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PRECISO LIGAR PARA O FORTUNA

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o estado de s. paulo

05/09/94

 


Morreu o Fortuna. Logo agora que eu ia telefonar para ele?

Explico. Nos últimos quinze anos fui anotando os telefones de amigos em quatro cadernetas diferentes. Neste fim de semana, depois de muito adiar resolvi fazer uma só agenda, no computador. Pode ser um trabalho sistemático, mas é, também, ao mesmo tempo, triste. Várias pessoas já haviam morrido. Trinta e oito, para ser exato. A maioria, de AIDS.

E foi na cadernetinha mais velha, na mais antiga, na mais degringolada que estava o nome do Fortuna. Passei para o computador e pensei: "preciso ligar para o Fortuna". Não deu tempo. Acordei ontem com o telefonema do Caruso. O Fortuna morreu do coração.

Fazia tempo que eu não ligava para ele. O final do seu número era 1968. Que ano, Fortuna! Será que ele mudou de telefone?, pensava eu no computador. Não, não deve ter mudado. Se eu conheci uma pessoa que nunca mudou na vida, foi o Fortuna. Era politicamente imutável. Daquela velha e boa esquerda que não olha nem para o centro. Fortuna sempre esteve lá com seu traço pesado, sarcástico, demolidor. Pegava alguns meses de cadeia, mas saia cada vez com o traço e a cabeça melhores. Adorava rabiscar um militar.

O Fortuna, você já deve ter lido por aí, foi um dos fundadores do Pasquim há vinte e cinco anos atrás. Mas só vim a conhecê-lo em 79 quando, junto com o Tarso de Castro, tentamos recriar a revista Careta. Não deu certo. Mas gostei - e passei a admirar - aquele nordestino de fino humor que era apaixonado pelo Brasil.

Quando voltei de Portugal, há um ano e meio, o Fortuna conseguiu me achar num flat. Tinha publicado um livro, queria trocar pelo meu também recém-lançado. Trocamos telefonemas, chamei algumas vezes 1968 e tudo ficou na conversa. Nunca trocamos os nossos livros.

E sábado, juro Fortuna, ao passar o seu telefone para o computador, senti que estava em falta com você: "preciso ligar para o Fortuna".

Sei que a essa altura (do céu) você deve estar aí com o Tarso de Castro tomando umas e outras e fazendo Deus rir, desenhando anjos sem trombetas, santos pelados e fazendo alguma gozação com a Nossa Senhora, iconoclasta que era, com um sorrizinho de quem não quer nada.

Vou deixar o seu telefone na minha agenda, Fortuna. O coração te levou. Mas parte dele ficou aqui, imortalizado na imprensa brasileira, desde 1968.