Página anterior

Respondendo à Ordem do Dia de Márcio Souza

Próxima crônica

Revista Amazônia 21

18.11.99

 


Meu querido amigo amazonense e amazonista, Márcio Souza, que deveria, merecidamente, ser o capitão-mór desta página, não sei se indignado ou curioso, mandou-me um e-mail para testar minha versatilidade sobre as coisas aí da região. Tentando, mais uma vez, com destreza e rapidez, mostrar que estou por dentro da amazônia legal ou ilegal, respondo às suas indagações com prazer mineiro e matreiro.

- A Amazônia também estará fazendo 500 anos?

- Não, Márcio. Apesar dos massacres que os portugueses fizeram por aí, estou sabendo que muito antes do Cabral, aí já estavam os aruaques, os caraíbas, jês, tupis e panos (pra manga?). Aliás, graças à existência dos aruaques, que faziam a cerâmica marajoara, pode-se afirmar que antes do ano 1.000, a amazônia já estava legal, numa boa.

- O que o marquês de Pombal, que reconstruiu Lisboa depois do terremoto de 1755, tem a ver com a Amazônia?

- Muita coisa. O mais interessante foi a criação de várias cidades na região usando o mesmo nome de cidades portuguesas. Santarém (na de Portugal, estão os restos que sobraram de Cabral, por exemplo), Silves e Bragança. O Forte do Presépio (de 1616), virou Belém. Só não sei informar se tem a torre.

- O que significa Fordlândia?

- Simples, meu caro Márcio. Henry Ford inventou a produção em série de automóveis. E automóvel tem pneu. E pneu tem borracha. E a Amazônia tinha borracha. Como diz a Barsa (inglesa), depois de uma "exploração violentamente predatória, antagonismo social entre serinalistas e seringueiros (muito antes de Chico Mendes, hein!), muita ganância (muito antes de Hildebrando, hein!) e pouco planejamento, provocaram um processo rápido de urbanização, desenvolvimento corrido e de alicerces precários". Foi quando o Ford inventou a Fordlândia e suas plantations, mas não deu muito certo, não.

- Quem foi Humboldt?

- Friedrich Wilhelm Karl Heinrich Alexander von Humboldt era um alemão, formado pela Universidade de Göttingen e na escola de minas de Friburgo, rico herdeiro, gastou toda a sua fortuna visitando a Amazônia no final do século 18. Ficou cinco anos por aí. Escreveu uma obra de 30 volumes, torrando toda a sua grana. O cara era doido. Andou mais de 2.000 quilômetros a cavalo. Esteve em Cuba, Colômbia, Equador, Peru, México. E, como se não bastasse, escalou o Chimborazo, nos Andes, que tem mais de 6.000 metros de altura. Pois estava o gringo aqui a estudar a Amazônia quando os portugueses o impediram de trabalhar. Foi expulso do Brasil por decreto vindo lá de Lisboa. Os lusos disseram que não desejavem estrangeiros em seus domínios.

- Os estrangeiros sempre se interessaram pela Amazônia?

- Até hoje! A UNESCO, em 1945, propôs o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, para pesquisa, mas foi embargado pelo Congresso brasileiro. E as Forças Armadas (em 1964, armadíssima) alegando motivos estratégicos, desaprovou o projeto de lagos do Hudson Institute de Nova York.

Pois é isso, Márcio. Expulsaram os índios, espulsaram os pesquisadores internacionais e ficaram a fazer estradas como a Transamazônica, motivo de tantas piadas e a Belém-Brasília, motivos de tantos buracos.

Enquanto isso, senadores dançam Besame Mucho, deputados cortam pernas e braços de desafetos, o Passarinho não canta mais, o Sting namora os índios, o Chico Mendes vai sendo esquecido e os nossos times de futebol amargam uma segunda divisão.

Mas a Amazônia ainda respira, meu querido Márcio. E, quando o governo brasileiro encarar a mata, ela deixará de ser o pulmão do mundo. Será o coração do mundo. É só querer. É só acabar com a corrupção e a impunidade.

Ou, como diz a minha empregaga, paraense:

- Menas dança e mais sustança!