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SAMURAI NÃO TORCE, MAS PODE

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o estado de s. paulo

17.7.94

 


SAN FRANCISCO - Agora que os brasileiros foram embora aqui do San Francisco Hilton é que se percebe -  a olhos vistos - a quantidade de japoneses pelos corredores e pelo lobby. E nas ruas. E nos restaurantes. Andam em bandos, disparando seus maravilhosos flashes. São de todas as idades, embora todos do mesmo tamanho. Chegam em excursões ou vêm a negócios. A maioria a negócios. Grandes, lucrativos negócios.

Fui criado em Lins, para onde foram os primeiros imigrantes orientais, no começo deste século. Tinha tanto japonês na cidade que as lojas escreviam o nome dos artigos em português e em japonês. Segunda e quinta-feira passavam filmes japoneses no Cine São Sebastião, o "palácio encantado na noroeste". Sem legendas. Era coisa para japonês nenhum botar defeito. As mesmas legendas que agora vejo espalhadas aqui em San Francisco, nos avisos do hotel, nas placas dos elevadores, no comércio em geral e até nos cardápios. Parece que os japoneses já perceberam que San Francisco rende mais que Lins. Que o buraco era mais em cima.

Passei a infância e a adolescência cercado pelos sisudos e CDFs nisseis. Eram os primeiros da classe e saiam fotografados nos anúncios de cursinho depois de qualquer vestibular. Jogavam futebol muito mal, mas trabalhavam desde garotinhos. Chegaram como pobres agricultores, e logo já tinha vereador nissei, ministro em Brasília, e hoje temos em São Paulo o nosso genial e simpático Secretário da Cultura, o Ricardo Othake, o japonês que não bebe. Trabalhavam duro. Queriam conquistar a região noroeste de São Paulo. Como agora, quando querem conquistar o noroeste da América.

Me lembro que o dono das Lojas Arapuã, o Jorge Jacob, quando a primeira loja ainda engatinhava em Lins, preferia funcionários nisseis para invadir o Brasil. A loja deu certo e hoje. Se espalha por todo o país.

A diferença é que aqui eles não chegaram nem plantando café e nem colhendo alface. Chegaram vendendo carros maravilhosos, tecnologia de ponta, construindo hotéis e abrindo bancos (confiam mais no iene que no dólar?) em cada esquina. Não sei como o americano está vendo isso. Já existe aqui a Japantown que, dentro de poucos anos, fará com que esqueçamos a famosa, velha e já decadente Chinatown.

Helmut Khol, primeiro-ministro alemão há 13 anos, abriu o olho com os japoneses. A Comunidade Econômica Européia é uma tentativa de fortalecer a Europa contra o avanço amarelo. Khol tirou o muro de Berlim e, com as mesmas pedras, está a edificar outro muro ao redor dos seus 12 países. Ali ninguém entra, ninguém tasca. Nem dentista brasileiro. Os Estados Unidos, me parece, não estão preocupados com a invasão. Calam-se diante do sorriso amarelinho dos baixinhos.

A conquista do velho oeste americano pelo japoneses é tão nítida, concreta e de ouro quanto o Oscar que já deram para o Akira Kurosawa. Apertem os cintos que os samurais estão chegando de novo a Pearl Harbor. Arigatô, disse Kurosawa.

Os brasileiros, que vieram apenas trazer a alegria e o sorriso da sua alma durante um mês de futebol, irão embora. Os funcionários do Hilton já sentem saudades. Los Gatos está vazia, parece uma Semana Santa interminável. Os campos de futebol receberão novamente os tacos do beisebol. Romário e Bebeto sairão das primeiras páginas e do noticiário da televisão. Inclusive do canal japonês de San Francisco.

Os americanos nunca mais serão os mesmos depois desta invasão brasileira durante a copa de futebol, dizem os próprios americanos. E depois da invasão japonesa? Ninguém fala nada Será que lá em Tóquio a dificuldade nos consulados para se arrumar visto é a mesma que ocorre no Brasil?

Abram seus grandes e periscópicos olhos, senhores americanos, porque eles estão chegando de olhinhos fechados e passinhos miúdos. E rindo na cara de vocês. Nós estamos indo embora, mas eles ficarão. Com a vista curta e o visto longo.

P.S.: no ônibus espacial americano que subiu sexta-feira passada já tinha uma japonesa. Indo e rindo, é claro.