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Quebra de sigilo cerebral

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o estado de s. paulo

15/11/2000

 


O que se pode esperar de um país onde a única coisa transparente é o leite? O que se pode esperar de um país onde as investigações policiais e jurídicas são feitas pelo Legislativo e não pelo Poder Judiciário?

O que... quando são os deputados que investigam crimes através das CPIs enquanto os juízes estão na festa de debutante da filha do ex-senador corrupto que agora vai fazer faculdade de filosofia?

O que... quando a outra coisa transparente é o veuzinho na boca da Feiticeira?

O que se pode esperar é este campeonato com o nome do sogro do dono do futebol brasileiro.

Eu não consigo engolir deputados e senadores da República (eleitos para legislar) investigando crimes. E, no caso específico da CPI do futebol, com uma comissão em que alguns elementos são os próprios investigados. Complicado, isso.

Acham o máximo quebrar o sigilo bancário dos possíveis bandidos. Como se eles fossem idiotas de depositarem a grana na própria conta. Tem que quebrar é o sigilo cerebral deles. Deles (os bandidos) e deles (os mocinhos, deputados e senadores).

Alguém aí já viu uma CPI que mandou alguém para a cadeia? Me dêem um nome. Um só. Viu?

Vamos ao QI desse pessoal. A tal da Copa Havelange. Momentos finais, decisivos: ficam de fora os três times de maior torcida e tradição do Brasil: Corinthians, Flamengo e Atlético Mineiro. E disputam o título o São Caetano, o Paraná, o Remo (ou o Tuna Luso) e o Etti de Jundiaí (ou o Uberlândia ou o Malutron do Paraná). Com jogos às 10 da noite, depois da novela da Globo, por especial favor entre os atravessadores.

E depois os dirigentes vão para a televisão dizer que não entendem por que o público não vai ao estádio. No domingo, no Mineirão, jogaram Cruzeiro e Ponte Preta. Líder e vice-líder do campeonato. Público de apenas 6 mil pessoas. E por quê? Porque a partida não valia nada. Qualquer um dos times podia golear o outro que não acontecia absolutamente nada.

A Justiça esportiva (ligada à CBF) proibiu o treinador da seleção brasileira (propriedade da CBF) de estar no campo no dia da estréia dele em jogo que vale pela Copa do Mundo. Burrice ou uma nova estratégia? É dose pra leão.

O mais doido disso tudo é que essa Copa Havelange não é organizada pela CBF. É pelo Grupo dos 13. Ou seja, no ano que vem se você, que está lendo isto aqui, quiser, organiza um campeonato e coloca o nome do seu sogro e tudo bem. Ninguém reclama. Zorra total. Vale tudo.

O presidente da República e o senhor ministro da Justiça (que são brasileiros e gostam de futebol) deveriam estar mais atentos a todas essas maracutaias do futebol brasileiro. Depois, quando perdemos a Copa do Mundo ou a Olimpíada, a culpa é do técnico e dos jogadores. Né não, Fernando e José. A culpa é mesmo dos dirigentes. E de vocês.

E não adianta vasculhar a conta bancária deles. Não vão achar nada.

E eu gostaria muito, mas muito mesmo que alguém me explicasse por que é que os deputados e os senadores se arvoram de juízes da verdade e da Justiça. E por que os juízes vão na festa do Luiz Estevão. E por que o leite é transparente.

E até mesmo por que o meu Timão não consegue mais vencer. Daqui a pouco vão fazer uma CPI do Corinthians. E mais: por que a lei que fecha tantas empresas por falta de pagamento de impostos (e sonegação) não fecha o Flamengo, que deve quase 100 milhões para o Brasil? Ou seja, para todos nós! Ou seja II: qual é a diferença entre o Flamengo e o Lalau?

O dia que quebrarem o sigilo cerebral dos políticos e dos cartolas, talvez a coisa melhore. Por que, por exemplo, que o Flamengo ainda tem três jogos pelo campeonato e o Gama nenhum?

Este é um país sem dono, jogando pelada com a bola da Nike.