Página anterior

SÃO PAULO HÁ 25 ANOS: EU, INOCENTE, PURO E BESTA.

Próxima crônica

Jornal da Tarde

02/08/96

 


1971. Lembra? A noite paulistana ficava mais perto dela mesma. Era tudo ao redor da Praça Roosevelt (era assim que escrevia?), da Nestor Pestana, da Augusta (ali embaixo) e da Avanhandava. Sem falar da Galeria Metrópole.

Para se chegar à Paulista ia-se de bonde pela Consolação que ainda tinha só uma mão. E não vendia mamão lá em cima, de madrugada.

A gente perambulava de boteco em boteco, de restaurante em restaurante à pé mesmo. Mesmo porque eu não tinha carro. E não havia perigo da gente ser assaltado ou mesmo assassinado sem mais nem menos. Estava chegando do interior de São Paulo, inocente, puro e besta: +1, Eduardo, Gigetto, Jogral, Piolin, Cave, o quarto de algum amigo no Copan para dormir. Tinha garoa e eu não tinha ressaca com os meus vinte e poucos. Médici na cabeça.

Pois foi nessa época que tudo se deu. Eu nunca tinha transado com uma mulher que não fosse puta. Já estava na hora. E foi o Luis Carlos Paraná, saudoso dono do Jogral e amigo noturno, quem me apresentou a uma gracinha, mora!, que estava olhando para mim no Jogral enquanto a Ana Maria Brandão me mandava Aquele Abraço. O Paraná disse para ela que um dia eu seria um grande escritor. E disse para mim que um dia ela seria uma grande bailarina. Por enquanto eu trabalhava no Banco do Brasil (na Penha) e ela dançava de noite no Hulla Balloo, boate da Santo Amaro.

Não sei com que coragem marquei de pegá-la no dia seguinte, depois do expediente dela, na buate, à uma da manhã. Ela trabalha lá, mas é de família, me dizia o Paraná. Mora num puta apartamento na Angélica. Sou amigo da mãe dela. Pega leve, bocomoco!

Três ônibus me levaram da Penha até Santo Amaro. Cheguei um pouco antes, ela tinha deixado ordem para o porteiro. Entrei, tinha uma mesa, bem debaixo de um pequeno altar onde ela ficava lá em cima, sozinha, dançando. De biquini. Requebrando como uma escultural mulata, em branco. Gente, que coisa mais linda, mais cheia de graça. Eu, inocente, puro e besta não sabia o que ia fazer com aquilo. Não sabia mesmo.

Terminou o serviço, ela me pega na mesa - o Cuba já estava pago - e saímos para a rua.

Foi aqui que eu percebi que não tinha feito nem um plano. O que fazer com aquela moça gostosa, mas de família? Nem carro eu tinha. Ela ficou me olhando tipo: e agora, vamos onde? Sei lá, vamos pegar um taxi.

Era um fusquinha branco, sem o banco da frente. Entramos os dois lá atrás. O motorista era um crioulo imenso com a cabeça raspada e brilhante. Um lutador de sumô africano. Vamos pra onde? Pra onde? Vai tocando pru centro.

Silêncio lá dentro. Eu não sabia o que dizer. Suava. O que dizer? Onde pegar? Onde ir? Foi quando eu me lembrei das sábias palavras da minha mãe quando eu saí de Lins: meu filho, respeite sempre as moças. Não se esqueça que você tem uma mãe e duas irmãs.

Resolvi pegar esse mote e comecei a contar isso para ela. Que, quando eu sai do interior, a minha mãe pediu que eu respeitasse as moças, etc. Foi quando ela deu o endereço da casa dela para o negrão. Estava sendo mais fácil do que eu esperava.

Chegamos diante de um bonito prédio na Angélica, descemos, eu paguei e disse ao motorista: se eu não voltar em três minutos, você pode ir embora. Em menos de dois, eu estava de volta. Foi o tempo apenas dela me estender a mão e agradecer a carona. Volto para o taxi:

- Penha de França.

Estava ali eu, na Celso Garcia suada e quilométrica, a pensar onde é que eu tinha errado, quando o negrão, que ainda não dissera palavra alguma, mas que atentamente tudo ouvira, virou o pescoção para trás e, modestamente, proferiu a sentença fatal:

- Não comeu e nem vai comer!

- Como?

- Não comeu, nem vai comer.

- O que que eu tinha que ter feito?

- Tinha que ter dado uma mordida no gangote dela e dito: vamos dar uma guspidinha aí dentro?

Não comi e nunca vou comer. Se bem que hoje ela deva estar um bagulho. Como eu. Ou não como?