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Pra quem fica, tchau

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o estado de s. paulo

15/12/99

 


Em fevereiro iria fazer 34 anos que eu me mudei para São Paulo. Mas eu não vou mais estar morando aqui. Você, minha leitora única, fica tranqüila, que eu vou continuar aqui neste espaço terrestre.

Quando eu cheguei aqui, há 33 anos, as ruas eram lisas e havia uma uniformidade nas calçadas. Calçadas essas por onde, toda noite - passeava-se ao luar ou à garoa. Puxando os filhos pequenos.

Quando eu cheguei aqui, o prefeito da cidade não era o contador da firma de um turco (com todo o carinho aos demais turcos), nem a primeira-dama ia estudar inglês (com aquela idade) nos Estados Unidos e reunia a imprensa para mandar avisar - a quem interessar possa - que estava disponível.

Naquele tempo, já dizia Jesus aos seus discípulos, quando havia uma chacina na cidade, dava manchete de primeira página. Hoje, matam cinco, seis, oito pessoas todos os dias num boteco qualquer e saem seis linhas no caderno Cidades. Mas também, naquele tempo, o caderno Cidades era sobre a cidade. Hoje é policial. Mudou o caderno ou a cidade? O paulistano que hoje aparece nos jornais da Cidade são corruptos, assassinos. Pega mal sair no caderno Cidades.

Naquele tempo, quando o eterno fio do ônibus elétrico desenroscava e o cobrador descia com aquela varinha para arrumar, os motoristas não ficavam buzinando atrás. Contemplava-se, como diria minha querida Marjorie Gueller.

Naquele tempo, ao andar pelo passeio havia uma unidade entre a casa ou prédio e a calçada. Hoje, para o lado que você olhar, vê grades. E verdes, ainda por cima! O paulistano, na rua, está enjaulado. E, dentro de casa, é assaltado.

Naquele tempo, quando o campeonato era de dois turnos, jogo cá e jogo lá, pontos perdidos corridos, todo mundo podia ir ao futebol. Não havia torcida organizada.

Naquele tempo eu não era ranzinza e sem humor, como venho sendo nas últimas crônicas, reclama a minha única leitora.

Ficar na fila, não era problema. Primeiro porque a coisa era rápida. E as pessoas aproveitavam para trocar idéias, levar um papo. Observe hoje a cara das pessoas numa fila - de supermercado, por exemplo. Dá a impressão que vão entrar na câmara de gás. Ninguém conhece ninguém. E nem quer. É assim que se convive quando se sai de casa. Todo mundo de cara fechada. Tenso!

Dava para comer fora todo fim de semana. Um casal não gastava - nunca - um salário mínimo para comer uma massa e tomar um bom vinho.

Naquele termpo, já dizia Prestes Maia aos seus discípulos: a rua é do povo. Hoje, estes anos todos depois, a rua é de algumas quadrilhas. Você vai ao teatro, o malandro encosta e diz o preço do seu falso sossego: 20 pau, doutor! E você sabe que ele sabe que você sabe que ele não vai ficar ali. Eles têm até sindicato. Sindicato, vovó Maria!

Não existia alarme para carro. Juro. Os prédios não tinham guarita com sentinelas armados. Tinha mictórios (que palavra!) limpos - da prefeitura - pra gente mictar.

Tinha uma Câmara dos vereadores que cuidava da cidade e não a dividia como uma máfia para extorquir dinheiro de camelôs. Pode ser uma cidade mais pobre do que uma onde os representantes da população extorquem camelôs? Isso é civilizado? Quinto Mundo?

Estou me segurando para não falar do asfalto-corcunda-de-Notre-Dame. E se você pensa que a coisa vai melhorar, fiquei sabendo que 42% dos paulistanos vão votar no mesmo vereador nas próximas eleições. Isso me leva a crer que, se tudo der certo, daqui a 20 anos a coisa vai começar a melhorar, mesmo que o prefeito seja o Juscelino.

Uma cidade, onde as crianças são ensinadas - ainda no berço - a não reagirem. Não foi isso que eu e você ensinamos aos nossos filhos? Não reaja e, se possível, não chame a polícia.

Ontem, por exemplo, tinha uns policiais batendo num daqueles garotos de programa do Trianon. Precisa bater na calçada e deixar o menino sangrando e chorando daquele jeito? Acho uma sacanagem - literalmente - aqueles garotos se prostituindo. Mas precisa arrebentar o nariz do marginal daquele jeito? Três viaturas? E, na esquina de baixo, dois carros colidiram. Um estava quase matando o outro. A mulher dizia, dentro do carro: cuidado que ele pode estar armado.

Esse foi o meu cotidiano chegando em casa para dormir e descansar. E isso nos Jardins, lugar de gente bem, etc. O Pitta, por exemplo, que faz parte do et cetera, mora na minha rua. Cheio de seguranças. Pra segurança dele e da disponível, e insegurança minha.

Vou-me embora pra Pasárgada!