Página anterior

Vamos continuar macacos

Próxima crônica

o estado de s. paulo

22/12/99

 


Quando Charles Darwin, inglês, fez 50 anos - e isso foi em 1859 -, escandalizou o mundo dizendo que a gente era macaco evoluído. Adão e Eva devem ter se virado no túmulo e o papa disse que a idéia não devia ser paparicada.

Com o tempo todo mundo foi aceitando a idéia da evolução. Ainda bem que a gente veio do macaco. Podia ser da vaca ou da baleia. Ou mesmo dos asnos, como alguns parecem mesmo ter vindo.

Acho que naquela época, os pensadores devem ter pensado: se essa teoria for mesmo verdade, estamos, portanto, em evolução. Vamos melhorar muito ainda.

Hoje, 150 anos depois, eu também achava que o homo sapiens (cuja tradução é óbvia) estava ainda em evolução. Que a gente, com o passar do tempo, ia continuar evoluindo. Até chegar a um ponto legal. Claro, achava que ainda estávamos - a maioria de nós - um tanto macacos. Mas, um dia, vamos chegar lá. No tal do sapiens.

Mas na minha cabeça a evolução parou neste ensolarado sábado, lendo um artigo de um ex-macaco, Jonathan Leake, do The Times, reproduzido aqui no Estadão. Veja o começo e evolua o seu pensamento comigo:

"Nós somos o melhor possível. A forma humana alcançou a perfeição evolucionária, segundo um dos mais respeitados geneticistas britânicos, e não há mais o que evoluir. Pesquisa do professor de genética Steve Jones, do University College de Londres, sugere que a teoria da evolução de Darwin não funciona mais na sociedade moderna.

A seleção natural - o processo descrito por Darwin em que a natureza favorece os mais adaptados à sociedade e elimina o restante - não se aplica aos dias atuais, diz ele, porque o fraco se reproduz tão eficientemente quanto o forte. "A evolução humana acabou, pelo menos no mundo ocidental desenvolvido", disse o professor na semana passada, em uma palestra na Royal Society of Medicine.

E mais pra frente, o evoluído professor inglês (como Darwin) afirma que "a coisa que mais desacelerou a evolução humana no mundo todo foi a bicicleta, porque significou que as pessoas não tiveram mais que buscar um parceiro na mesma vila".

Li isso no meu quarto, recostado na cama. Olho para a minha direita e fico observando a minha bicicleta ergométrica, ali, impávida, a culpada de tudo. E digo pra ela:

- Tá vendo o que você fez? O Hildebrando, o Naya, o Badan, a família inteira do PC (incluindo os empregados domésticos), a Pitéia, o Ricardo Teixeira, tudo culpa sua, sua ergométrica!

Ela não se abalou, fez que não era com ela. Também, coitada, há muito tempo deixou de ser ergométrica. Hoje em dia é usada como cabide e estante de livros. Aliás, destino de todas as ergométricas que eu conheço, depois de uma semana.

Então, vovó Maria, é isso aí. Não vamos mais evoluir. Chegamos ao máximo que o macaco podia. O que me leva a crer - baseado na teoria de que tudo (tudo!) que sobe desce - que, a partir de agora, só nos resta involuir. E a involução já anda por aí, à solta. Basta ler os jornais. Nem isso é preciso. Basta olhar em volta. Porque não dá mesmo para olhar em ida!

Lembra daquele filme, O Planeta dos Macacos? Um gênio, o cara que inventou aquela história. No futuro somos habitados por macacos, novamente. Só o Charlton Heston se salva, para desespero dos chimpanzés antropólogos e seus chefes gorilas. Bah!

Passei o sábado e o domingo aqui em Pasárgada, pensando nesse problema. Pensando em vocês aí em São Paulo, pensando no prefeito de vocês, na Câmara Municipal de vocês, nos asfaltos e nos assaltos daí. Sei que estou me repetindo, doutor Castanho. Sei, mas não resisto. Principalmente agora que sei que não vou evoluir mais.

Deixando os macacos de lado, leio sobre os tucanos. Já começaram a evolução deles. Segundo o Aurélio, os tucanos "alimentam-se de pequenos frutos, e não raro pilham ninhos de outras aves. São sociais, vivendo em pequenos bandos".

Notou que a palavra parlamentarismo anda evoluindo no bico dos tucanos? Quando aqueles pássaros disseram que iam ficar 20 anos no poder não estavam brincando, não.

Vende-se uma bicicleta ergométrica evoluidíssima!