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POTÁSSIO NA VEIA DA CALIFÓRNIA BRASILEIRA

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Revista VIP

23/01/95

 


Os cinco irmãos Machado de Rezende estavam no bar do velho e bom Hotel Umuarama, no centro de Ribeirão Preto.

- Pessoal, vou ser curto e grosso. O papai me confessou que matou a mamãe!

Dona Nenzica, a mãe, morreu, aos 81 anos, como um passarinho, disse a Babá, preta velha, empregada da família há mais de cinqüenta anos. Como um passarinho, aparentemente. Seu coração parou quando dormia ao lado de seu marido Pretestato Machado de Rezende, mais conhecido como Tato Rezende, médico aposentado, fazendeiro, latifundiário, industrial, político, rotariano, cursilhista de primeira, mulherengo de segunda e grande benemérito da cidade de Ribeirão Preto, na região paulista denominada "Califórnia Brasileira".

O velório, estranhamente encravado no Horto da cidade foi, no mínimo, concorrido e badalado. Tato Rezende ainda tinha suas influências na política e na economia da cidade e região. Seu filho Tatinho também. Sua filha Mariella (Miss Ribeirão Preto em 1969, segundo no Miss São Paulo, perdendo apenas para a hoje senhora Oscar Klabin Segall) também. E foi lá no velório, poucas horas antes do enterro de Dona Nenzica, que Tato confidenciou num canto, tomando cafezinho, do alto dos seus 85 anos, ao seu filho caçula, o temporão Thales, de 40 anos:

- Eu matei a sua mãe!

Thales, o predileto de Tato Rezende, havia chegado há menos de uma hora de Miami onde morava com a família e vendia, com sucesso, o suco de laranja produzido pelas indústrias do pai, o Laranjato. Olhou nos olhos vermelhos do pai agora viúvo, sentiu o seu hálito já amargado com algumas doses de Gin, fez que não ouviu aquela barbaridade. Mas o pai aproximou-se mais, e no seu ouvido, complementou, com a velha experiência de médico de interior:

- Apliquei nela uma injeção de potássio na veia!

E ainda teve a coragem de cometer um trocadilho ridículo, num ambiente tão fúnebre:

- Potássio na véia!

Aos outros filhos Tato Rezende jamais confessaria o hediondo crime. Pelo menos naquele momento. Se é que houve mesmo um crime. Tato já andava com sinais de esclerose há alguns anos. Thales sabia disso. Comentaria com os irmãos? Tatinho, o irmão mais velho, de 60 anos, não falava com o pai há mais de vinte anos, quando disputaram, na mesma eleição, uma vaga de deputado federal. O pai pelo MDB e o filho pela Arena. Tatinho já está no seu quinto mandato (atualmente, assessora o ministro das Comunicações Sérgio Motta) licenciando-se apenas uma vez, quando foi prefeito de Ribeirão Preto, no começo dos anos 80. Se Tatinho estava ali era em consideração à mãe, de quem sempre fora protegido.

Tatinho, convencido que o coração da mãe parara porque cansara, conversava num canto com a Vera Lucia, sua irmã e psicóloga, hoje envolvida no tratamento de aidéticos na capital paulista. O terceiro dos cinco irmãos, Geraldo Magela, 49 anos, o deu-pra-nada da família, alcoólatra famoso na cidade, protagonista de tantas e tantas etílicas brigas no bar Pinguim, bebericava o que achara por ali: uma garrafa de álcool, atrás de uma árvore. Mariella, a de número quatro, aos 45 anos, era quem cuidava de toda a fortuna dos Machado Rezende, avaliada em mais de quinhentos milhões de dólares, com punhos de aço. Agora era ela quem separava as flores, pagava a conta, organizava a saída do corpo de dona Nenzica para o cemitério, onde haveria missa de corpo presente. Mariella, conhecida nas altas rodas de Ribeirão como Miss Laranja, não poderia, jamais, imaginar que o seu pai e ídolo, pudesse ter matado a mãe.

É o que Thales pensava, olhando os irmãos que há muito tempo não se entendiam mais. Somente a morte para os unir. Conseguiu afastar Geraldo Magela que tentava, absurdamente, segurar numa das alças do caixão, completamente trôpego.

A missa era em latim, como sempre pedira dona Nenzica, diretora durante anos de entidades filantrópicas da cidade, presidente de honra da Associação Assistencial Santa Rita de Cássia, primeira-dama da cidade durante três prefeituras do seu marido e organizadora, durante uns trinta anos, do Baile de Debutantes da Recreativa. Thales vê seu pai saindo da capela e vai atrás dele, tropeçando no latim do padre Zavataro, eterno e paciente confessor do pai e da mãe. Lá fora, pai abraça filho:

- Eu não agüentava mais, meu filho! Você sabe como eu estava sofrendo. Era ela ou eu...

- Pai, eu não acredito nesta história absurda.

- Não houve autópsia. Eu sabia que não ia ter autópsia. Afinal, meu filho, eu dei aula na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto durante trinta anos. Ninguém ia desconfiar de mim. Como vão as coisas em Miami?

Tirou um lenço, assoou o nariz.

- Pai: em primeiro lugar eu não acredito nisso. Em segundo, pára de falar besteira, nem que seja só para mim. E vamos entrar que a missa ainda não acabou.

 

(Os leitores poderão estar a se perguntar como é que eu me inteirei de toda essa história. Acontece que eu estava hospedado, na semana passada, no Umuarama Hotel e aconteceu uma reunião familiar no bar do hotel. Quando eu percebi que a história era boa, liguei o meu gravadorzinho e o que se segue, é o diálogo, mais ou menos condensado, do que se passou na mesa atrás de mim).

 

THALES, o caçula - (visivelmente emocionado e quase didático) Apesar de todas as desavenças que existem entre nós, somos todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Achei melhor convocar esta reunião para expor a situação.

GERALDO MAGELA, o alcoólatra - (auditivamente bêbado e nem um pouco didático) Porra, garçom, cadê o meu uísque?

VERA LÚCIA, a psicóloga de plantão - (calma e tensa ao mesmo tempo, se é que me entendem) Era normal, dentro do quadro que os dois vinham apresentando nos últimos anos.

TATINHO, o mais velho e inimigo do pai - (firme como uma rocha) Não sei o que estamos discutindo aqui. O velho matou a velha. Tem que ir para a cadeia.

MARIELLA, a Miss Laranja - (preocupadíssima) O que você quer, Tatinho é assumir o conglomerado! Mas não pense que, com a prisão do papai, você vai passar por cima de mim, não.

THALES - Pessoal, ninguém falou em prisão. Não tem o menor sentido mandar o pai, aos 85 anos, para a cadeia.

GERALDO MAGELA - Quem ama, não mata.

VERA LUCIA - Eu queria que o Thales, que conversou a tarde toda com ele, explicasse porque ele cometeu essa barbaridade. Se é que cometeu, porque eu ainda não engoli essa história.

MARIELLA - Vocês viram aquele filme Parente é Serpente?

VERA LUCIA - Por favor, Marí. Vamos nos organizar. O que foi que o papai alegou? Acho que a gente tem que dar um apoio psicológico para ele.

TATINHO - Apoio psicológico, o cacete! O cara é um assassino. Essa que é a verdade!

THALES - Posso falar, posso falar?

MARIELLA - Fala, Talico.

THALES - O papai me disse que não queria conversar com todo mundo junto sobre o que aconteceu. Mas gravou uma fitinha. Vamos ouvir.

TATINHO - É um covarde. Matou a mamãe e não tem coragem de vir aqui explicar?

VERA LUCIA - Tatinho, você sabe que ele não está bem psicologicamente.

TATINHO - Psicologicamente, o cacete!

GERALDO MAGELA - Esse uísque é falsificado, porra!

MARIELLA - Mostra a fita, Talico. Tatinho, não enche o saco da Vera Lúcia, por favor.

TATINHO - Encho o saco de quem eu quiser. O cara mata a minha mãe e eu tenho que calar a boca? Tenho certeza que a Vera Lucia, A psicologa, vai explicar tudo freudianamente.

VERA LUCIA - O que é que você entende de Freud, cara? Se você entendesse um pouco de psicologia a tua mulher não tinha feito o que fez com você.

MARIELLA - Gente, esse assunto não está em pauta!

TATINHO - Corno é a mãe!

THALES - Pessoal, posso colocar a fita? Que coisa!

GERALDO MAGELA - (acho que foi isso que ele falou) A mãe deve ter descoberto que o velho sempre bebeu escondido.. Só eu sei de uns quatro porres homéricos dele.

VERA LUCIA - Geraldinho, respeite o seu pai!

 

(Thales liga um pequeno gravador, parecido com o meu. O som não estava muito bom e pode ser que eu tenha perdido alguma coisa)

 

Confesso que matei a Nenzica, depois de aturá-la durante 61 anos. 61 anos! Depois de ouvirem este meu depoimento, peço que apaguem a gravação e decidam o que fazer comigo. Não tenho mais idade nem forças para fazer nada. Minha vida acabou. Resumidamente, foram dez os motivos que me fizeram injetar potássio na veia do pé dela, dizendo que era Lexotan líquido para ela dormir melhor. Vocês decidem!

Um - Vocês todos sabem que ela andava esquisita. Estou casado com ela há 61 e toda manhã ela me perguntava - várias vezes - se eu queria o leite frio ou quente. E vocês sabem que eu não tomo leite de manhã. Tomo café com Coca-Cola.

Dois - Coloquei ventiladores no teto de quase todos os cômodos da fazenda. E, desde então, ela reclama todos os dias que eles fazem um ruidinho. Vocês sabem que não fazem. Mas ela brigava todo dia comigo.

Três - O problema do papel-higiênico. Ela sempre foi da teoria de quem acaba com o rolo é que deve providenciar o outro. Eu, por outro lado, sempre achei que quem vai ao banheiro, deve, primeiro, olhar se tem papel higiênico. Isso pode parecer uma bobagem, mas depois de 61 anos e uns 3.000 rolos, acaba dando rolo.

Quatro - Desde os anos 70, que ela cismava que eu frequentava a Casa da Lina, lá no centro. Pois vocês sabem que eu não vou à zona, desde o tempo que ainda era na Rua São Paulo, com aquelas plaquinhas "Casa de Família".

Cinco - Um dia ela me confessou que teve um amante em 1967, depois que vocês todos já haviam nascido. Perdoei, na época. mas esse negócio de corno sempre volta à nossa cabeça. Disse que transou com o Julião, aquele jogador do Botafogo, no tempo que o estádio ainda era na Vila Tibério.

Seis - Nunca consegui conviver com essa mania dela de comprar o Baú da Felicidade. O sonho dela era participar do programa Silvio Santos. Vocês hão de convir comigo que não ia ficar nada bem. Cheguei a pagar, durante anos, para o produtor do programa, para que ela não fosse sorteada.

Sete - A mãe de vocês nunca teve orgasmo. Pelo menos comigo. Pois agora, que eu não tenho mais condições de oferecer isso a ela, ela cismou de ter. E tem mais: de luz acesa. Fiz o possível, mas não tenho mais condições.

Oito - Sempre ronquei e vocês sabem disso. Pois, de uns tempos para cá, ela cismou com o meu ronco. Comprou uma vara de pescar e, toda vez que eu começo a roncar, me dá chibatadas na minha bunda. E vocês sabem que eu tenho vários cistos nas nádegas. Minha bunda está cheia de crateras. E me proibiu de arrotar e soltar gazes, coisa que não consigo cumprir regularmente.

Nove - Não quer que eu coma mais carne. Não vou fazer nenhum comentário sobre isso. Imaginem eu, fazendeiro...

Dez - Em 1958 ela matou um galo de estimação meu.

 

Em tempo: vocês decidem o que fazer comigo.