Segunda, 4 da
tarde, entro
em
casa,
meu
filho:
- O Caderno 2 ligou dizendo que a crônica ainda não
chegou! O contador ligou dizendo que amanhã é o último dia para pagar os
impostos. O Jaiminho, do computador, ligou dizendo que vai mandar um
cara aqui até as 7 horas! O Cachorrão ligou, quer saber se é para passar
aqui! A Tuca, do Sesc Pinheiros, pediu para você ligar! Ligou um cara do
Jornal da Tarde querendo uma entrevista sobre o sarau! A Marlene, da
Fórmula, ligou dizendo que a matrícula da Maria tá tudo em cima! Ligaram
do Spa, não sei quem, vai casar! A Maria quer saber o número do telefone
do dentista! A Marjoria quer saber se você vai à festa de 2 anos do
Buttina. Vai ser às 7 e meia. A secretária do deputado Cesar Calegari
ligou dizendo que a reunião vai ser hoje na Cervejaria Continental. A
partir das 7. Depois ligou o contador de novo. Meu computador travou,
não tá dando para salvar como. A empregada não veio. O que que é isso
aí, sorvete? Vou sair, tem 30 pau aí? Ah, o desentupidor vem amanhã cedo
e vai faltar água depois das 6.
- Chega!!!
Ligo para o Caderno 2.
- Mas não é terça cedo a data máxima para entregar?
- É que a gente, agora, prepara na segunda.
- Ah!
Prepara. Tá vendo, eu escrevo isso aqui e lá no jornal,
eles preparam.
Preparar a crônica, pode? Como se fosse uma comida, para
servir depois.
Consiste mais ou menos em colocar ela aqui neste espaço e
depois ligar para mim.
- Tá pequena, Mario Prata. Dá para escrever mais uns mil
toques?
Ou:
- Tá grande, Mario Prata (mania de me chamar assim)! Dá
para cortar uns 800 toques?
Aí, quando ela já está no tamanho, vem uma revisão. Por
exemplo, lá atrás tá escrito colocar ela. Antigamente iriam corrigir,
como se eu e você não soubéssemos. Briguei muito. Já consigo fazer os
chamados erros em paz. Acho que macho não coloca-a, macho coloca ela.
A preparação prossegue com a revisão das vírgulas. Odeio
que mexam nas minhas vírgulas. Sei que tem regras para as vírgulas.
- É que o sujeito está antes.
- Que sujeito, menina? O sujeito, no caso, sou eu. Coloco
a vírgula onde eu quiser. Não mexa nas minhas vírgulas, vírgula,
Glorinha!
Essas pessoas, as que preparam, que têm o pomposo nome de
copydesk, adoram mexer nas vírgulas dos outros. Quero ver o que a
Glorinha vai pensar quando começarem a mexer nas vírgulas dela, vírgula,
pô!
A vírgula, Glorinha, é mais importante que todos os sinais
gráficos.
Muito, mas muito mesmo; mais importante que o ponto final.
O ponto final não tem a menor personalidade. Pode ser ponto final, pode
ser interrogação, pode ser exclamação e, o mais ridículo para um ponto
final, pode ser até três pontinhos... Não gosto de três pontinhos. Acho
que são sempre maliciosos, cheios de segundas intenções.
Mas a vírgula, não. A vírgula é a respiração do escritor
e, conseqüentemente, do leitor. Imagine se esse conseqüentemente não
estivesse entre duas firmes vírgulas. Um texto sem vírgula pode matar
pessoas de sufoco, de falta de ar. Sempre que escrevo, penso na sua
respiração. Na sua, que está me lendo e quase ouvindo. Percebeu como
você está lendo, tranqüilamente? Esse é o mundo de besteira que eu
escrevo para a outra preparar, enquanto penso no contador, na falta de
água, na empregada, no dentista, no Sesc Pinheiros, no Spa São Pedro, na
ginástica da Fórmula e na vírgula e nos 30 pau (sem o plural, Glorinha)
do meu filho.
E já que estão faltando ainda uns 500 toques e algumas
vírgulas, vou ao Aurélio:
1. V. sinal de pontuação.
2. Palavra que se emprega para fazer uma objeção ou
restrição, ou um comentário malicioso, picante, às palavras de outrem:
"É um sujeito sério. Sério, vírgula!" "O pequeno foi passear com sua
mãe. Sua mãe, vírgula." (Vergílio Godinho, Não Há nada mais Simples).
3. Bras. Pequena mecha de cabelo recurvada, grudada à
testa ou às faces, junto às orelhas; monete: "Vestida de vermelho e
branco, os seios fortes explodindo do decote em V. duas vírgulas de cada
lado do rosto" (Marisa Raja Gabaglia, Milho pra Galinha, Mariquinha).
Já deu, Glorinha? Ou já deu Glorinha, sem vírgula? Notaram
a sutil diferença?
PS - Um leitor me liga perguntando se eu não vou escrever
nada sobre a vírgula da Rússia, perdão, sobre a crise da Rússia. Vou,
não.