Página anterior

QUE ZONA É ESSA, SEU DELEGADO?

Próxima crônica

o estado de s. paulo

14/01/99

 


Mas quem este tal de delegado Flávio de Abreu, com cara de Visconde de Sabugosa, pensa que é? Como é que ele sai lá de Pirajui pra ir lá pra Lins acabar com a nossa Vila São João? Nossa sim, seu Flavio, "caçador de prostitutas"! A zona é nossa, a gente viu primeiro e ninguém tasca!

Esse cara não deve saber que em 1968 quando começaram a aparecer discos voadores lá em Lins, foi justamente na Vila São João que eles decidiram fazer o discoporto deles. Até os extra-terrestre, seu Abreu, vinham visitar a nossa zona. E agora o senhor chega assim sem mais nem menos e vai acabando com o nosso passado? Onde estamos?

Qual foi o garoto de Lins que não subia para lá, de tarde, de bicicleta, e ficava escondido atrás das mangueiras vendo os mais velhos entrarem nas casas? Só de ver entrando, já dava tesão. Qual foi o linense que não perdeu o cabaço na Vila São João? De tarde, porque elas faziam abatimento.

Quem é que não sonhava um dia em fechar uma casa? Só os mais ricos podiam fazer isso. Fechavam a janelinha, apagavam a luzinha vermelha e a mulherada ficava toda por conta deles. Ninguém entrava, ninguém saia. E dá-lhe Nelson Gonçalves! E dá-lhe Meu Mundo Caiu!

Tenho quase certeza que o doutor Ulisses, quando estudava na Escola Nornal, deve ter feito algumas visitinhas por lá. Manabu Mabe era da turma dos japoneses: pau duro, coraçon mole; pau mole, coraçon duro. O Leivinha, aquele da seleção. O Armando Marques até dizia que ele tinha feito com a mão, mas ele jurava que tinha sido com a cabeça. E tinha a Gaúcha, que ostentava uma enorme mordida no imenso seio e jurava que tinha sido um futuro famoso costureiro. Walter Abrão, Fiori Giglioti, tudo gente nossa, seu Abreu. O príncipe Hiroito visitou a cidade nos anos cinquenta. Consta que, de madrugada, deu uma chegada no Sobradinho

E quem é que não se lembra da Véia Isabé? A Véia Isabé, quando eu a conheci ela já devia ter uns oitenta anos. Tinha filha, neta e bisneta na zona, doutor Abreu. No ramo desde 1914! Diz a lenda que chegou com os primeiros bandeirantes na região. A gente era moleque, chegava e gritava: Véia Isabé!!! e ela levantava a saia e mostrava tudo pra garotada. Foi a primeira que eu vi, assim ao vivo, toda escancarada. Jamais esqueci.

E aqueles velhos coronéis que tiravam as mulheres da zona, davam casa e tudo? Toda a cidade comentada: doutor fulano tirou a Creuza da zona. E os estudantes de odontologia que iam de branco se passavam por médicos e diziam que eram da inspecção estadual só pra ver a chota das moças?

A luzinha vermelha acesa na porta, a portinhola aberta, a sala com dois sofás: paga um cuba, tesão? Era emocionante. A penteadeira, o rolo de papel higiênico cor de rosa o criado-mudo (e surdo)e, no fundo da casa, a indefectível bacia cheia de água. A gente ouviu o chot-chot-chot delas se lavando.

Naquela época, delegado que era delegado não fechava a zona, abria a zona. Quantas e quantas vezes a gente não cruzava lá na zona com o Arcidão, com o Coqueiro? Tudo gente de Lins, dando proteção.

Pois é, seu Abreu, o senhor ainda tem a cara de pau de dizer que prefere "sair de Lins de cabeça erguida, a ficar de cabeça baixa". Resta explicar, seu delegado, qual cabeça.