Página anterior

Porre de scotch

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1998

 


As televisões e os jornais já devem ter mostrado, aí no Brasil, os escoceses e suas saias voadoras. Mas nem tudo deve ter sido exibido. Principalmente se considerarmos que (consta!), por baixo, não usam nada a não ser o que a natureza lhes legou para uso próprio e reprodutivo.

Mas os escoceses são surpreendentes, cara. Em primeiro lugar, pela quantidade deles. Você deve ter achado que, no jogo, era tudo brasileiro, por causa da cor amarela no estádio. Primeiro engano: sei lá porque, mas a bandeira da seleção deles é amarela com um leão vermelho no meio, de brasão. Portanto, muitos deles estavam de amarelo. Em segundo lugar, você não viu os caras bebendo. Feito gente grande.

Mas vamos voltar às saias. Noventa por cento dos vinte mil (cálculo meu) escoceses que cairam aqui, usavam saia. E todas iguais. Ou seja, de pura lã e xadrezinha, lembrando as colegiais do Des Oiseaux (é assim que escreve o nome daquele antigo colégio de São Paulo?). Nisso eles também não são criativos. Nenhuma sainha lisa, nada. Todas xadrezinhas, com pregas (a saia). Andavam em bando, verdadeiras horas, aqui por Paris, ostentando aquelas pernas brancas, peludas, varicocéfalas. Um horror!

Na fila do banheiro do estádio, vários deles na minha frente. A vontade de entrar junto era enorme, quase irresistível. Será que eles se sentam para fazer xixi? Sim, não estou maluco, pois deve ser uma dificuldade fazer a necessidade de pé, levantando a saia e, com a outra mão, segurar o copo ou a garrafa.

Copo! Chegamos onde eu queria. Como já dise o Mateus ontem, são os campeões do Copo do Mundo. Por mais que você tente, jamais conseguirá imaginar o que um escocês é capaz de beber. E não é só scotch, não. Muita cerveja e o que pintar, eles traçam. E toma xixi! Ficaram uns três dias por aqui, bebendo. O jogo era apenas um motivo pra baco nenhum botar defeito. Não ficaram nenhum pouco preocupados com a derrota. O que eles queriam mesmo era rosetar. E abraçar a gente.

O interessante de tudo isso, motivo desse escrito aqui é que, como todo mundo usa a roupa igual, eles se nivelam.  Parecem ser tudo da mesma tribo. Como na praia. Todo mundo de maiô, ninguém sabe quem é rico ou pobre. Eles também, se nivelam por baixo, sem nenhum trocadilho ou ofensa. São todos iguais, fortes, bem tratados, desenvolvidos, eu diria.

Depois do jogo, na quarta, é que a gente começou a notar a diferença entre eles. Pode ter certeza que uma grande parte deles era de pobres, isso para não dizer mendigos. Perambulavam pelas ruas de Paris (pode ser mais chic do que perambular pelas ruas de Paris, Glorinha Kalil?), bêbados, pedindo esmola, entrando nos bistrôs a implorar um pedaço de pão avec fromage, pelo amor de Deus e de her majesty.

Isso mesmo. Muitos daqueles bonitos e alegres escoceses não tinham onde cair morto. E, suponho, nem dinheiro para pagar o trem de volta. Aqui na frente do meu hotel tinha um monte deles. Dentro também. Só que no hall da fama estavam os ricos. Não se misturavam. Mais ou menos como aí no Brasil.

Da porta do hotel eu olhava para fora e para dentro. Todos iguais: a mesma saia, o mesmo chapéu, o mesmo porre. Sim, os ricos também bebem. Tudo igual. Até hoje o elevador exala álcool e salpica pedacinhos de lã.

Fiquei a pensar nos nossos mendigos. Como são subdesenvolvidos os nossos mendigos! Os escoceses, não! Viajam para o exterior, assistem à estréia de uma copa do mundo e bebem uísque. Nacional, mas bebem. São corados, fortes, bonitos, loiros! Mendigos loiros, minha amiga.

E ontem, de madrugada, vinha eu para o meu quarto ver o replay do jogo quando vejo um deles (não mendigo) vindo na minha direção, uns quarenta bem nutridos anos, arrastando a saia, literalmente batendo pelas paredes, caidaço mesmo, segurou no meu braço e balbuciou:

- Kiss me, baby...

Eu, hein! Sou mais uma marroquina. É esperar pra ver. Haxixe é que não vai faltar.

Até lá o Zagallo já deve ter concluído (ele é meio lento, gente) que o Leonardo e o Denilson devem entrar de cara, que o Ronaldinho tem que vir de trás, como contra os escoseses e que o Edmundo é mais útil voltando para o Brasil para tomar o scotch importado dele.