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PRA LÁ DE MARAKESCH

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o estado de s. paulo

08/05/96

 


Na noite anterior havia trabalho feito um mouro.

Acordei e estava um verdadeiro calor senegalesco. Depois de tomar uma boa duma ducha escocesa, quase dormitar num banho turco, fazer a minha ginástica sueca, passar a minha água de colônia, vesti meu terno azul turquesa de casimira inglesa (que fora um presente de grego de uma amante argentina), cuidei do meu pastor alemão, do pequinês, do dinamarquês, do meu gato siamês e, com uma pontualidade britânica, deslizando sobre o tapete persa, sai para fazer um negócio da china.

Logo voltei. Deveria ter saído com a minha refrescante bermuda, minhas sandálias hawaianas e o autêntico chapéu panamá. Evitaria o calor, aquela tortura chinesa que só um bom sorvete de creme holandês refrescaria.

Ou teria sido melhor o terno príncipe de gales, para evitar uma gripe espanhola ou uma febre asiática? A polaca gostaria mais.

Foi bom ter voltado. Meu periquito australiano e o meu canário belga, famintos, pediam semente de maconha colombiana. E minha galinha de angola, o resto da linguiça calabresa, resquício de um sanduiche americano com um pouco de salada russa e molho inglês, cortado com o meu afiado canivete suiço. Hamburguer, nem pensar, que é para inglês ver.

Acabei me atrasando, chupei uma mexerica (ou era uma tangerina ou, ainda, uma bergamota?). Brinquei de sombra chinesa e quase dormi.

Para acordar, ligo a televisão, vejo um pouco do esporte bretão, descasco uma lima da pérsia, fico em dúvida entre o pão sírio e o pão francês, conto até dez em algarismos romanos e depois em algarismos arábicos e resolvo fazer um filé à parmegiana. Abro a janela veneziana, preparo um uísque paraguaio e ali, numa autêntica noite americana, tal e qual um tigre asiático, dou um sorriso amarelo, brinco com o porquinho da índia de porcelana inglesa e me sirvo à francesa.

Depois, balanço na poltrona de cana da índia com a cuba libre. Mas, como o pato vai ser à califórnia, com pimenta malagueta ou pimenta-do-reino, misturado com arroz marroquino (ou à grega?), preparo a milanesa e tudo bem. Vai cravo da índia? Será que o melhor mesmo não seria um filé à cubana, para depois enfrentar uma montanha russa, arrotando couve de bruxelas?

Com a chave inglesa abro a porta emperrada, levo no bolso o meu soco igualmente inglês e saio ao encontro da minha cidade, do meu brasil paraguaio.

Coisa de primeiro mundo.

PS - Segundo pesquisa rápida, na França não existe nada parecido com o nosso pão francês;

nenhum americano jamais comeu um sanduiche americano;

as saladas russas não têm nada a ver com a nossa salada russa;

o calor diminuiu muito no Senegal;

em Parma não se faz filé à parmegiana;

as janelas de Veneza não são nada venezianas;

na Suécia não se faz ginástica como aqui;

a linguiça da Calábria é totalmente diferente;

os ingleses não estão mais pontuais assim;

não se fazem mais bons negócios na China;

o pessoal do Panamá deixou de usar chapéu há muito tempo;não se vende mais couve em Bruxelas;

na revolução, comeram todas as 117 galinhas de Angola;

ultimamente, o príncipe de Gales anda de saia;

na França entra-se à francesa e serve-se à brasileira;

nunca vi mexerica nem em Tanger e nem em Bérgamo;

não existe mais gripe na Espanha e nem febre na Ásia;

Cuba não está assim tão livre e filé à cubana é um sonho do passado e não dá mais para enfrentar uma amante argentina nem com uísque paraguaio.