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QUARTA TEM FEIJOADA? NÃO, TEM RODÍZIO.

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o estado de s. paulo

30/08/95

 


Já sabendo que ia ter que deixar o carro na garagem na quarta-feira (final 5), organizei para desenvolver a semana na terça e na quinta. Mas qual não foi a minha surpresa, ao acordar, na quarta, constatar que naquele dia, havia sido contemplado também com o rodízio de água. Tudo bem, vamos colaborar.

Sempre gostei dos rodízios. Atualmente o meu favorito é do Poncho Verde, numa travessa da Giovanni Gronchi, no Morumbi. Para quem gosta de se entupir de carne, nada melhor.

Mas, voltemos aos carros, que rodízio de carne não tem rodízio. Por enquanto.

Dizem que a poluição não caiu tanto assim e que alguns congestinomanto continuaram. Tenho a impressão que aconteceu como aquela piada do Garincha, no jogo contra a Russia, no mundial de 58, na Suécia. O técnico Feola explicou como o Garrincha tinha que fazer para chegar até a área dos comunistas. Dada a explicação, Garrincha perguntou: Seu Feola, avisaram os russos?

Acho que com o plano das autoridades aqui em baixo, aconteceu o mesmo. Esqueceram de avisar o ar. O ar não devia estar preparado, foi pego de surpresa. Talvez se a operação for usada mais vezes, o ar caia em si, literalmente. O ar é abstrato, não se engana facilmente. O ar não lê jornal. Enfim, o ar não estava sabendo de nada, mesmo passando por ele as ondas das imagens da televisão. Mais ou menos assim: o ar, já viciadão, necessita de certos poluentes por dia. Com menos carros, deve ter cafungado mais dos incautos que estavam na rua. Com o tempo a gente pega ele de jeito.

Mas, na minha modesta opinião de rodizeiro contumaz, o mais importante, foi uma lição de civilidade que o paulistano deu. Cinquenta por cento, deixaram seus carros em casa. Isso sim, é coisa de primeiro mundo. Colaborar com as autoridades. Sim, porque o brasileiro odeia regras e leis. Sempre dá um jeitinho nelas. Desta vez, não. Se é para no bem de todos e felicidade geral do ar, diga ao Feldman que fico. Na garagem.

A meta era reduzir a poluição e o congestionamento em vinte por cento. Chegaremos lá, civilizadamente. Comigo, podem contar.

Sugiro às autotidades competentes (e às incompetentes também), outros rodízios em São Paulo.

Rodízio de assalto: na segunda-feira só podrão ser assaltadas casas com final 1 e 2. Na terça, casas com finais 2 e 4. Teríamos, assim, uma redução de vinte por cento nos assaltos a casas.

Rodízio no extermínio: Na segunda só poderão ser exterminados menores com idade ímpar. Na terça, idade par. Na terça, pardos. E assim por diante.

Rodizio na corrupção: Na segunda, corrupção de 5 a 10 por cento. Na terça, de 15 a 20. Ad nauseam. Teríamos uma redução, portanto, como sempre, em 20 por cento nas corrupções. Oficiais ou não.

Rodizio de torcida organizada: nos jogos de quarta, só podem apanhar torcedores com identidade com final 1 e 2. Nos jogos de quinta, final 2 e 4. O sujeito vem com um pau pra cima do menino e ele logo saca a identidade: "meu dia de apanhar é sabado, não vem não". Vinte por cento a menos de porradas, já é um bom avanço.

Só espero que o Poncho Verde não faça rodízio do rodízio na base de segunda feira: não servem picanha e maminha. Na terça, alcatra e costela, etc.

Na quarta não saí de casa e nem tomei banho. Mas estou limpo com a minha consciência. O paulistano provou, mais uma vez, que, quando quer, colabora. É civilizado.