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Não se fazem mais apelidos como antigamente

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o estado de s. paulo

24/02/98

 


Já notou isso? Veja, por exemplo, a seleção de 58: Zito, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé, Pepe, Dida, Mazola. Sem falar no Canhoteiro que se machucou e chamaram o luso Zagallo.

Minha adolescência em Lins era rodeada de apelidos. Além de Didi, Vavá, Bebé, simples mexidelas nos nomes, havia uns inesquecíveis.

Outro dia me reencontrei com o Açucareiro. Por causa das orelhas de abano. Matthew Shirts, brasilianista, estava junto. Disse que nunca viu nada mais notável. Desde pequeno que ele é Açucareiro. Hoje, um açucareiro mais velho, mais usado, mas sempre o meu querido Açucareiro.

O Amarelo cresceu, o cabelo escureceu e virou Carlos Augusto mesmo.

Mas o Anta continua mais anta do que nunca. Nada a ver com razão que a própria inteligência desconhece. Mas que ele tem corpo de anta tem.

Era um mecânico genial. Inventou aquela antena de carro que sobe sozinha. Veio para São Paulo para patentear. Na frente de um hotel, um carro americano com a tal antena. Pirou. Virou Antena.

O Bisurdo, que só fazia coisas absurdas. Ainda na letra b, o Boi, o Bolinha e o Bola Sete. E o Bolsão, louco meio nervoso que catava tudo na rua e colocava no bolso. E ai de quem o chamasse de Bolsão. Já morreu, louco. E tinha um padre que, sei lá por que, era o Bosteiro. Que implicava muito com o Burguês, hoje remediado.

O Cabelinho tinha um topete. Hoje, mais de 50, quase careca, mas o topete firme. O Cabelinho era amigo do Canário, loiro que nunca cantou. E aquele magro que fazia, por correspondência, os exercícios do Charles Atlas, virou Charles pra sempre.

E o Chato Grande, que fazia jus ao nome. O maior inimigo do Chato Grande era o Pato. O Chato Grande não deixava o Pato namorar a irmã dele. Uma madrugada o Pato encheu a cidade com dizeres: "A cem metros, Chato Grande", "A vinte metros, Chato Grande" e, no muro da casa, "Aqui, Chato Grande". Chato Grande mandou pintar tudo. No dia seguinte: "Aqui, breve, Chato Grande". E, cá entre nós, o Chato Grande não era nem chato, nem grande. Mas era respeitado. Um dia o Gutão foi pedir licença para ele e, cheio de medos: "Com licença, seu Chato?"

Tinha aquele manco de nascença. Coitado, era o Dá-Pé-Não-Dá-Pé, vulgo Dapé. O Fenemê desde pequeno, pois era um touro. E tinha outro padre, grande, forte. Era o Jipão.

Tinha duas biscates na cidade. Moças que davam. Eram horrorosas, as duas. Seus nomes: Beleza e Lindeza. E por falar em mulher bonita, tinha a minha querida Luluzinha, miss Lins, miss São Paulo e miss Brasil, minha primeira namorada e hoje sai nas colunas com o nome de Maria Lucia Segall e continua linda, charmosa e cativante.

Era forte, muito forte, o Mato-Grosso. Já o Carioca era bicha.

Tinha uma família rica que adotou um crioulinho (hoje famoso cirurgião). O apelido dele era Meia-Noite, vulgo Meia. Aí veio um outro crioulo para estudar odontologia. Mais clarinho. Era o Quinze-Pra-Meia-Noite, vulgo Quinze. E não é que, depois, ainda apareceu o Onze-e-Meia, popular Onze?

Meu querido dentista Junqueira, sempre foi e sempre será o Minduim.

Cara dum, molar do outro.

O Augusto veio do Mato Grosso e tinha as pernas arqueadas. Virou Muntinvaca. Atendia por Munti. A tia da namorada dele não tinha pescoço. Era uma moça muito simpática e dançarina a Nem-te-Ligo.

Magro, muito magro, o Palito.

Baixo, muito baixo, o Pouca-Sombra.

Feio, muito feio, o Quase-Lindo.

Bicha, muito bicha, o Quase-Homem.

O japonês que vendia coxinha na porta do Salesiano era o Sam. E o baiano que vendia sorvete, o Siri.

Tinha aquele garoto que pedia tudo para todo mundo. Pedir era sinônimo de serrar. E ele era o Serrote. Que andava com o Sagüi, por motivos óbvios. Tinha aquele que nunca entendeu nada da Revolução Russa, mas era o Stalín, com acento no i. Companheiro do Tampa, baixinho que veio para São Paulo e virar Jacaré.

Jogava vôlei muito bem o Tapioca.

E tinha um garoto com cara de velho, o Velho.

E o Visgo?, uma espécie de Madame Satã de Lins. Violentíssimo, brigava por nada, só para ser preso e passar uns dias na cadeia. Seu lema: não bate que eu gamo!

O meu apelido? Um desses aí de cima.