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Quórum do leitor

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o estado de s. paulo

28/03/2001

 


Bíbi da Pieve, roqueira gaúcha, residente no Rio de Janeiro:

"Ontem um rapaz foi assassinado, na Barra da Tijuca, em frente de uma boate, porque mexia com a mulher do outro. Não é a primeira vez.

Mexer com a mulher dos outros deve estar quase subindo ao pódium das doenças que matam mais. Pelo menos na zona sul do Rio, cobiçar a mulher do próximo é, não só pecado, mas crime - sujeito à pena de morte, inclusive.

Eu, que sou mulher do próximo (temporariamente não identificado - a propaganda é a alma do negócio!), não posso deixar de me sensibilizar com toda essa justiça `informal'. Aliás, a única justiça brasileira que não funciona a passo de cágado, como diria o João Ubaldo.

Profundamente comovida com a doença (cobiçar a mulher do próximo), já decidi que vou tomar as devidas precauções para evitar mais desastres. Cada um fazendo a sua parte; não era isso que o Rock in Rio queria? O Carlinhos Brown fez a dele, e depois reclamaram.

De minha parte, tomarei providências. O primeiro próximo que vier querer constituir família comigo - ou melhor, que for pedir a minha mão a meu querido pai, porque é assim que funciona, quero tudo muito certinho, sou do tempo do carimbo e carbono -, tratatei de despachar o quanto antes. Água parada dá mosquito, que dá dengue, que mata. O mesmo acontece com o casamento, que gera próximo, que gera mulher do próximo, que gera tiro, que mata. Casamento, nicotina e água parada - tudo a mesma coisa. Tudo mata.

Terminarei os meus dias solteiríssima, redonda e aboletada numa poltrona de couro pardo, comendo chocolate até quase explodir, e com as unhas dos pés pretas e enormes - porque não alcanço lá, e não posso terceirizar o serviço:

falta-me o próximo. Mas a consciência estará cristalina, uma vez que estarei colaborando com a sociedade.

Isso mesmo. Passarei a vida evitando desastres, porque não podemos deixar tudo nas mãos do governo, imagine, é muita coisa. Sexo, por exemplo. Se eu chegar aos 80 anos sem o próximo, significa que não vou ter filhos. Se não tiver filhos, estarei também contribuindo para um mundo melhor.

Nunca se sabe o que vem pela frente; a possibilidade de eu parir gente que rouba ou mata é cada vez maior, sobretudo se meu filho resolver encontrar por aí alguém que esteja paquerando a mulher de qualquer próximo. Sem falar nas doenças venéreas. Sexo mata.

As pessoas precisam compreender que, se cada um fizer a sua parte, o país vai pra frente. Você separa o lixo? Não? Que absurdo. Aqui em casa, separamos direitinho - plástico, papel, vidro, lata, pilha, casca de batata.

O caminhão passa, pega tudo junto e atira lá dentro. Mas a minha consciência está tranqüila, isso é que importa.

Não precisa o governo parar de desviar verbas públicas, o desemprego deixar de ser tratado como piada, o salário mínimo passar a ser visível a olho nu e a aposentadoria não gerar desejo de suicídio depois de uma vida inteira de trabalho. Basta que a população coopere."

* Pedro Luis de Campos Vergueiro, paulista, pai da Marina:

"Finalmente (será que isso é válido?) diz-se que o Carandiru vai ser desativado. Dizem, ainda, que vão transformar o `complexo' (mas não tanto) num `pólo' cultural. Acho que isso não vai dar certo: pólos culturais já os há muitos na cidade. Minha idéia pode ser melhor.

Que tal transformar toda a área e seus prédios num espaço exclusivo da administração do Estado? Todas as secretarias do Executivo cabem naquele espaço, de forma que teríamos juntos todos os secretários, todos os secretários adjuntos e todos os chefes de gabinete também. Todos lá estariam ao lado do governador, que para lá deverá transferir sua residência oficial (noticiou-se que já está sendo procurando um novo Palácio, pois, ao que consta, o dos Bandeirantes já se tornou inadequado pois nele habitou o exemplar e impoluto Mário Covas).

A mudança será boa, inclusive para alterar o perfil da região, mudando o estigma do local que passaria a ter os nobres nomes de `CENTRO CÍVICO DO CARANDIRU' e `PALÁCIO DO CARANDIRU'. Nada mais adequado, inclusive porque o `centro' já está `muralhado' para resguardar a integridade dos seus habitantes. Tem-se na memória os aborrecidos incidentes de invasão do Palácio dos Bandeirantes com a derrubada da sua grade, o que não ocorreria com as muralhas que já cercam o futuro `centro'.

Até a Assembléia Legislativa lá cabe e poderia ser instalada: o Plenário e os plenarinhos poderiam ser montados nos pátios, sob a vigilância dos segurança distribuídos pelas guaritas para proteção dos nobres pares quando perderem a compostura.

Teríamos, assim, um centro cívico cuja arquitetura bem salvaguardará seus ilustres habitantes, os quais até poderiam dele sair à francesa, pelos túneis construídos pelos antigos habitantes do local."