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QUEM TEM MEDO DO HIDERALDO LUIZ?

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o estado de s. paulo

6.7.94

 


SAN FRANCISCO - Eu não sei se o brasileiro tem memória curta ou eu que estou ficando velho. E meio gagá.

Estávamos eu, o cartunista Paulo Caruso e o brasilianista Matthew Shirts no Sport Bar aqui do San Francisco Hilton a tomar umas Coronas (cerveja mexicana, com limão) quando tudo se deu. Vejo passar o Bellini. Para quem não sabe, o Bellini (Hideraldo Luiz Bellini) foi o capitão da seleção de 58, na Suécia, e reserva do Mauro Ramos de Oliveira, em 62, no Chile. Foi um dos três brasileiros a erguer a famosa e nossa taça Jules Rimet, aquela mesma que, depois, foi roubada e derretida por um larápio idiota.

O lobby do hotel estava cheio. Cheio de brasileiros. E quando eu digo cheio de brasileiros, isso está na base de dois mil canarinhos. Vi o Bellini, comentei com os companheiros da mesa. Bellini, bonito, alto e elegante como sempre, atravessou todo o salão e não foi reconhecido. Ninguém percebeu que, por ali, passava um dos maiores ídolos que o Brasil já conheceu. Pensei em chamá-lo, colocá-lo na nossa mesa e passar o resto da noite conversando. Mas como já conheço esta nossa torcida, fiquei com medo de gritar ''Bellini!" e o tumulto se generalizar.

E ele foi emnbora, de mãos dadas com a sua esposa. Eu não sei por que, mas esses campeões do mundo sempre andam de mãos dadas com as esposas. Vi o Gilmar (dos Santos Neves), o maior goleiro que o Brasil já viu jogar, igualmente bicampeão, algumas vezes. Sempre de mãos dadas com sua loira esposa, como a assegurar que a bola não fosse para escanteio. Aliás, toda mulher de jogador de futebol é loira. A do Bellini também.

O Bellini entrou no elevador, segurando a sua esposa como se ela fosse a Jules Rimet. Subiu e sumiu. Fiquei impressionado. Mesmo porque, minutos antes, um cearense reconhecera o Caruso e fizera questão de uma foto com ele. Outra senhora, de Barretos, me reconheceu (me viu no Jô Soares aí no Brasil). Só faltava reconhecerem o Matthew. Faltava, porque uma garota de São Paulo o descobriu no meio do salão. E ele, emocionado, chorou. E o Bellini, o Bellini, passou incólume, como se fosse bater um tiro de meta num jogo do Vasco contra o Olaria.

Mas volternos ao lobby do hotel. Comecei a cair em mim: o Bellini levantou aquela taça em 58, ou seja, há 36 anos. A grande maioria dos brasileiros que ensaiava o sambão para o dia do jogo contra os Estados Unidos nem sequer havia nascido. Mas eis que o elevador abre e o Bellini volta. De mãos dadas, como convém. E, novamente, passa pela minha frente. Não resisti e disse mais ou menos alto:

- Hideraldo Luiz!

Ele estancou no meio do salão, como se o árbitro tivesse marcado uma falta. Ele e a esposa. Chegou até a largar da mão dela. Hideraldo Luiz deve ser como a mãe dele - e apenas a mãe dele - o chamava nos momentos de peraltices. Mas é que eu não podia gritar ''Bellini!', como já expliquei. E ele veio, novamente de mãos dadas, refeito do susto, para o meu lado. Soltou novamente a mão da esposa para me cumprimentar. E eu fiquei feito um panaca, sem saber o que dizer para ele. Naquele momento, todos os jogos do tri vieram à tona, toda a alegria que aqueles meninos de então haviam dado para a minha geração bateu na minha cabeça. Bellini, Mauro e Carlos Alberto Torres. Não sabia o que dizer, como agir. Estiquei a mão e o cumprimentei com cara de babaca. E ficamos nos olhando, um para o outro. Não sei se ele queria saber por que eu disse Hideraldo e não Bellini. Me apresentou à loira esposa. Ela soltou da mão dele e me cumprimentou. E assim ficamos os três, ali, no meio do lobby do hotel. Ninguém tinha nada para dizer para ninguém. Me deu vontade de gritar para os dois mil brasileiros: "gente, esse cara aqui é o Bellini, o Hideraldo Luiz Bellini, aquele de 58!"

Mas não disse nada. Fiquei olhando na cara dele. E nas suas mãos, que agora seguravam de novo as mãos da esposa. Aquelas mãos que levantaram a taça do mundo em Estocolmo quando eu tinha 12 anos. E era com 12 anos que eu estava novamente. Como vários garotos ali no lobby, ainda com a expectativa de uma nova taça a ser erguida um dia. Não sei onde. nem por quem. É torcer para poder.