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QUEM TEM MEDO DE UM INIRGELEP LUAR?  

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o estado de s. paulo

1998

 


Os empresários paulistas andam com o IR atrás da orelha, com os gomalinados cabelos em pé, com culpa no cartório. Tudo por causa de uma ficção chamada Raul Pelegrini. Para tanta reclamação, o retrato feito pelo Gilberto Braga deve ter sido perfeito. Mas eles acham que não. Que empresário não é daquele jeito, de jeito nenhum. Tem uma ala da Fiesp (já chamada de ala Vera Fisher) que quer, porque quer, mandar sugestões para a Rede Globo para que eles façam outra novela, mostrando a verdadeira cara do empresário paulista. Como já andei incursionando pelas novelas-globais, vai aqui uma pequena e modesta contribuição para a FIESP e para a Globo. Uma pequena sinópse para uma minissérie de dez capítulos. Se for aprovada, eu, como micro-empresário, escrevo de graça. Caso paguem, darei todo o dinheiro para a campanha do Betinho. Eu, como um bom micro-empresário, não almejo o lucro, é claro. O personagem é o contrário de Raul Pelegrini,  ou seja, Inirgelep Luar.

 (ou: Luar do Sertão)

minissérie de Atarp Oiram

(em dez capítulos e uma quebra de braço)

 

Capítulo 01: Inirgelep Luar, jovem empresário-padrão brasileiro tenta, a todo custo, convencer Fiapo, seu empregado, a receber aumento todos os meses. Fiapo não aceita, argumentando que está preparado para não receber apenas um salário, que dois seria insuportável.


Capítulo 02: Fiapo conta para sua esposa Rosinha. Ela acha que ele deve aceitar. No dia seguinte, às cinco da manhã, ao pegar no duro, recebe mais uma proposta do empresário Inirgelep Luar: dezesseis salários por ano, fora as férias, é claro. E mais: Luar está a fim de financiar a casa própria do . Rosinha continua achando que ele deve aceitar, afinal, a cobertura que eles moram é alugada.


Capítulo 03: Inirgelep Luar começa a pagar os estudos dos filhos de Fiapo. Um na Suiça e a menina na psicologia da PUC. não aceita, afinal os filhos dele têm estudo de graça nas escolas públicas do Brasil e estão muito bem. Inirgelep Luar chega a insistir com a Rosinha para que ele aceite.

 

Capítulo 04: Inirgelep Luar insiste. Deixa claro para Fiapo que sabe muito bem que ele - o bom empresário - está sendo explorado pelo operário. Só porque ele paga as horas extras direitinho. Tudo o que ele quer é um bom clima na relação patrão-empregado. Rosinha chega a ir até a fábrica falar com Inirgelep Luar. Ela também começa a achar que Fiapo está explorando o patrão. E denuncia: seu marido está trabalhando apenas 80 horas por semana.

 

Capítulo 05:  Inirgelep Luar leva Rosinha até o barracão onde mora humildemente e, depois de fazer amor com ela (apenas porque ela estava muito carente afetivamente), diz: "estou fazendo com você, o que aquele ingrato está fazendo comigo". Depois quebra o braço dela numa briga-sem-querer, pede desculpas e chora antes dos comerciais. Rosinha acha bárbara a casa de Luar e sai cantando Barracão de Zinco e Luar do Sertão. Luar fica cheio de culpas. Bom católico, confessa e se comunga diretamente com o Papa, em Roma. Levou a Creuza com ele, mas apenas para ela ver com os próprios olhos. Aproveita e passa uma reprimenda no Berlusconi que andava sonegando impostos.

 

Capítulo 06: Inirgelep Luar oferece participação nos lucros da empresa para Zé. Meio a meio. Zé não aceita. Rosinha vai morar com Luar no barracão e leva sua filha Creuza com ela. Inirgelep Luar engravida as duas (apenas uma questão de carinho para os carentes), mas quem paga os abortos é Zé Fiapo, no Einstein, com o Seguro Saúde que todos têm na empresa e que cobre tudo, menos os cornos.

 

Capítulo 07: Zé Fiapo pede demissão da fábrica, mas ela não é aceita. Passa a ser diretor-adjunto. Ele acata, mas só que com o mesmo salário. Luar abre uma conta na Suiça para ele e paga por fora, em francos suiços, descontando, é claro, todos os impostos brasileiros e suiços. Luar nunca sonegou impostos. Zé sabe disso. Aliás, Luar chegou a dizer uma vez: "todo operário sonega impostos no Brasil". Claro que não foi bem interpretado.

 

Capítulo 08: Rosinha e Creuza começam a passar fome na casa do empresário e voltam para a cobertura do que tem Vale Refeição no Máximo e no Rodeio. aceita as duas de volta. Afinal, está cada vez mais rico e bem de vida, ao contrário do Luar que só fica nos jornais e nas televisões afirmando que o seu lucro não atingiu 1000% este ano, e que está sendo explorado pelos mais pobres. Inirgelep Luar chega a chorar sinceramente no Jô Soares e abre seu coração na Hebe Carmargo, gentilmente cedido pela Rede Globo.

 

Capítulo 09: Inirgelep Luar, pressionado por forças ocultas e multinacionais, fecha a sua empresa e muda-se para Miami levando apenas a Creuza e os pequenos lucros. , com a indenização que recebe, sabe que dá para viver uns vinte anos numa boa. Mas fica com remorso: será que foi ele que levou o patrão àquela situação? No final do capítulo ameaça devolver tudo para a empresa, mas a Rosinha não deixa.

 

Capítulo 10: Zé se candidata a governador de São Paulo e, com o apoio de todo o empresariado, é eleito. Recebe uma carta de Luar, lá dos Estados Unidos, propondo abrirem, juntos, um negócio em Miami: Creuza Importações e Exportações. Mas Zé Fiapo não aceita. Ele tem uma missão, quer chegar à presidência da República. A Fiesp já disse que apoia. Até a Overbrecht dará dinheiro. Zé sabe que o seu lugar é em Brasília, assim como Luar sabe que o seu lugar é lá nos Estados Unidos. De lá, ele continuará a aporrinhar a vida de Zé Fiapo. Até ele se convencer que o Zé é um ser humano e ele, como sempre, apenas um bom empresário. Sem culpa no Cartório ou na Rede Globo de Televisão.