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REALIDADE CONTRA FICÇÃO

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o estado de s. paulo

06/12/98

 


Imagine você escrever uma crônica quase até o finalzinho e, sem querer, bater o dedão no botãozinho do estabilizador do computador e sumir tudo. Liguei outra vez esta máquina terrível e não tinha nada aqui na página. Branco total.

Portanto, é com este espírito que estou voltando ao seu convívio. Não vou dizer do meu estado de ânimo para não ir usando uns palavrões assim logo de cara. Mas que eu estou... deixa pra lá. Vou tentar reescrever tudo de novo. Só não posso garantir o mesmo humor. Vamos lá. Como era mesmo que começava?

Olha eu aqui de novo. De novo. Realidade ou ficção?

Sempre gostei, no que escrevo, de misturar as duas coisas. Estilo mesmo, opção. Meu livro Mas Será o Benedito?, pura ficção, entrou na lista dos mais vendidos como ‘não-ficção”. E o Diário de um Magro, que é sobre a realidade de um spa, chegou as píncaros da glória como “ficção”.

Além se ficar aqui dizendo que escrevo best-seller imodestamente, o que é que você, leitor ou leitora, tem a ver com isso? Muito.

Fiz uma sacanagem com você na minha última crônica antes das férias. Venho, hoje, humildemente, de joelhos (cuidado com o botãozinho dos estabilizador, menino) pedir desculpas. Sinceras e envergonhadas.

O que se passou, foi o seguinte. Na citada crônica, publiquei o primeiro capítulo do livro que estou a escrever (Minhas Vidas Passadas - a limpo) sem avisar que era tudo ficção. Pura e galopante. Você não tinha obrigação de saber nada disso e meu levou a sério. Fou um Deus nos acuda. Não se preocupe que, quando o livro sair, vou colocar na capa: FICÇÃO!

Para quem não leu, dizia eu, ter descoberto um psiquiatra (doutor Leonardo Ramos) que  fazia regressões a vidas passadas com seus pacientes. Curava rudo, o danado. Até síndrome do pânico. Sim, eu já tive - verdade! mas me curei mesmo foi com remédios e psicanálise.

Não sei se acredito se já tive outras vidas. Inventei onze e estou me divertindo muito ao narrá-las amparado com uma bela pesquisa - séria - da Ângela Marques da Costa, a mesma que trabalhou no Chatô do Fernando Morais e no Xangô do Jô Joares. Por isso, as histórias de ficção ficam mesmo parecidas com a realidade. Este é o jogo, isto é o lúdico.

Mais uma vez peço desculpas pelo meu erro jornalístico que fez com que dezenas de pessoas me mandassem cartas, e-mails e telefonemas. Um senhor, até me disse que telefonou para todos os consultórios da rua doutor Bacelar atrás do doutor Leonardo Ramos, uma mistura que fiz com o nome de dois médicos amigos, o Leonardo Pasternak, sério pediatra e a competente Madalena Ramos, ambos argentinos há muito radicados por aqui. Para muitos que me procuraram, dei o nome do meu psiquiatra de verdade, o doutor Jair Mari, titular de psiquiatra da Paulista de Medicina  (que me curou) e que nunca fez regressões nem comigo nem com ninguém. Remédios e muito papo e saí do desespero pânico.

Creio que é o Brasil que me faz misturar tanto a realidade com a ficção. Covas não vai ser candidato (verdade ou mentiras?). O Fluminense vai cair novamente para a segunda divisão e, no ano que vem, vamos ter vinte e oito times na primeira (verdade ou mentira?). Paulo Maluf nunca comeu galinha (verdade ou mentira?). Os precatórios não vão terminar em pizza (verdade ou mentira?). Lula não é  candidato ( verdade ou mentira?). Taffarel disputa a copa da França, a PM vai mehorar, os meninos vão sair das ruas, Xuva vai ter filho, o SBT vai fazer novelas brasileiras, a paz vai voltar ao oriente médio, Fernando Henrique vai se reeleger em 2002, o Rio vai sediar a Olimpíada de 2008. E, por aí vai.

Agora, falando sério: pela minha experiência, posso afirmar que a síndrome de pânico é uma doença química e, como tal, deve ser tratada. Tem gente que pode não concordar, mas aí, já não sei se é realidade ou ficção.

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O escritor Sérgio Antunes estará em férias nos próximos doze meses. Verdade ou ficção?