O FLÁVIO CAVALCANTI, apresentador de televisão já falecido, tinha um
quadro no programa dominical dele que se chamava ''Eu estava lá".
Consistia em levar pessoas que estavam em algum lugar onde tivesse
acontecido alguma coisa importante, rara, ou envolver pessoas conhecidas
e famosas. O destino, a curiosidade e a amizade me fizeram estar em
alguns lugares onde estavam acontecendo coisas.
Estava me lembrando disso pois está fazendo quase
exatamente vinte anos que o jogador Almir foi assassinado em frente à
Galeria Alaska, no Rio de Janeiro, numa noite quente do verão carioca de
1973. E eu estava lá. Não na Galeria Alaska, que nunca fui dado a
freqüentar lugares gays. É que em frente à galeria, do lado do mar,
ficavam dois bares que eram freqüentados pela classe teatral do Rio de
Janeiro.
Talvez você não saiba quem foi o Almir. Era um
pernambuquinho valente. Jogou no Bangu, no Santos (no tempo do Pelé), no
Flamengo e em outros times menos votados. Craque e violento. Defendia no
peito e na raça seu clube e seus companheiros como não se faz mais hoje
em dia. Era capaz de enfrentar um time inteiro sozinho. ArtiIheiro nato,
foi um dos responsáveis pelo título de bicampeão mundial do Santos em
63, no Maracanã.
Pois naquela noite eu estava lá e vi de perto o
pernambuquinho morrer. Foi desses crimes que em poucos dias saíram do
noticiário policial. E político. Sim, disseram, na época, que ele
estaria escrevendo um livro de memórias e que ia entregar muita gente.
Não nos esqueçamos que estávamos em 73, um dos anos mais duros da
ditadura, onde nada podia ser dito. Nem mesmo um crime idiota como esse,
que encerrou a carreira de boêmio simpático e inveterado do grande
craque.
Numa mesa estavam o Almir, uma namorada e um casal de
amigos. Na mesa de trás, três portugueses. Na frente da mesa do Almir,
os atores gays do espetáculo Dzi Croquetes, ainda maquiadíssimos depois
de mais um dia de performance. A algumas mesas ao lado estávamos eu, o
diretor teatral Aderbal Freire Filho, sua esposa de então, a Alice, e o
ator Ivan Setta.
Tudo começou quando os portugueses resolveram caçoar dos
atores do Dzi Croquetes, chamando-os de viados, paneleiros e outras
palavras não menos simpáticas. E foi aí que tudo começou. O considerado
maior machão do futebol brasileiro resolveu defender os atores, que não
reagiam. Começou a discussão, até que um dos portugueses sacou um
revólver, o amigo do Almir sacou outro e o tiroteio rolou soltou ali no
calçadão da Avenida Atlântica. Mais dois sacaram as armas, as bichas
gritaram, foi uma correria, mesas foram viradas e pelo menos uns 30
tiros a gente ouviu. A esta altura do campeonato eu, o Aderbal e a Alice
já estávamos debaixo do jipe do Aderbal. Ivan Setta, bêbado, com um copo
na mão, atravessava o tiroteio dizendo que aquilo era tiro de festim.
Não sei como não morreu, o meu querido Ivan. Polícia, nenhuma.
Pararam os tiros, a fumaça foi desaparecendo e a gente foi
voltando para o local da briga. O primeiro a ser encontrado no chão, já
morto com um tiro na têmpora, foi o Almir. Alice pegou uma toalha de
mesa e colocou sobre o seu corpo. Os portugueses saíram correndo.
Debaixo de um coqueiro, o amigo do Almir agonizava com um tiro nas
costas. Morreu ao dar entrada no hospital. As duas namoradas,
apavoradas, gritavam. O resto era silêncio, diria Hamlet.
Esse crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os
portugueses sumiram, o grupo Dzi Croquetes não existe mais.
Eu só estou escrevendo este caso, aqui, em homenagem aos
20 anos da morte do Almir. O violento e craque machão brasileiro que
morreu defendendo um grupo de homossexuais. Acho que morte mais digna
não poderia ter o artilheiro. A]guns dos integrantes do grupo teatral já
morreram. De Aids. Tenho certeza que o pernambuquinho e eles estão
tornando chope lá no céu. E os machistas e covardes portugueses, onde
andarão?