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Boni & Borjalo

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o estado de s. paulo

21/04/99

 


Eles são dois dos homens do meu novo livro Minhas Mulheres e Meus Homens.

Boni: Enquanto assistia aos cinco primeiros capítulos da minha novela Sem Lenço, sem Documento, no nono andar da Vênus Platinada, ele tomou uma injeção na bunda, cortou o cabelo e beliscou uns sanduíches. A novela era colorida, mas ele quis ver em preto-e-branco.

Naquela época, informava ele, mais de 80 por cento da população ainda assistia em preto-e-branco. Elogiou tudo: texto, direção, elenco, cenário e figurino. E me perguntou:

- Quantos capítulos você já escreveu?

- Estou no 34.

- Então, no 35, coloca o Walmor Chagas.

- A troco?

Ele alegava que só tinha homem feio. Contra-argumentei dizendo que tinha o Jonas Bloch e o Ivan Setta, eram bonitos, um novo tipo de beleza.

- Ah, é? (apertou o interfone). Dona Ruth, manda aqui pra minha sala todas as secretárias do oitavo, do nono e do décimo andar. E as cozinheiras, também.

Colocou um capítulo em que os dois atores contracenavam. As secretárias foram chegando, todas temerosas. Imagine, ser chamada na sala do seu Boni. Tinha umas 15.

Ele disse:

- Olhem essa cena. Algum desses atores mexem, digamos, com a libido de vocês?

É, ninguém tinha se entusiasmado com os meus galãs. São ótimos atores, diziam, mas.

Teimoso, deixei o Walmor de lado.

Uns 15 dias depois, estréia a novela. Minha mãe liga lá de Lins, antes mesmo das cenas do próximo capítulo.

- Tá linda, meu filho. Meus parabéns. Mas, olha, posso dar um palpite?

Coloca um homem bonito, meu filho. Só tem homem feio.

A novela foi em frente, capengando entre o Ibope e os homens feios.

Quando faltavam - para escrever - 20 capítulos, o Boni me chama.

- Seguinte: a novela tá dando 65, em média. Quero que a média desses 20 capítulos que faltam seja 75. Pra passar a bola pru Cassiano (que estava escrevendo a próxima) lá em cima. Se você conseguir isso, te dou o que você quiser. O que você quer? Pode pedir. Terminar com 75.

Pensei e disse:

- Duas passagens ida e volta para Tóquio. Ida por Paris, volta por São Francisco e, além da passagem e do hotel, uma boa grana pra gastar.

Ele escreveu isso tudo num papel, como se fosse um vale. Assinou embaixo.

Fui pra casa e fiquei pensando em como aumentar o Ibope. A atriz mais amada e mais odiada da novela era a Bruna Lombardi. A coisa tinha de ser por ali.

Dei um tiro no peito da Bruna que virou capa da Amiga. O Ibope pulou 15 pontos, ele me informou, entusiasmado, pelo telefone.

- A Bruna vai ficar até o fim da novela nesse morre-não-morre, né?

- Não, sai do hospital amanhã. Desculpa, cara, não sei enrolar.

- Pois não vai conhecer Tóquio tão cedo!

Vinte e um anos depois, ainda não fui a Tóquio.

Borjalo: Ele era diretor de Programação da Globo.

Na parede da sua sala uma moldura com um cartum dele, genial. Um sujeito derrubando uma árvore com um machado. No cabo de madeira do machado, nascendo, uma folha.

Eu ainda estava fazendo a sinópse da novela Estúpido Cupido que ia substituir Anjo Mau, do Cassiano. Eu sabia quem era o meu público no teatro, de onde vinha, mas televisão?

Entro na sala dessa simpatia mineira e pergunto:

- Pra quem que é que eu vou escrever?

E ele, brilhante:

- Sabe essa novela que está acabando? A Nice, feita pela Suzana Viera, a babá, morreu. Mil reclamações. Aí fizemos um Globo Repórter sobre o acontecimento, disse rindo. Entrevistamos a atriz, o autor, público, populares, aquela coisa de sempre. Pois bem, eu fui um dos entrevistados. E quando o programa foi ao ar, eu estava jantando na minha casa. Na hora que eu fui falar, ficou todo mundo em silêncio, até a nossa empregada, que servia, estática ficou, atenta. E eu disse que a Nice não devia morrer. No que a empregada olhou bem para a minha cara e, com a maior seriedade, definiu:

- Doutor Borjalo, o senhor vai me desculpar, mas a Nice tinha de morrer, sim senhor. Sabe por causa, por causa de que até hoje ela não pagou o que fez em Escalada!

(Escalada, do Lauro César Muniz, tinha passado havia três anos, e a atriz Suzana Vieira devia ter aprontado alguma lá) .

- Pois é, Prata, entendeu qual é o público?

- Entendi.