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o estado de s. paulo

02/10/96

 


O homem enlouqueceu. Não entendi nada. Minha família (os mais velhos) odiaram. Os mais jovens, adoraram. Cartas, telegramas, telefonemas nacionais e internacionais. Tudo isso porque eu disse aqui, quarta-feira passada, que eu sou um ET (vim do futuro aqui da Terra) e que tinha uma missão a cumprir aqui no meu passado.

O problema maior foi com os meus superiores lá do futuro. Disseram que não estava na hora (ainda) de me manifestar e me mandaram para um Centro de Reciclagem para que eu caisse em mim. Um Centro de Reciclagem só para gente como eu: pessoas do futuro.

Só nós, ETs, sabemos onde fica esse lugar. É em algum local do interior do Brasil. Um bosque como o dos gnomos, cercado de eucalíptos por todos os lados. Pessoas altamente especializadas em medicina avançada, nutricionismo, conforto, paz e amor, tratam da gente. Algumas drágeas, pouca comida. Exercícios. Malhação, como dizem vocês.

Aparelhagem futurista, por do sol de verdade, eclipses da lua todo dia. Estamos todos muito felizes. A gente se diverte. Aqui, todos nós, homens e mulheres do futuro (ou ETs como vocês preferem) viramos, da noite para o dia, crianças. Estamos todos preocupados em preservar o corpo. E a cabeça, principalmente. Estamos, cada um de nós, preocupados com o nosso futuro e o de vocês.

Este local, de onde estou escrevendo agora, só nós, que já viemos para cá, conhecemos. É o lugar do futuro. Uma coisa que começou, timidamente, no final do século XX. Hoje, no século XXII, de onde a maioria daqui veio, é fato corriqueiro. É a nova democracia. A democracia da caloria. Das trezentas calorias.

Uma das minhas missões aqui no passado é a de informar vocês de uma coisa que está sendo esquecida nesse final de século: as duas únicas coisas que temos, que são só nossas, são o nosso nome e o nosso corpo. Isso nunca dividimos com ninguém. Portanto, temos que cuidar muito bem do nome e do corpo. Um dia você também vai chegar a essa conclusão, como nós, que estamos aqui, já chegamos. Sei que não é fácil.

Isso aqui, este bosque, este jardim dos finzi contini, este castelo de marienbad, me lembra a cena final do filme Farenheit 451 (é esse mesmo o nome? Já faz três séculos), aquela história onde era proibido ler. Então os "revolucionários" fugiam para um parque e cada um se dedicava a decorar um livro para passar para as próximas gerações. Shakespeare, Dostoiévski, Rimbaud, etc. Ficavam passeando pelo jardim, decorando.

Aqui, fazemos mais ou menos isto. Ficamos todos, com brancos roupões a passear pelas alamedas, pensando em nós. E nos outros.

Somos uma família de 33 pessoas. Tem ET de Pernambuco, do Uruguai, de Orlandia, de Ibitinga, de São Paulo, Santos. Tudo ET, tudo gente do futuro, aqui, a fim de te ajudar.

A família é de alta rotatividade. Todo dia vai um embora e chega outro. A gente fica curioso para saber o que aquele ET tem de missão aqui na Terra do passado. Essa nossa comunidade, posso lhes afirmar com certeza, é o começo do futuro para vocês, de hoje.

Como disse o Antonio Fagundes (um dos nossos ETs mais famoso) aqui ele aprendeu a beber água. Você tem tomado água ultimamente? Não sabe como é bom. Faz muito bem. No futuro não temos nem mais álcool, nem nicotina. Só um tapinha, de vez em quando. Será o mundo da cetose (vide Aurélio).

Claro que muitos de nós, com essa alimentação absurda do final deste século, estamos um pouco gordinhos (ou obesos, como dizem aqui). E como é bonito ver cada um deles ou delas, na luta para preservar o corpo e, nomeadamente, a mente.

O mais interessante é que as pessoas que cuidam de nós com tanto carinho, sabem que todos nós somos ETs. O que eles não sabem (médicos, enfermeiras, funcionários, etc e tal) é que eles também são. Só que ainda não perceberam. Não receberam o aviso do futuro explicando qual a missão deles aqui no passado. Mas agem como se já soubessem.

Gente, falando um português bem claro: eu estou num SPA (Salvação Para Amanhã) em Sorocaba, chamado São Pedro, aquele apóstolo da primeira pedra, do marco inicial. É daqui que o Bendito (bendito mesmo) Ruy Barbosa (talentoso ET) nos escreve O Rei do Gado.

É aqui que eu estou me encontrando com o meu corpo e a minha cabeça que andavam antigos, velhos e cansados. Como se eu fosse alguém com três séculos de vida.

Me ajuda, São Pedro!

PS - E amanhã, cuidado para não votar duas vezes antes de pensar.