Adoro São Paulo. Mesmo estando no exterior, fico com saudades do
congestionamento da Consolação. Adoro as ruas de São Paulo. Gosto,
principalmente, dos nomes delas. Mas fico intrigado. Nunca sei quem
foram aquelas pessoas que hoje são ruas.
Por exemplo, a Angélica. Que mulher foi esta que deu o
nome para uma rua tão importante, movimentada e bonita? Imagino que a
Angélica deveria ser uma mulher loira, de olhos claros e pernas bem
compridas. Não sei porque, muito gostosa, a Angélica. Alguma ela deve
ter aprontado para virar rua.
A Bela Cintra, por exemplo. Bela era o nome dela? Devia
ser uma mulher cheia de altos e baixos. Já a Aurora, seria uma velha
prostituta da região? Teria, nos anos 10, alguma casa de cômodos? E a
Augusta? Será esta Augusta a mesma que temos lá em Lisboa na Baixa?
Augusta pergunta. E a dona Veridiana? Alguma relação com o nosso Buñuel?
Seria chegada a uns mendigos? Parente da Maria Antonia? E a Maria
Antonia, teve alguma caso com o Doutor Vilanova com quem ela cruza há
mais de um século na frente de todo mundo no Bar do Zé? Seria amiga do
Major Sertório? Protegida dele? Seria um valentão, esse Sertório? Homem
de tiro certo?
Já a Dona Antonia de Queiroz tem um nome mais impoluto.
Deve ter sido alguma professora de curso primário da região. Ou será que
ela foi a primeira dona do Pronto Socorro Sabará, para crianças?
Já a Maria Paula teve mais honras ainda. Virou viaduto.
Quem foi Maria Paula, meu Deus, onde hoje camelôs vendem de tudo em cima
dela, coitada?
Não vou aqui discutir os nomes indígenas, pois são muito
mais complicados. Nem queiram me explicar o que significa Ibirapuera ou
Anhangabau. Sumaré eu descobri que é uma espécie de orquídea. Tinha
orquídeas lá no bairro? Tinha pinheiros naquela rua? Tinha ouvidor lá no
centro velho?
Dizem que ali em Pinheiros é tudo nome de médicos da
faculdade de Medicina. Oscar Freire, Teodoro Sampaio (que era um
sanitarista negro e foi quem criou os esgotos em São Paulo) e até mesmo
o doutor Arnaldo, que, aliás, se chamava Arnaldo Vieira de Carvalho.
Este teve sorte. Além da avenida é rua no Centro de São Paulo.
Mas o
que faz o
Cardeal Arcoverde
ali no
meio dos
médicos? Dizem
que
era
cearense.
Mas o
que fazia
com os
médicos?
Capote
Valente,
por
exemplo, foi
quem?
Ou seria
um
capote
simples, usado
por
alguém
valente? Mourato
Coelho
tinha os dentinhos
para
fora?
E na Vila Madalena, então? Em primeiro luigar, quem foi
essa Madalena que virou mais que rua, virou bairro? Que Cristo teria
lavado seus pés? Desconfio que essa Madalena gostava de gays há já algum
tempo. Vejam os nomes das ruas de lá: Simpatia, Fidalga, Harmonia,
Purpurina, Girassol. Eu não teria coragem de morar na esquina da
Purpurina com Girassol. Minha mãe desconfiaria de algo errado. Por isso
mora na Franca, grande construtora de sapatos e não sapatões.
Em Moema, mais viadagem ainda. Tudo nome de passarinho.
Pode?
E o Rebouças, hein? Já pararam para pensar? Claro, está
sempre congestionada.
E a rua do Triunfo? Triunfo de quem? Do cinema da Boca do
Lixo? Quem frequenta muito lá é uma tal de Vitória. Vitória da sacanagem
explícita? O Rego Freitas, por exemplo. Talvez fosse um rego de águas,
chamado Freitas. Jamais saberemos.
E as datas, então? Que diabo teria acontecido no dia 23 de
maio? E 25 de março?
Antonio Carlos. O cabelereiro ou o jogador do Palmeiras?
E o Parque da Luz que é a maior escuridão de noite?
Quando estava na copa do ano passado, vimos uma rua em San
José, na Califórnia, chamada Viola. Seria ele? Ou seria a do Paulinho?
Mas tem uma praça que todo mundo aqui do jornal tem a
obrigação de conhecer: Júlio Mesquita.