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SAUDADES DO ALMIR, O PERNAMBUQUINHO

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o estado de s. paulo

12.1.94

 


O FLÁVIO CAVALCANTI, apresentador de televisão já falecido, tinha um quadro no programa dominical dele que se chamava ''Eu estava lá". Consistia em levar pessoas que estavam em algum lugar onde tivesse acontecido alguma coisa importante, rara, ou envolver pessoas conhecidas e famosas. O destino, a curiosidade e a amizade me fizeram estar em alguns lugares onde estavam acontecendo coisas.

Estava me lembrando disso pois está fazendo quase exatamente vinte anos que o jogador Almir foi assassinado em frente à Galeria Alaska, no Rio de Janeiro, numa noite quente do verão carioca de 1973. E eu estava lá. Não na Galeria Alaska, que nunca fui dado a freqüentar lugares gays. É que em frente à galeria, do lado do mar, ficavam dois bares que eram freqüentados pela classe teatral do Rio de Janeiro.

Talvez você não saiba quem foi o Almir. Era um pernambuquinho valente. Jogou no Bangu, no Santos (no tempo do Pelé), no Flamengo e em outros times menos votados. Craque e violento. Defendia no peito e na raça seu clube e seus companheiros como não se faz mais hoje em dia. Era capaz de enfrentar um time inteiro sozinho. ArtiIheiro nato, foi um dos responsáveis pelo título de bicampeão mundial do Santos em 63, no Maracanã.

Pois naquela noite eu estava lá e vi de perto o pernambuquinho morrer. Foi desses crimes que em poucos dias saíram do noticiário policial. E político. Sim, disseram, na época, que ele estaria escrevendo um livro de memórias e que ia entregar muita gente. Não nos esqueçamos que estávamos em 73, um dos anos mais duros da ditadura, onde nada podia ser dito. Nem mesmo um crime idiota como esse, que encerrou a carreira de boêmio simpático e inveterado do grande craque.

Numa mesa estavam o Almir, uma namorada e um casal de amigos. Na mesa de trás, três portugueses. Na frente da mesa do Almir, os atores gays do espetáculo Dzi Croquetes, ainda maquiadíssimos depois de mais um dia de performance. A algumas mesas ao lado estávamos eu, o diretor teatral Aderbal Freire Filho, sua esposa de então, a Alice, e o ator Ivan Setta.

Tudo começou quando os portugueses resolveram caçoar dos atores do Dzi Croquetes, chamando-os de viados, paneleiros e outras palavras não menos simpáticas. E foi aí que tudo começou. O considerado maior machão do futebol brasileiro resolveu defender os atores, que não reagiam. Começou a discussão, até que um dos portugueses sacou um revólver, o amigo do Almir sacou outro e o tiroteio rolou soltou ali no calçadão da Avenida Atlântica. Mais dois sacaram as armas, as bichas gritaram, foi uma correria, mesas foram viradas e pelo menos uns 30 tiros a gente ouviu. A esta altura do campeonato eu, o Aderbal e a Alice já estávamos debaixo do jipe do Aderbal. Ivan Setta, bêbado, com um copo na mão, atravessava o tiroteio dizendo que aquilo era tiro de festim. Não sei como não morreu, o meu querido Ivan. Polícia, nenhuma.

Pararam os tiros, a fumaça foi desaparecendo e a gente foi voltando para o local da briga. O primeiro a ser encontrado no chão, já morto com um tiro na têmpora, foi o Almir. Alice pegou uma toalha de mesa e colocou sobre o seu corpo. Os portugueses saíram correndo. Debaixo de um coqueiro, o amigo do Almir agonizava com um tiro nas costas. Morreu ao dar entrada no hospital. As duas namoradas, apavoradas, gritavam. O resto era silêncio, diria Hamlet.

Esse crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os portugueses sumiram, o grupo Dzi Croquetes não existe mais.

Eu só estou escrevendo este caso, aqui, em homenagem aos 20 anos da morte do Almir. O violento e craque machão brasileiro que morreu defendendo um grupo de homossexuais. Acho que morte mais digna não poderia ter o artilheiro. A]guns dos integrantes do grupo teatral já morreram. De Aids. Tenho certeza que o pernambuquinho e eles estão tornando chope lá no céu. E os machistas e covardes portugueses, onde andarão?