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QUARENTENA

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o estado de S. Paulo

06/08/2003

 


De cara vou avisando que a crônica de hoje era para ser outra. Mas tive problemas com o computador depois que abri os e-mails do fim de semana. Em um deles tinha vírus e o doctor Norton me alertou e já tomou a sua decisão mandando-o para o quarentena. Pra quem não manja de computador, o Norton é um caçador de vírus. Vive disso. Aí eu fui lá no quarentena (é "no" sim, revisão, pois é o lugar da coisa lá do Norton) e o danado tava lá. Preso.

Pego em flagrantíssimo. Fui logo no excluir e o Norton me aconselhou a mantê-lo lá. Ou seja, um computador me dando conselhos. E há alguns anos já.

Mas eu reagi.

  Excluí. Pois a partir daí o computador enlouqueceu e eu fiquei mais de uma hora para ter o domínio. Sim, domínio, porque ele é meu, foi comprado e pago. E eu não admito mais receber ordens dele. E quando ele te pergunta "tem certeza que..."?

  Enquanto eu passei essa uma hora montado em cima dele como se fosse em cima de uma vaca brava em Barretos, fiquei pensando por que é que eu não confiava naquele papo de deixá-lo no quarentena. Em primeiro lugar porque acho meio ignorante da parte dele (o computador) chamar aquele lugar de quarentena.

  Como a palavra nos remete automaticamente ao número 40, fico sempre imaginando que, depois de 40 dias, o tal do vírus vai acordar, dar uma gargalhada e nos infernizar. Provavelmente promovendo um suicídio total do nosso computador. Portanto, achei que o título estava errado. Cismei, fazer o quê?

  Foi quando fui ao Houaiss e vi que o seu Norton tinha alguma razão. Olha o que o homem fala: "Conjunto de medidas e restrições que consistia especialmente no isolamento, durante certo tempo (originalmente 42 dias), de indivíduos e mercadorias provenientes de regiões onde grassavam epidemias de doenças contagiosas." Indivíduos e mercadorias, veja você.

  Se você está lendo isto aqui é porque o computador ficou bom e eu passei o e-mail para a redação, claro. Quer dizer que eu ganhei a briga. Pelo menos mais ou menos. Mas que é um absurdo ficar travando batalhas com esta máquina aqui, é.

  Eu admiro (embora odeie) as pessoas que passam dias, meses, anos, trancadas nalgum lugar do planeta inventando vírus. Bolando estas malvadezas quase infantis.

  Mas cuidado, o carinha está apenas começando, assim como a internet e a popularização do micro (como dizem os mais íntimos). E pensar que antigamente se chamava cérebro eletrônico. O que é que esse tipo de gente vai estar fazendo conosco daqui a uns cinco anos? E daqui a uns dez anos?

  Que tipo de pergunta o seu micro vai te fazer? É meio assustador imaginar.

  Estamos começando uma nova era. Este troço vai nos dominar. Vamos acabar escrevendo a crônica que ele quiser.

  E não sobre um diálogo entre a mãe (separada) e o filho de 11 anos que volta para casa depois de passar o fim de semana com o pai e a nova namorada (do pai). E a mãe, fingindo não estar interessada, começa a interrogar sutilmente o garoto até saber tudo sobre a outra.

  Mas pintou o vírus, as quarentenas, o doutor Norton me perguntando:

  - Você tem certeza que quer mesmo escrever esta crônica?