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SEI LÁ PORQUE

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O ESTADO DE S. PAULO

18/02/2004

 


A receita sempre é simples: um lutador, dois pares de silicone, um negro do bem, uma professorinha, uma modelo-atriz-e-manicure, um garoto com cara de anjo, uma baiana com cara de safada. Importante: nenhum deles leu nenhum livro durante toda a vida. Prenda a turma. Chame um sujeito simpático e digno para conversar com eles de vez em quando e um diretor competente. E olha que a fórmula nem é brasileira. Mas é uma telenovela e tanto.

E o que acontece? Eles cativam a gente. falam besteira, pensam naquilo, se exibem. E a gente ali, sem saber muito bem por que. De repente nos vemos torcendo por um sujeito que cuida de um cemitério, ou por uma babá quase inocente. Ame-o ou deixe-o.

Confesso que espero o Fantástico acabar para ficar com aquela garotada. E na terça torço, quase aposto. Como eu, aproximadamente 40 milhóes de brasileiros fazem a mesma coisa. Por que?

Qual é o segredo? Que jogo é este? dentro da casa funciona mesmo na base do ame-o ou deixe-o. Ame quem? Deixe quem? O companheiro ou o principal concorrente aos quinhentos mil reais? Tem gente aqui de fora que torce para as meninas de silicone sairem logo. Claro, assim, mês que vez a gente pode conferir na Playboy o corpo inteiro.

Alguns ali vão virar artistas. Não estava de todo mal o show que eles fizeram no domingo com a música do Chico da peça Saltimbancos. Alguns realmente levam jeito.

Outra coisa que me fascina é a coragem de se expôr até mesmo fisicamente. Fico pensando: como será a vida de cada um deles ao voltarem ao anonimato de suas cidades? Ou nunca mais conseguirão ser anônimos? Deram sua vida por um pouco de glória e um montão de dinheiro? Quem não for virar artista vai tentar a vereança? Serão usados por políticos?

Acho que a Globo deveria monitorar a vida deles para o resto dos nossos e dos dias deles. Uma câmera seguindo todos eles a vida toda. Sem edredon. Por exemplo: que fim levou aquele garoto de Goiânia que ganhou um dos prêmios?

Isso me faz lembrar de outros momentos de glória passageiros. Me refiro aos japoneses e chineses e coreanos que todos os anos – há mais de 40 – entram na faculdade em primeiro lugar. Suas fotos saem em anúncios e out-door. Gênios por uma semana. E dai? Que fim levaram depois que se formaram? Continuaram gênios e cdfs? Venceram na vida? Alcançaram altos cargos, ficaram ricos, tornaram-se grandes cientistas ou pesquisadores? Jamais saberemos. Mas fica aqui a pauta. De graça.

Persongens de novelas, por mais queridos e marcantes que sejam, a gente acaba se esquecendo. Mas ali, com a turma do músculo-silicone, fica difícil. Eles não foram criados por nenhum autor habilidoso. São de carne e osso (além é claro, silicones e músculos). Quando choram é pra valer. São tão fantásticos quanto o programa que antecede as suas entradas dentro da sala da gente.

Depois fica difícil quando eles nos deixam. Juro que eu não sei bem o por que.

E a minha loucura vai tão longe que eu começo a pensar em me candidatar para o BBB5. Mas me faltam alguns músculos, felizmente.