Os cinco irmãos Machado de Rezende estavam no bar do velho e bom Hotel
Umuarama, no centro de Ribeirão Preto.
- Pessoal, vou ser curto e grosso. O papai me confessou
que matou a mamãe!
Dona Nenzica, a mãe, morreu, aos 81 anos, como um
passarinho, disse a Babá, preta velha, empregada da família há mais de
cinqüenta anos. Como um passarinho, aparentemente. Seu coração parou
quando dormia ao lado de seu marido Pretestato Machado de Rezende, mais
conhecido como Tato Rezende, médico aposentado, fazendeiro,
latifundiário, industrial, político, rotariano, cursilhista de primeira,
mulherengo de segunda e grande benemérito da cidade de Ribeirão Preto,
na região paulista denominada "Califórnia Brasileira".
O velório, estranhamente encravado no Horto da cidade foi,
no mínimo, concorrido e badalado. Tato Rezende ainda tinha suas
influências na política e na economia da cidade e região. Seu filho
Tatinho também. Sua filha Mariella (Miss Ribeirão Preto em 1969, segundo
no Miss São Paulo, perdendo apenas para a hoje senhora Oscar Klabin
Segall) também. E foi lá no velório, poucas horas antes do enterro de
Dona Nenzica, que Tato confidenciou num canto, tomando cafezinho, do
alto dos seus 85 anos, ao seu filho caçula, o temporão Thales, de 40
anos:
- Eu matei a sua mãe!
Thales, o predileto de Tato Rezende, havia chegado há
menos de uma hora de Miami onde morava com a família e vendia, com
sucesso, o suco de laranja produzido pelas indústrias do pai, o
Laranjato. Olhou nos olhos vermelhos do pai agora viúvo, sentiu o seu
hálito já amargado com algumas doses de Gin, fez que não ouviu aquela
barbaridade. Mas o pai aproximou-se mais, e no seu ouvido, complementou,
com a velha experiência de médico de interior:
- Apliquei nela uma injeção de potássio na veia!
E ainda teve a coragem de cometer um trocadilho ridículo,
num ambiente tão fúnebre:
- Potássio na véia!
Aos outros filhos Tato Rezende jamais confessaria o
hediondo crime. Pelo menos naquele momento. Se é que houve mesmo um
crime. Tato já andava com sinais de esclerose há alguns anos. Thales
sabia disso. Comentaria com os irmãos? Tatinho, o irmão mais velho, de
60 anos, não falava com o pai há mais de vinte anos, quando disputaram,
na mesma eleição, uma vaga de deputado federal. O pai pelo MDB e o filho
pela Arena. Tatinho já está no seu quinto mandato (atualmente, assessora
o ministro das Comunicações Sérgio Motta) licenciando-se apenas uma vez,
quando foi prefeito de Ribeirão Preto, no começo dos anos 80. Se Tatinho
estava ali era em consideração à mãe, de quem sempre fora protegido.
Tatinho, convencido que o coração da mãe parara porque
cansara, conversava num canto com a Vera Lucia, sua irmã e psicóloga,
hoje envolvida no tratamento de aidéticos na capital paulista. O
terceiro dos cinco irmãos, Geraldo Magela, 49 anos, o deu-pra-nada da
família, alcoólatra famoso na cidade, protagonista de tantas e tantas
etílicas brigas no bar Pinguim, bebericava o que achara por ali: uma
garrafa de álcool, atrás de uma árvore. Mariella, a de número quatro,
aos 45 anos, era quem cuidava de toda a fortuna dos Machado Rezende,
avaliada em mais de quinhentos milhões de dólares, com punhos de aço.
Agora era ela quem separava as flores, pagava a conta, organizava a
saída do corpo de dona Nenzica para o cemitério, onde haveria missa de
corpo presente. Mariella, conhecida nas altas rodas de Ribeirão como
Miss Laranja, não poderia, jamais, imaginar que o seu pai e ídolo,
pudesse ter matado a mãe.
É o que Thales pensava, olhando os irmãos que há muito
tempo não se entendiam mais. Somente a morte para os unir. Conseguiu
afastar Geraldo Magela que tentava, absurdamente, segurar numa das alças
do caixão, completamente trôpego.
A missa era em latim, como sempre pedira dona Nenzica,
diretora durante anos de entidades filantrópicas da cidade, presidente
de honra da Associação Assistencial Santa Rita de Cássia, primeira-dama
da cidade durante três prefeituras do seu marido e organizadora, durante
uns trinta anos, do Baile de Debutantes da Recreativa. Thales vê seu pai
saindo da capela e vai atrás dele, tropeçando no latim do padre Zavataro,
eterno e paciente confessor do pai e da mãe. Lá fora, pai abraça filho:
- Eu não agüentava mais, meu filho! Você sabe como eu
estava sofrendo. Era ela ou eu...
- Pai, eu não acredito nesta história absurda.
- Não houve autópsia. Eu sabia que não ia ter autópsia.
Afinal, meu filho, eu dei aula na Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto durante trinta anos. Ninguém ia desconfiar de mim. Como vão as
coisas em Miami?
Tirou um lenço, assoou o nariz.
- Pai: em primeiro lugar eu não acredito nisso. Em
segundo, pára de falar besteira, nem que seja só para mim. E vamos
entrar que a missa ainda não acabou.
(Os leitores poderão estar a se perguntar como é que eu me
inteirei de toda essa história. Acontece que eu estava hospedado, na
semana passada, no Umuarama Hotel e aconteceu uma reunião familiar no
bar do hotel. Quando eu percebi que a história era boa, liguei o meu
gravadorzinho e o que se segue, é o diálogo, mais ou menos condensado,
do que se passou na mesa atrás de mim).
THALES, o caçula - (visivelmente emocionado e quase
didático) Apesar de todas as desavenças que existem entre nós, somos
todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Achei melhor convocar esta
reunião para expor a situação.
GERALDO MAGELA, o alcoólatra - (auditivamente bêbado e nem
um pouco didático) Porra, garçom, cadê o meu uísque?
VERA LÚCIA, a psicóloga de plantão - (calma e tensa ao
mesmo tempo, se é que me entendem) Era normal, dentro do quadro que os
dois vinham apresentando nos últimos anos.
TATINHO, o mais velho e inimigo do pai - (firme como uma
rocha) Não sei o que estamos discutindo aqui. O velho matou a velha. Tem
que ir para a cadeia.
MARIELLA, a Miss Laranja - (preocupadíssima) O que você
quer, Tatinho é assumir o conglomerado! Mas não pense que, com a prisão
do papai, você vai passar por cima de mim, não.
THALES - Pessoal, ninguém falou em prisão. Não tem o menor
sentido mandar o pai, aos 85 anos, para a cadeia.
GERALDO MAGELA - Quem ama, não mata.
VERA LUCIA - Eu queria que o Thales, que conversou a tarde
toda com ele, explicasse porque ele cometeu essa barbaridade. Se é que
cometeu, porque eu ainda não engoli essa história.
MARIELLA - Vocês viram aquele filme Parente é Serpente?
VERA LUCIA - Por favor, Marí. Vamos nos organizar. O que
foi que o papai alegou? Acho que a gente tem que dar um apoio
psicológico para ele.
TATINHO - Apoio psicológico, o cacete! O cara é um
assassino. Essa que é a verdade!
THALES - Posso falar, posso falar?
MARIELLA - Fala, Talico.
THALES - O papai me disse que não queria conversar com
todo mundo junto sobre o que aconteceu. Mas gravou uma fitinha. Vamos
ouvir.
TATINHO - É um covarde. Matou a mamãe e não tem coragem de
vir aqui explicar?
VERA LUCIA - Tatinho, você sabe que ele não está bem
psicologicamente.
TATINHO - Psicologicamente, o cacete!
GERALDO MAGELA - Esse uísque é falsificado, porra!
MARIELLA - Mostra a fita, Talico. Tatinho, não enche o
saco da Vera Lúcia, por favor.
TATINHO - Encho o saco de quem eu quiser. O cara mata a
minha mãe e eu tenho que calar a boca? Tenho certeza que a Vera Lucia, A
psicologa, vai explicar tudo freudianamente.
VERA LUCIA - O que é que você entende de Freud, cara? Se
você entendesse um pouco de psicologia a tua mulher não tinha feito o
que fez com você.
MARIELLA - Gente, esse assunto não está em pauta!
TATINHO - Corno é a mãe!
THALES - Pessoal, posso colocar a fita? Que coisa!
GERALDO MAGELA - (acho que foi isso que ele falou) A mãe
deve ter descoberto que o velho sempre bebeu escondido.. Só eu sei de
uns quatro porres homéricos dele.
VERA LUCIA - Geraldinho, respeite o seu pai!
(Thales liga um pequeno gravador, parecido com o meu. O
som não estava muito bom e pode ser que eu tenha perdido alguma coisa)
Confesso que matei a Nenzica, depois de aturá-la durante
61 anos. 61 anos! Depois de ouvirem este meu depoimento, peço que
apaguem a gravação e decidam o que fazer comigo. Não tenho mais idade
nem forças para fazer nada. Minha vida acabou. Resumidamente, foram dez
os motivos que me fizeram injetar potássio na veia do pé dela, dizendo
que era Lexotan líquido para ela dormir melhor. Vocês decidem!
Um - Vocês todos sabem que ela andava esquisita. Estou
casado com ela há 61 e toda manhã ela me perguntava - várias vezes - se
eu queria o leite frio ou quente. E vocês sabem que eu não tomo leite de
manhã. Tomo café com Coca-Cola.
Dois - Coloquei ventiladores no teto de quase todos os
cômodos da fazenda. E, desde então, ela reclama todos os dias que eles
fazem um ruidinho. Vocês sabem que não fazem. Mas ela brigava todo dia
comigo.
Três - O problema do papel-higiênico. Ela sempre foi da
teoria de quem acaba com o rolo é que deve providenciar o outro. Eu, por
outro lado, sempre achei que quem vai ao banheiro, deve, primeiro, olhar
se tem papel higiênico. Isso pode parecer uma bobagem, mas depois de 61
anos e uns 3.000 rolos, acaba dando rolo.
Quatro -
Desde os
anos 70,
que
ela cismava
que
eu frequentava a
Casa da Lina,
lá no
centro.
Pois
vocês sabem
que
eu
não vou à
zona,
desde o
tempo
que
ainda
era na
Rua
São Paulo,
com aquelas plaquinhas "Casa
de
Família".
Cinco - Um dia ela me confessou que teve um amante em
1967, depois que vocês todos já haviam nascido. Perdoei, na época. mas
esse negócio de corno sempre volta à nossa cabeça. Disse que transou com
o Julião, aquele jogador do Botafogo, no tempo que o estádio ainda era
na Vila Tibério.
Seis - Nunca consegui conviver com essa mania dela de
comprar o Baú da Felicidade. O sonho dela era participar do programa
Silvio Santos. Vocês hão de convir comigo que não ia ficar nada bem.
Cheguei a pagar, durante anos, para o produtor do programa, para que ela
não fosse sorteada.
Sete - A mãe de vocês nunca teve orgasmo. Pelo menos
comigo. Pois agora, que eu não tenho mais condições de oferecer isso a
ela, ela cismou de ter. E tem mais: de luz acesa. Fiz o possível, mas
não tenho mais condições.
Oito - Sempre ronquei e vocês sabem disso. Pois, de uns
tempos para cá, ela cismou com o meu ronco. Comprou uma vara de pescar
e, toda vez que eu começo a roncar, me dá chibatadas na minha bunda. E
vocês sabem que eu tenho vários cistos nas nádegas. Minha bunda está
cheia de crateras. E me proibiu de arrotar e soltar gazes, coisa que não
consigo cumprir regularmente.
Nove - Não quer que eu coma mais carne. Não vou fazer
nenhum comentário sobre isso. Imaginem eu, fazendeiro...
Dez - Em 1958 ela matou um galo de estimação meu.
Em tempo: vocês decidem o que fazer comigo.