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Modelo e atriz

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o estado de s. paulo

14/10/98

 


Imagem da editoria ou anuncio Ela não anda. Desfila. Não que queira, force. Ela é assim. Gazela, embora eu nunca tenha visto uma gazela de perto. Nem de longe. Existem gazelas no Brasil, além das modelos-e-atrizes? Suas pernas são longas, mas o passo é curto, já notou?

Estou a notar agora. Impossível não seguir com o rabo (e o resto) do olho aquele deslisar matinal. O maiô é branco, como convém a ela.

Cavado, como convém a mim. O andar é calmo e ela sabe que olham. Sem o empurro do olhar ela não seria modelo-e-atriz. Se ninguém a vê, pra que, ao passar pela borda da piscina, colocou o pezinho lá dentro e se deu uma arrepiadinha? Nela e em mim.

Tem alguma coisa na cabeça dela, além da tiara preta. Tem alguma idéia rondando por ali. Percebe-se que ela está se preparando para alguma coisa. Há uma certa ansiedade nos seus gestos.

Do lado de cá da piscina fico a pensar bobagens. Bobagens maravilhosas, é claro. O que será que se passa na cabeça dela? Claro que ela me viu. Somos três, por aqui. Tem a amiga dela, dentro da água.

Pega a toalha e chacoalha no ar. Estende na esteira de plástico branco. No estender, dobrou o corpo num ângulo reto. Mas não era nada reta a visão que eu tive aqui do outro lado. Do meu ponto de vista, parecia ser apenas um belíssimo par de pernas que se transformavam naquele glúteo em primeiro plano, em close e em cores: bronzeado com salpicos de gotas de água.

Sentou-se. Dobrou as pernas. Melhor, apenas uma, a direita. Um pão de açúcar, um supermercado de carnes e pele a céu aberto.

Ajeitou a mesinha ao lado. Um maço de cigarros, um Zippo, uma tônica com gelo e limão. E, claro, ele, o celular. Com as duas mãos alisou a toalha. Abriu a bolsa e tirou uma revista, feliz. A modelo-e-atriz vai ler.

Forço (ainda mais) a vista. Dá para ler contigo! Tem uma exclamação no título. Contigo! Como ela está feliz na sua leitura. Fica mais bonita, meio com jeito de criança comendo chocolate escondida.

Não folheia, não. Lê mesmo, leva a sério, dobra página a página. Deve estar lendo coisas maravilhosas. Sua boca diz isso em intrigante silêncio. Seus olhos correm as páginas como quem viaja pelo corpo do homem amado.

- Marcinha, você não vai acreditar. Vai ter concurso para Tiozinho.

Pronto, eu já tenho um assunto a tratar com ela. É só chegar, cheio de intimidade intelectual e jogar:

- Quem é que vai ganhar para Tiozinho?

Isso é arriscado, porque eu não tenho a menor idéia do que seja Tiozinho.

Tenho de me informar melhor.

Tiazinha é uma gostosa (modelo e atriz?) que arranca pêlos de homem, com uma máscara, na televisão brasileira. Verdade. E agora vão criar um Tiozinho para arrancar pêlo das mulheres. Acho que eu daria um ótimo Tiozinho, meio pra tio-avô, mas estamos aí.

O celular já tocou cinco vezes. Fez caras e bocas para todos que estavam do lado de lá. Ela não sai da personagem, mesmo que ninguém esteja olhando para ela. Mas ela sabe que eu estou olhando.

Portanto, ela está representando para mim. Só para mim. Já é alguma coisa. Sou uma platéia inteira. Privilegiada. E nem paguei ingresso.

Disfarço pegando o Saramago na mesinha. Mas a Contigo! deve estar muito melhor. Tem o parto daquela modelo-e-atriz que o marido levou um tiro. Tem a separação daquele entrevistador famoso, tem fotos íntimas da casa daquela atriz que começou como modelo-e-atriz.

É isso: pra entrar na dela, tenho de entrar no mundo dela.

- Pra ficar com você vou ler Contigo!

- Vai ler o que, comigo?

Não vai ser por aí. Voltaria de cabeça baixa, me xingando de idiota, incompetente. O pior que ela vai se demorar ali. Não virou nem cinco páginas, ainda. Aquilo vai longe. Agora, o tema é a criança esperança.

- Dá pra colaborar pelo celular?

- Dá!!!

Gritei de cá. Ela dignou-se a virar o rosto levemente, como se sentisse a minha presença só agora. E me olhou.

Eu não sabia que tipo de sorriso usar. Usei o amarelo. Ela abaixou suavemente o rosto a me agradecer e pegou o celular para colaborar.

E eu, eu fiquei olhando feito uma criança esperança louco por um donativo. Mesmo que fosse pelo celular. Que dá, dá.

Acordo sentado na sala com a minha namorada me cutucando e pegando o Zaramago no meu colo:

- Acabou?