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Ray Connif

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o estado de s. paulo

30/10/2002

 


Se você não sabe quem foi (é) Ray Conniff, me dá vontade de dizer que então você não viveu. Mas não vou dizer. Juro.

É que ele morreu há um mês e eu me pus a pensar na minha vida musical dos anos 50 pra cá.

Comecei com ele, nos Bailes de Debutante do interior. Love Is a Many-Splendored Things é marco não apenas musical, mas de letra. Dançar de rosto colado ouvindo Hi-lilli, Hi-lo jamais poderá ser descrito em dígitos.

Mas a minha geração encarou todas. Logo veio o Elvis Presley e todo mundo virou roqueiro. O Ray Conniff era um velho. Imagine que, logo depois, chegam os Beatles. Depois a música de protesto, a bossa nova, o tropicalismo. A gente encarou todos os movimentos com uma seriedade que não existe mais hoje.

Mas no fundo, no fundo, agora chego à conclusão de que o som da minha geração foi mesmo Ray Conniff. A paz do seu som.

O mais ou menos contemporâneo Pedro Vergueiro, me manda um e-mail que eu assino embaixo (e em cima) "Surpresa e susto: o maestro e arranjador Ray Conniff se foi. Uma banda e seu coral ficaram órfãos. A emoção da perda nos atinge também.

Tristeza: pela falta que fará e porque as músicas novas não mais serão por ele adaptadas para aquele seu ritmo tão peculiar e que muito embalou nossas vidas, quando jovens, menos jovens e que, ainda, embala as nossas recordações agora que somos pouco jovens.

Ray Conniff sempre foi parte integrante das nossas alegrias e, o que enobrece a sua importância, compartilhou sua música com nossos amores.

Todos da minha geração dançaram ao som da sua música envolvente, de seu balanço sedutor: o rosto colado, o chega pra lá sem perder o contato das mãos para poder trazer nosso par de volta, para o nosso abraço, todos os passos sob o olhar fiscalizador da mãe dela (a futura sogra?). Ele foi o símbolo do romance, do charme, nas festinhas, nos bailes de formatura e, também, nas boates.

Sua alva figura fará falta sim, e muito."

Acho que é isso. Somos todos uns conservadores. A gente tem uns cabelos, uns tênis, mas a gente já passou dos 50, Pedro. Por mais que tenhamos nos apaixonado pelos Beatles, pelos Stones, pelo Chico e Caetano, pela Janis Joplin, na hora do vamos ver, a gente ataca é mesmo de Ray Conniff.

Fico por aqui pensando se o Lula conheceu (ou conhece) o Ray Conniff. Vou torcer para que conheça. Para que ele faça um governo em ritmo de The First Time ever I Saw You Face.

Passei toda a campanha esperando que algum deles, seja para presidente, governador, deputado e o escambau, falasse no principal problema brasileiro.

Não é segurança, educação, diploma, fome. É um problema de auto-estima. No último debate, o Lula tocou no assunto falando com uma professora desempregada. O que o Brasil tá precisando é disto: auto-estima. O resto são problemas políticos e vocês tratem de dar um jeito. Não precisa, de cara, arrumar emprego para 12 milhões de desempregados. É mais cabível injetar otimismo e dose de auto-estima nuns 140 milhões. O brasileiro, apesar do penta de futebol, anda de cabeça baixa. Com vergonha de ser brasileiro, temendo o que a imprensa lá de fora vai dizer.

O brasileiro tem de ouvir Ray Conniff e se acalmar, gostar mais de si mesmo.

Ou, se preferir algo mais forte, pode ir com o Elvis cantando It's Now or Never. Uma bela canção para se cantar nesta semana.