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Ah, vovó Maria!

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o estado de s. paulo

17/02/99

 


Nosso caso já tem uns três ou quatro anos. Tudo começou quando ela me mandou uma carta de fã ardorosa destas minhas bobagens de quarta-feira e da minha boca de todos os dias. Dizia que os meus lábios eram demais.

E mais: que tinha 80 e poucos anos. Sei quanto ela tem, mas não vou entregar. E mandou, de quebra, umas piadas que eu, aliás, publiquei aqui.

Ela continuou a me escrever, sempre para a redação. Escreve bem, a danadinha. Aí me contou que tinha perdido um filho que deveria estar hoje mais ou menos com a minha idade. E que queria me adotar. Primeiro, como filho. Depois, resolveu que eu ia ser neto dela.

Como, na época, eu estava mesmo sem nenhuma avó, aceitei. Há muito que Quita e Fiíca haviam partido, assustadas com minhas estripulias de adolescente. Não se rejeita uma avó que cai assim do céu.

Sempre que ela escrevia eu citava, de uma maneira ou de outra, aqui na crônica, a palavra mágica "vovó Maria". Era o nosso tácito pacto. Ela sabia, e somente ela entendia, que eu estava no pedaço.

Uma vez me mandou meias de lã. Era inverno. Meias tricotadas por ela. Cinzas. Achava que o cano tinha ficado curto, dizia na cartinha. E tinha. Mas eu fiquei na minha. Dormi um bom inverno com as meias dela. Curtas, mas que saíram desse amor dela, que só me envaidece.

Depois deu para bordar lenços com as iniciais MP. Nunca soube se era Mario Prata ou medida provisória. Sim, as medidas das avós são sempre provisórias. As definitivas sempre ficam por conta dos pais. Avó deixa tudo.

Uma época ela sumiu. Meses. Achei que tinha morrido. Fiquei na minha.

De repente, chega uma carta, como sempre com a letra firme: "Acharam que eu ia morrer e me deixaram na UTI meses. Olha eu aqui de novo."

Agora, sabendo que eu ia passar o carnaval na Bahia, me escreveu e deu conselhos de avó. Me mandou até uma bonequinha linda, uma baiana com todos aqueles balangandãs. Mas a senhora não sabe da maior, vovó Maria.

A senhora acredita que o prefeito de Salvador, que atende pelo nome de Imbassahy, aquele que me convidou pelo telefone, depois se esqueceu de mim? Embassou (com dois esses, como Imbassahy). Será que ele se esqueceu de mim, ou será que baiano é assim mesmo? Fiquei aqui, esperando, feito mineiro que sou.

Acabei ficando aqui em São Paulo. Tudo bem, adoro esta cidade nos feriados. Ficar andando de carro pra cima e pra baixo, ouvindo os Beatles. Não há nada mais maravilhoso do que atravessar toda a Avenida Paulista, de noite, com chuva, ouvindo Yellow Submarine. É uma viagem concreta, de concreto e muita inspiração. Pois eu estava agora mesmo fazendo isso e pensando na vovó Maria de quem só conheço a letra, mas posso imaginar a música.

Pra parecer mais ainda um conto de fadas, mora em Piedade, interior de São Paulo, a danada. Mas, de vez em quando, manda correspondência de Catanduva, onde mora uma das suas filhas, tia minha, portanto.

Não sei o que a vovó Maria anda pensando lá no alto da sua Piedade sobre o Brasil de hoje. Será que quando o presidente diz que está tudo bem, ela, como eu, pensa: ou é doido ou tá mentindo? Como a gente sabe que ele não é doido, né, vovó Maria?, ele tá mesmo é enrolando a gente.

No fundo é um bom homem, né, vó? Tá certo que aquela tal de Avenida Paulista hoje só tem banco estrangeiro. Fazer o que, né mesmo?

Pois eu estava lá na Paulista ouvindo o Yellow Submarine e pensando na Tiazinha que me sorria de todas as capas de revistas semanais, mensais e anuais (literalmente). Por que a Tiazinha também não me escreve e me adota como sobrinho? É tudo o que eu estou precisando, vovó Maria. Uma Tiazinha com um plantãozinho semanal. E que não se esqueça do chicote, do chiclete e do decote.

Talvez com essa declaração pública, a vovó Maria venha a ralhar comigo e peça para eu não bulir com certas coisas.

O que eu quero dizer é que é maravilhoso ter entre as minha leitoras uma vovó Maria, de 80 e tantos e, ao mesmo tempo, aquelas adolescentes que fizeram uma home page minha (www.geocities.com/Paris/Cafe/2663), que são, cá entre nós "sobrinhas".

Só que, até hoje eu não entendi nem o café, nem Paris. Delas eu só entendo o carinho.

Bença, vó!