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Minhas mulheres e meus homens

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o estado de s. paulo

28/07/99

 


Informe publicitário.

Antes que você pense - a partir do título - que se trata de revelações jamais assumidas, vou logo avisando que não é nada disso. É mais ou menos isso.

Um belo dia, estava eu olhando para a minha agenda telefônica, quando percebei que cada pessoa que estava ali, tinha uma história comigo. Amigos, amigas, companheiros, parentes, alguns famosos, certas gostosas, umas brilhantes, certos saudosos. Sim, alguns mortos. Não os tiro da minha agenda. Estão lá o Caio Fernando Abreu, o Samuel Wainer, o Tarso de Castro e muitos parentes anônimos.

Resumindo: verbetei minha agenda. Verbetei a minha turma. E, ao fazer, fui percebendo que estava contando a vida da minha geração. Mais ainda: a coisa começa lá nos meus avós, passa por Lins e termina na minha doce Ruth Cardoso que outro dia me disse ao cumprimentá-la:

- Ah bom, pensei que depois que tinha saído na Caras não conhecia mais a gente.

O livro, com o título acima e bancado pela editora Objetiva, estará nas livrarias e na sua casa a partir da semana que vem. Estou naquela fase - a pior do meu ofício - das entrevistas. Mas como modelo e atriz - perdão, jornalista e escritor - não me nego e nem nego nada.

E já está evidente que os colegas se interessam mais - muito mais - pelas minhas mulheres e meus homens famosos. Mas são nas histórias das crianças anônimas e de parentes que me fizeram, onde estão as melhores histórias.

E a sexualidade nossa de cada dia está lá. A culpa e a ignorância da minha e da sua família. A revolução dos anos 60. Minissaia e pílula na mesma década foi demais!

No livro, ao lado do Boni, do Chico Buarque ou da Maitê Proença, desfilam avós, pais, irmãos e filhos. Além da vizinha, do advogado e - é claro - do psicanalista.

A Élia, anônima e querida professora de patologia da USP (minha turma é meio eclética), verbetada, depois de ler os originais me mandou um e-mail:

- O mais importante de tudo: você revela também a alma das pessoas envolvidas, não só dos famosos, mas, de cada uma de nossas tias-avós, mães, pais, primas do interior e amigos de longa data, todos os nossos personagens e, por fim, de nós mesmos que estamos lendo.

Acho que a Élia acertou na mosca. É mesmo a família brasileira quem está lá, como disse a Isa Pessôa, da editora. Como a minha avó - que deve ter nascido na mesma época que a sua -, que enfrentou uma lua-de-mel achando que era o beijo que engravidava. Ela não difere em nada de tantas avós. E já velhinha, completamente esclerosada, não reconhecendo nem seus filhos e netos, descobriu o prazer solitário. Me confidenciou a enfermeira. Deixa!, eu disse, boquiaberto. Depois de uma vida anulada e abandonada sexualmente, ela percebeu que podia.

Quando eu descobri isso, aos 35 anos de idade, muita coisa mudou na minha vida. A minha avó, descobrindo o prazer do sexo, mesmo com mais de 80, me fez acreditar mais ainda na felicidade, na alegria.

Foi uma lição de vida que a minha avó me deu. O sexo existe até o fim da nossa vida. Passei a olhar os velhinhos e as velhinhas com outros olhos. Por mais que a geração da minha avó (e da sua) fosse reprimida sexual e socialmente, ela se virava. Na solidão da velhice, quando ninguém dava mais bola para elas, elas estavam lá, tendo o prazer de viver. Deus deve ter recebido minha avó (e a sua) de braços abertos. Uma mulher que morre feliz, de bem com a vida, merece o céu para compensar o inferno cheio de culpas que viveu aqui durante quase um século.

Quando comecei esta crônica pensava em contar umas histórias engraçadas. Daquelas pra vender a mercadoria mesmo. Mas, ao reler o e-mail da Élia, fiquei pensando nas nossas avós, nos nossos pais. Nos nossos filhos.

Me deu saudades da minha avó que já morreu há quase 20 anos. Logo ela, que nunca deu muita bola pra mim (naquela época criança era criada à parte), mas me deixou de herança uma cadeira e um toque: o prazer existe, meu filho. E, pra isso, não tem idade.