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Saudades do 282

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o estado de s. paulo

12/07/2000

 


- Seu Mario, tá precisando de prendedor de varal, pra roupa.

Seu Mario sou eu, que nunca comprei prendedor de varal. Nem sei onde vende.

E muito menos, quanto custa.

Dei um dinheiro e pedi para ela comprar e trazer no dia seguinte.

No dia seguinte vejo a novidade no varal segurando meias, cuecas e lençóis.

E me surpreendo com a novidade.

- Mas o que que é isso?

- Os prendedor...

- Mas de plástico? Prendedor de varal de plástico, Gorete?

A Gorete não estava me entendendo. Ela não entende muita coisa que eu falo.

- Qual o problema, seu Mario?

- Isso, aí, prendedor de madeira, era o que havia sobrado da minha vida, da minha infância, Gorete. Depois que acabaram com o quebra-vento dos carros, me restava o prendedor, mulher! De madeira! Você está entendendo. O leite não vir em vidro, tudo bem, a laranjada já vir espremida, é até legal. Mas o prendedor de plástico, não! Mil vezes não!

Rosnei e fui para a sala. Não me conformava. Voltei de novo pra lá.

- Tire esse troço daí. A casa é minha, o varal é meu, a roupa lavada é minha. Portanto, joga essa porcaria no lixo e compra de madeira. De madeira, sem pintar, hein! Sem pintar!

- Onde?

- Não me traga problemas, traga-me soluções, falei como diria o Boni, da Globo.

Ele não entendeu a extensão da coisa.

- O senhor vai me desculpar, mas só vende de plástico. Faz muito tempo que eu não vejo de madeira. Tem mais, não.

- Tem sim senhora. Em feira, tem.

- Nossa, seu Mario! O senhor hoje tá, hein!

E no departamento de coisas que me irritam, como diria o Melchiades, tem o caso da linha 282, também.

Quando eu cheguei a São Paulo, fim dos 60, o quente, o chique, o fino (para usar apenas expressões da época) em termos de telefone, era ter a linha que começava com 282.

Tinha dois significados. O primeiro é que o seu telefone era novo. E o segundo e mais importante é que você morava nos Jardins.

Sempre conservei aquele sonho meio juvenil de ter um 282. Aliás, quando cheguei aqui, meu ideal máximo era ter o nome na lista telefônica. Para mim, naquela época, significava ter sido aceito pela cidade grande, ter vencido.

Mas o 282 nunca consegui.

Até a semana passada. Aluguei um apartamento aqui mesmo no meu prédio. O número: 282. Felicidade total, 30 anos depois.

E logo a decepção. A linha 282 é quase podre. Explico. Ela não foi criada para as modernas tecnologias. Ela não segura um contato com a Internet por muito tempo. A culpa não é dela. Ela não poderia imaginar que um dia ia ter que desempenhar funções para as quais não fora criada.

Quase inútil a velha e ex-boa linha 282. E eu tive que trair o 282. Mandei trocar por uma linha digital. Fiquei mal. É como se eu, por telefone, estivesse pedindo para alguém trocar a minha esposa, pois ela não vinha acompanhando os progressos do mundo digitalizado. Foi como se eu mandasse embora uma filha e pedisse uma mais moderna, mais na moda, em troca.

Hoje cedo vieram aqui. Anônimos homens de macacão azul com suas ferramentas pretas. E, com um alicatezinho sem-vergonha, deram um clique e ela morreu. E instalaram a nova, felizes, sem respeitar a minha dor, o meu desvínculo com o que já foi a jovem guarda.

E eu fico aqui, olhando para os prendedores de plástico (ainda estão lá, azuis, cor-de-rosa, verde piscina, um horror) e com uma linha 3060 que fora os "noves fora zero", não tem o menor charme, não tem ainda história. Mas que me liga rapidamente com o mundo. Com um mundo de plástico.