eu não tenho tempo a perder. Tenho que escrever esta crônica e mandar imediatamente para o jornal para que você possa agora , na quarta-feira, lê-la.

Não sei o que foi que aconteceu com o meu computador, mas a letra "a " não está sendo digitada, conforme vocês já devem ter percebido.

Tentei entrar em contato com o Luciano ou com o Cachorrão, que são os meus salva-vidas aqui do computador. Mas é de manhâ, não estão ou estão dormindo. Como é que eu vou escrever, por exemplo, Araraqua, a terra do meu querido Inácio de Loyola Brandão?

A crônica de hoje seria sobre a Internet que me conquistou definitivamente. Por exemplo, por motivos óbvios, eu assino o Estadão. E, pela Internet eu leio o Globo, o JB e a Folha. No futuro, acho que invés de assinar o jornal e receber aquele punhado de papel em casa, vamos assinar os jornais via Internet?

Aí é que entra o problema. Vai acabar o papel? Livro também? Você vai poder ler o livro que quiser, da biblioteca que quiser espalhada pelo mundo, via Internet. Adeus às estantes de livros. Adeus às grandes Enciclopédias, às grandes coleções.

O papel está mesmo com os dias contados. Menos o papel higiênico, é claro. Jamais nos limparemos via Internet.

Cartas escritas, nunca mais. Vai tudo pela Internet, via modem ou e-mail.

Talvez sobre papel para o embrulho.

(Dei um lidinha no texto escrito até aqui, e acho que está dando para vocês entenderem, não é mesmo?)

Mas continuemos sobre o papel do papel na vida moderna,

Papel de parede? Vai acabar? Papel carbono,por exemplo,é coisa que pouco se usa hoje em dia. Papagaio ou pipa (como dizem os cariocas) devem continuar. Lenço de papel, idem.

O fax, por exemplo, hoje já entra direto de computador para computador.

Acabo de descobrir que agora a letra "e" também não está sendo digitada. Deve ser um virus que entrou no meu computador. Espero que até o final da crônica, anda possa contar com o "i", o "o" e o "u", senão não será mesmo possível chegar até o final da crônica. E olha que ainda falta muita digitação para chegar até lá.

Mas eu falava do papel do papel nos dias de hoje e no futuro.

Ler o jornal pelo computador evita várias coisas desagradáveis. A começar pela sujeira que ficam os nossos dedos. Tenho um amigo, o escritor Reinaldo Moraes, que lê jornal com luvas de borracha. Vocês não podem imaginar a sujeira que fica.

Outra vantagem é que ninguém vai "desmanchar" o seu jornal. Odeio quando alguém lê o meu jornal e mistura tudo, dobra. E, pior ainda, quando a gente ainda não o leu e passam a comentar todas as notícias, como se fossem uma agencia noticiosa.

Mas agora que estou com esse problema aqui no meu computador, fico imaginando a gente lendo o jornal via Internet e começar a faltar vogais. Deve ser uma leitura muito difícil como deve estar sendo esta.

Gente, vocês não vão acreditar, mas agora é o "i" que não está sendo digitado, conforme já foi observado pelo leitor mais atento.

Vou ter que ir até o final apenas com o "o" e o "u" que eu espero que não me aprontem nada até eu chegar lá.

Onde eu estava mesmo?

Agora eu já não sei se continuo tentando explicar a minha teoria do final do papel ou começo outra sobre a importância das vogais na nossa vida e nas nossas leituras. Já pensaram a dificuldade da vida se nâo existissem o "a", o "e" e o "i"? Meu nome, por exemplo, ficaria reduzido a Mario Prata, parecendo coisa estrangeira.

Acho que, como um personagem do Campos de Carvalho, vou patentear essas três vogais. Assim, todo mundo que as usar, vai ter que me pagar royalties.

Olha , gente, eu vou parar por aqui porque o "o" e o "u" estâo começando a me dar trabalho. Outro dia volto a falar do papel do papel na nossa vida pública e privada.

Adeus.