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SAUDADES DA ANA C.

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o estado de s. paulo

29/07/95

 


O Caio F. (Fernando Abreu) sempre me faz lembrar a Ana C. (Cristina Cesar). Sempre. Encontrei-me com ele na semana passada numa boate absurdamente gay (A Louca) e me lembrei da Ana. Da Ana, do verão de 82. Não sei se falamos sobre ela entre uma música e outra da Laura Finokiaro. Mas que ela estava presente, estava.

No domingo, duas divinas páginas do Caio sobre ela, aqui no Estadão. Cartas dela para ele. 82, 83. Só que o Caio se esqueceu de me citar nos encontros aqui em São Paulo com a Maria Emília Bender, o Reinaldo Moraes (aliás, como perguntou Ricardo Soares, ninguém vai reeditar o desconcertante e vagabundo Tanto Faz?), ele e ela. Citou os bares certos: Longchamp, Pirandelo, Frevinho, etc. Mas eu o perdôo como ele perdoou Ana C. por "ter conseguido".

Conheci a Ana na casa do Reinaldo e da deliciosa Maria Emília (mais o gostoso Ruy Fontana Lopes). Grandes jantaradas, bons vinhos e tome papo. Discutíamos o nada e o tudo. Ficamos amigos. Aliás, as pessoas não ficavam amigas da Ana. As pessoas simplesmente se apaixonavam por ela. Que coisa bonita! Que cabeça! E aqueles poucos cílios brancos num dos olhos? O esquerdo? Nada mais cativante.

Um dia ela veio a São Paulo para participar de uma mesa redonda para a revista Istoé, organizada pela Marta Góes. Me ligou do Rio. Queria me ver. Hospedou-se no Hotel Jaraguá onde, lá mesmo, era a mesa redonda sobre os novos valores da cultura brasileira, ou algo assim. Fiquei de pegá-la à meia-noite. Serviram bebida durante o debate. Assim que cheguei, o Cacaso vomitou na minha camisa ao me cumprimentar. Tive que pegar uma camiseta da Ana no apartamento dela.

Fomos para um japonês na Liberdade tomar sakê, nós dois. Lá pelas três, ela me diz:

- Quer ir dormir comigo no hotel? Sem compromisso?

Fomos. Dormimos sem compromisso, completamente sakeados. Manhã seguinte, levei-a ao aeroporto e nunca devolvi a camiseta. Mas sempre devolvi o carinho. Aliás, onde andará aquela camiseta?

Reinaldo Moraes morreu de ciúmes. Simplesmente porque ela esteve em Sáo Paulo e não ligou para ele. Uns dois meses depois, estávamos os dois a tomar a cervejinha da tarde no La Villette e ele não parava de olhar no relógio.

- Que foi, cara?

- Sabe o que é? Tem um jantar lá em casa hoje à noite (morávamos no mesmo prédio, na Alagoas) com a mãe da Maria Emília. Coisa meio formal, se não, te convidava.

Fomos embora, peguei o elevador e ainda vi o Reinaldo abrindo a porta dele no térreo. Chego no meu apartamento e a deliciosa e poética voz da Ana C. na secretária eletrônica, entregava o mentiroso:

- Estou jantando aqui embaixo. Desça quando chegar. Ana C.

Não sei se a história ficou clara: o que o Reinaldo queria era aproveitar sozinho a Ana C. Queria a Ana só para ele. Era assim que as pessoas amavam Ana C. Ciumentamente.

Não tive dúvidas. Peguei o elevador e desci os dois andares. Ele abriu a porta já pedindo desculpas. E a Ana a me dizer que assim que ele entrou ela perguntou por mim e o sujeito teve a cara de pau de dizer que não me via há dias. Aproveitamos a Ana, juntos.

No dia seguinte ele me mandaria um buquê de rosas com um bilhete, pedindo desculpas mais uma vez. Tanto Faz, Reinaldo.

Isso foi meses antes dela conseguir se matar, depois de tantas tentativas e sofrimento. Uma vez entrou no mar gelado, de noite, nua. Depois, não sei porquê, voltou e estava atravessando a rua quando um sujeito viu, saltou do ônibus e a vestiu com seu paletó. Será que esse anônimo sabe a quem ele acalentou?

Maria Emilia liga para o hospital, no Rio. Fala com ela. Ela estava mesmo mal. Daí a uns dias ela voou pela janela, de um sétimo andar.

Como sabiamente disse o Caio F, ela precisava fazer isso. Tinha que fazer isso. Fazia parte da poesia dela. Ana C. virou um mito mais vivo do que nunca. E, como sempre, dormiu. Sem compromissos.

Preciso achar aquela camiseta.