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SÃO PAULO, 35 ANOS

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O ESTADO DE S. PAULO

28/01/2004

 


Alguma coisa também acontecia comigo quando eu cruzava a Ipiranga com a avenida São João. De noite eu rondava a cidade. São São Paulo, meu amor. Parece que eu nasci há dez mil anos atrás. E nunca perdi o ônibus pra Jaçanã.

Quando eu cheguei por , em 1966, tinha barzinhos na avenida São Luiz onde se esbarrava no Guilherme de Almeida. O point era a Galeria Metrópole, e se cruzava muito a São João e a Ipiranga. E, acredite se quiser, um bonde subia a Consolação que tinha uma pista. E tinham três ladrões na cidade. O Meneghetti, o Sete Dedos e o encantador Bandido da Luz Vermelha (salve Rogério Sganzerla!!!). Dizem que o Adhemar roubava. E o Corinthians ficava anos sem ganhar do Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Quando eu cheguei, os meninos Tom , Caetano, e os senhores Adoniran e Vanzolini cantavam a cidade. O Chacrinha balançava a pança, a Hebe era cantora e a televisão era um festival pra ver a banda passar cantando coisas de amor, numa disparada.

Mas quem melhor cantou esta cidade, na minha mineira opinião, foi mesmo o baiano Tom . Sua música, 40 anos depois, continua a cara da cidade. Não vou colocar pedaços. Vai inteira, porque ela se mantém inteira até hoje. Parece que foi feita ontem:

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor

Nas últimas três décadas nenhum poeta cantou a cidade. São Paulo, como o seu asfalto, foi se contorcendo em muitas dores e poucos amores. “São Paulo não pode parar”, diziam os prefeitos quando eu chegava aqui. Deu no que deu. “Foi o Maluf quem fez”, deu no que deu.

Trinta e cinco anos depois de chegar, sai. Procurei uma ilha para morar. Tinha medo de andar na rua mesmo de dia. Acovardei-me diante da violência a olhos vistos e balas perdidas. Ilhei-me.

Pois agora a cidade está em festa e me bateu uma tremenda saudade da década de 60. Mentira minha. Me bateu uma saudade imensa do medo e da violência. Não estive nas comemoração, embora tivesse sido convidado pela minha sempre amiga prefeita, a outra Marta, como diz meu comborço Nirlando Beirão.

Eu não estava , ambas as Martas, mas meus filhos sim. Nasceram , cresceram e amam esta nossa (não resisti) cidade. Sinto que existe uma nova geração crescendo . Uma geração que vai transformar de novo esta cidade num poema e alguma coisa forte vai voltar a acontecer nos nossos corações quando cruzarmos as avenidas sem crianças pobres batendo nos vidros dos nossos carrões importados.

Um brinde às duas Martas. Continuem , amando a cidade e nossos filhos. Vai dar certo. Tem que dar. Por que não? Por que não?