SAN FRANCISCO - Agora que os brasileiros foram embora aqui do San
Francisco Hilton é que se percebe - a olhos vistos - a quantidade de
japoneses pelos corredores e pelo lobby. E nas ruas. E nos restaurantes.
Andam em bandos, disparando seus maravilhosos flashes. São de todas as
idades, embora todos do mesmo tamanho. Chegam em excursões ou vêm a
negócios. A maioria a negócios. Grandes, lucrativos negócios.
Fui criado em Lins, para onde foram os primeiros
imigrantes orientais, no começo deste século. Tinha tanto japonês na
cidade que as lojas escreviam o nome dos artigos em português e em
japonês. Segunda e quinta-feira passavam filmes japoneses no Cine São
Sebastião, o "palácio encantado na noroeste". Sem legendas. Era coisa
para japonês nenhum botar defeito. As mesmas legendas que agora vejo
espalhadas aqui em San Francisco, nos avisos do hotel, nas placas dos
elevadores, no comércio em geral e até nos cardápios. Parece que os
japoneses já perceberam que San Francisco rende mais que Lins. Que o
buraco era mais em cima.
Passei a infância e a adolescência cercado pelos sisudos e
CDFs nisseis. Eram os primeiros da classe e saiam fotografados nos
anúncios de cursinho depois de qualquer vestibular. Jogavam futebol
muito mal, mas trabalhavam desde garotinhos. Chegaram como pobres
agricultores, e logo já tinha vereador nissei, ministro em Brasília, e
hoje temos em São Paulo o nosso genial e simpático Secretário da
Cultura, o Ricardo Othake, o japonês que não bebe. Trabalhavam duro.
Queriam conquistar a região noroeste de São Paulo. Como agora, quando
querem conquistar o noroeste da América.
Me lembro que o dono das Lojas Arapuã, o Jorge Jacob,
quando a primeira loja ainda engatinhava em Lins, preferia funcionários
nisseis para invadir o Brasil. A loja deu certo e hoje. Se espalha por
todo o país.
A
diferença é
que
aqui
eles
não chegaram
nem plantando
café e
nem colhendo
alface. Chegaram vendendo
carros
maravilhosos,
tecnologia de
ponta, construindo hotéis e abrindo
bancos (confiam
mais no
iene
que no dólar?)
em
cada
esquina.
Não sei
como o
americano está vendo
isso.
Já existe
aqui a Japantown
que,
dentro de
poucos
anos, fará
com
que esqueçamos a
famosa,
velha e
já decadente Chinatown.
Helmut Khol, primeiro-ministro alemão há 13 anos, abriu o
olho com os japoneses. A Comunidade Econômica Européia é uma tentativa
de fortalecer a Europa contra o avanço amarelo. Khol tirou o muro de
Berlim e, com as mesmas pedras, está a edificar outro muro ao redor dos
seus 12 países. Ali ninguém entra, ninguém tasca. Nem dentista
brasileiro. Os Estados Unidos, me parece, não estão preocupados com a
invasão. Calam-se diante do sorriso amarelinho dos baixinhos.
A conquista do velho oeste americano pelo japoneses é tão
nítida, concreta e de ouro quanto o Oscar que já deram para o Akira
Kurosawa. Apertem os cintos que os samurais estão chegando de novo a
Pearl Harbor. Arigatô, disse Kurosawa.
Os brasileiros, que vieram apenas trazer a alegria e o
sorriso da sua alma durante um mês de futebol, irão embora. Os
funcionários do Hilton já sentem saudades. Los Gatos está vazia, parece
uma Semana Santa interminável. Os campos de futebol receberão novamente
os tacos do beisebol. Romário e Bebeto sairão das primeiras páginas e do
noticiário da televisão. Inclusive do canal japonês de San Francisco.
Os americanos nunca mais serão os mesmos depois desta
invasão brasileira durante a copa de futebol, dizem os próprios
americanos. E depois da invasão japonesa? Ninguém fala nada Será que lá
em Tóquio a dificuldade nos consulados para se arrumar visto é a mesma
que ocorre no Brasil?
Abram seus grandes e periscópicos olhos, senhores
americanos, porque eles estão chegando de olhinhos fechados e passinhos
miúdos. E rindo na cara de vocês. Nós estamos indo embora, mas eles
ficarão. Com a vista curta e o visto longo.
P.S.: no ônibus espacial americano que subiu sexta-feira
passada já tinha uma japonesa. Indo e rindo, é claro.