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1998

 


SALVE-ME QUEM PUDER
O Estado de S. Paulo
1998

Estou na segunda-feira. Diz o relógio aqui do computador que são exatamente 12h19. Acabou de mudar para 12h20.

Já havia acabado de escrever esta crônica, já devia ter mandado para a redação. Estou atrasado. Resolvi reescrever tudo. E você vai entender o porquê.

Havia escrito uma crônica sobre a quantidade de coisas que mandam para eu ler. Leitores e leitoras. Uns mandam pelo correio, outros por e-mail, outros telefonam.

Uns, mais assanhados, ousam deixar na minha portaria. Teve até um que entrou no meu apartamento com seus textos, às 9 da manhã. Uma autêntica invasão de privacidade intelectual.

Me faz lembrar uma crônica do meu querido Caio Fernando onde ele implorava aos leitores que não mandassem texto para ele, que ele não iria ler mesmo.

E não são só os leitores. Mandam texto para o meu pai, lá em Uberaba. Ele manda para mim. Minha irmã mais velha telefona e diz que a prima fulaninha "está com uma filha de 18 anos muito inteligente e"... Lá vem texto.

E a vizinha de frente da minha irmã mais nova que deu para escrever? Me manda por e-mail.

E a mãe da amiga da namorada do meu filho que é minha fã número um e anda fazendo umas poesias e...

E aquele amigo dos anos 60 que tem um amigo que tem uma idéia que é a minha cara? Meu Deus, como será a minha cara? Dá uma novela que "só você pode escrever".

E aquelas que mandam cinco contos, eu não dou retorno, elas mandam mais cinco e, ainda por cima, me dão um esporro porque eu não disse nada?

E os 18 calhamaços que estão aqui na minha estante, de gente que eu nunca vi mais gordo (ou gorda) me pedindo prefácios?

Somente em 1997 eu escrevi seis prefácios. Seis! De livros que eu gostei, é claro.

Há alguns que têm uma idéia e cismam em escrever comigo. Minha amiga: não se esqueça de que eu também tenho, às vezes, idéias. Por que iria escrever a sua idéia? Pense um pouco nisso.

Eu queria dizer para esse pessoal todo, duas coisas: primeiro, não sou editora. Segundo: não sou crítico literário.

Fico até mesmo com medo de dizer que uma coisa é boa, a pessoa levar-se a sério e eu ficar responsável. O inverso pode ocorrer: dizer que é um horror e estar diante de um gênio ou gênia.

Tem aqueles que dizem: minha avó está escrevendo a vida dela. A vida dela dá um romance. Meu filho, digo eu, toda vida dá um romance, dá uma novela, um filme. Basta saber escrever. O que são outros quinhentos.

Eu dizia que estava a escrever isso tudo e reescrevi. Entre as 9 da manhã e agora (12h49) recebi dois telefonemas. O primeiro, da veterana e excelente atriz, minha amiga e afilhada Ruthineia de Moraes. Diz que vai me mandar quatros contos dela. Quer que eu "encaminhe".

O segundo, de uma senhora (d. Conceição) muito simpática e falante que, com a sabedoria de quem já passou dos 80 anos, depois de me repreender por às vezes criticar o papa, me informa que está escrevendo a vida dela e dos filhos já mortos e alcoólatras. Me diz que já escreveu um terço do livro e, se for necessário, me paga para dar uma orientação. Duas mulheres inteligentes, simpáticas, gente boa.

Vamos fazer o seguinte: vou ler com todo o carinho os contos da Ruthineia e o romance da d. Conceição. E, com essas duas madrugadoras escrevinhadoras, vou dar por encerrado este capítulo da minha vida.

Vou fazer como o Carlos Heitor Cony, o Fernando Sabino e o Campos de Carvalho. Quando eu estava começando este meu ofício, mandava tudo para eles. Eles nunca responderam nem se devem lembrar daquele garoto pentelho de Lins. Valeu a pena: hoje somos grandes amigos.

E hoje, tantos anos e livros depois, não tenho mais coragem de pedir um prefácio para eles.

Será que eu fui claro?