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REELEIÇÃO SOLIDÁRIA:SOU MAIS RUTH

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o estado de s. paulo

1998

 


Não estou me referindo ao Fernando Henrique nem ao Covas. E sim à (como vou chamá-la: “primeira-dama”, “antropóloga”, “doutora”, “professora”, “mãe”, “amiga”, “avó”, “esposa”?) dona Ruth Cardoso. Reeleição já!

Conheci a Ruth (olha só a intimidade) como mãe do Paulinho Henrique Cardoso, seu filho, com quem quase fui morar quando me separei, em 81. Depois a Ruth, esposa do Fernando Henrique, um sociólogo, fundador do Cebrap, com recursos da Ford Foundation. Ficamos amigos não íntimos. Mas a ponto dela e dele me relatarem uma vez, no apartamento do Paulinho, o dia que os dois viram discos voadores nos céus do Ceará (ou seria Maranhão?). Não, não chegaram a ser abduzidos. Deve ter sido na época que o Fernando disse que tinha fumado, mas não tinha tragado. Acho (eu disse acho) que ele, tragou. Sabe daquelas mulheres que olha nos seus olhos quando você fala com ela? E te ouve? Ela é assim. Atenta. Rápida. Direta. Solidária!

Fernando candidato, aliado à forças nem tão ocultas assim, ela foi logo dizendo que, apesar do ACM, tinha gente boa lá. Deram um cala na boca nela. Não adiantou nada. Enfrentou, verbal e corajosamente, até o Papa.

Tirou no guarda-roupa da Rosana os penduricalhos duma tal de LBA e colocou uns taierzinhos feitos pela Marjorie Gueller. Não me chamem de primeira-dama, pois não sou nem a primeira e muito menos dama. Criou a Comunidade Solidária. Masturbação, diria o Serjão, como se masturbação não levasse ao prazer. Ela ficou na dela. Qual mineira, embora nascida na paulista Araraquara, em silêncio. E, negando Nelson Rodrigues, não solidária apenas no câncer.

Nora de general, resolveu mudar os rumos de uma antiga quartelada. Mas eu não estou vendo nada de solidariedade na minha cidade, me disse a mulher de um prefeito mineiro. Calma, Marilia.

Hoje, como conselheiro do Projeto Âncora, na Granja Vianna, um dos melhores exemplos brasileiros de soliariedade comunitária da iniciativa privada, comecei a me envolver mais com o tema. Foi quando conheci melhor o trabalho da Ruth e do seu braço direito (e esquerdo, Maria Helena Gregori). E elas não estão ali para distribuir verba para políticos, como no tempos da LBA (aliás, não tinha um processo por aí contra a veterana primeira-madama Rosana?).

E mais: não são políticas, não têm necessidade nenhuma de ficar alardeando que deram tanto pra cá, tanto pra lá, nem que inauguraram isso ou aquilo. Estou vendo de perto. A Comunidade existe e está se expandindo. Um dia, ao acordar, você vai vê-la ao seu lado.

Escrevi tudo isso aí em cima para dizer que, nos estatutos da Comunidade Solidária, não está prevista a reeleição. Digamos que o Fernando se reeleja (se tomar cuidado com o Ciro), como é que vai ficar?

Pelo o que eu estou a entender, o presidente precisa baixar uma lei qualquer para poder haver reeleição na Comunidade. E o que é que vai acontecer? A mídia vai cair de pau em cima dele. Nepotismo, favoritismo, patronato. Palavras que virão à tona (e à lona) aqui nas folhas do estado.

E se o presidente não fizer isso? O que restará para a minha amiga (se me permite) Ruth? Virar primeira-dama e rodar bolsinha em chás para as amigas?

- Ela sempre preferiu a penumbra ao palco, afirma José Gregori, amigo e secretário dos Direitos Humanos. Além de esposo da Maria Helena, pai da Ticha e avô da Ana Catarina (benvinda!)

Acho, minha querida Ruth, que neste ano de tantas reeleições e maracutaias, está na hora da senhora sair da penumbra e acender todas as luzes sobre a sua já iluminada cabeça. O Brasil precisa da sua solidariedade, Mais que a do seu marido.

Como dizia o arqueteto Lucio Costa, outro dia, já com 95 anos, para sua filha,  durante um jantar familiar, segundo história contada pela jornalista Marta Góes, da Istoé:

- Minha filha, me parece que é a primeira vez que o Brasil é governado por um casal, não é?

Fernando e Ruth, ouçam os mais velhos. Ouçam quem idealizou Brasília, onde agora você estão.

Nesta hora de reeleição, sou muito mais a Ruth. Tem toda a minha solidariedade. Espero que toda a comunidade partilhe deste meu pensamento.

Está, mais do que nunca, na hora de fixar as “Âncoras” do futuro. O presente já chegou.